Resumo da obra “Investigação acerca do entendimento humano” de David Hume

RESUMO DA OBRA “INVESTIGAÇÃO ACERCA DO ENTENDIMENTO HUMANO” DE DAVID HUME

Por: André Luiz Avelino

Graduando em Filosofia – FFLCH – USP

Dos Dois Tipos de Filosofia.

1 – Enfoca o homem como ser ativo, voltado à ação. Os filósofos dessa classe procuram influenciar a conduta humana por exemplos de virtude e vício por meio de recursos poéticos e imaginativos, tocando seu sentimento – filosofia fácil;

2 – Enfoca o homem como ser racional. Os adeptos desta filosofia esforçam-se para formar seu entendimento por meio de estudos, sobre a natureza humana, sobre os modos de operação da mente, sobre os princípios que regulam as paixões e daqueles que fornecem a moral uma fundamentação objetiva – filosofia complexa.

A filosofia racional (complexa, profunda, abstrusa) é fonte de erro e incertezas, mais precisamente uma parte da metafísica, a metafísica falsa e adulterada, que não constitui uma ciência. Ela objetiva penetrar em recintos inacessíveis ao entendimento humano; sistemas racionalistas tradicionais e superstições favorecedoras de erros e absurdos; Pretende obter, por processo de raciocínio conhecimento do poder secreto pelo qual um objeto produz outro.

Da Metafísica Verdadeira.

Filosofia profunda que quando bem conduzida desmascara a ignorância e a obscuridade da metafísica falsa; efetua um exame minucioso das faculdades da natureza humana; possibilita estabelecer uma geometria mental, um delineamento das diferentes partes e poderes da mente; busca a compreensão da mente pela redução de suas operações e princípios mais gerais que devem estar na base de todas as demais ciências. Filosofia Cética ou Acadêmica – Delimita suas pesquisas a real capacidade do entendimento.

Da Origem das Ideias.

Todas as ideias são cópias das impressões. O poder criador do pensamento está restrito a composição, transposição, aumento e diminuição dos materiais fornecidos pela experiência (impressões) – Princípio fundamental Humeano.

Argumentos que fundamentam este princípio:

1 – Submetendo nossas ideias a análise, verificamos que se compõem de ideias simples, cópias de uma impressão precedente;

2 – Quando, devido a um defeito do órgão sensorial ou falta do objeto do sentido, quando alguém por esses motivos não teve uma determinada impressão, verifica-se que também não possui a ideia correspondente.

Por esse princípio pode-se libertar a filosofia de enganos, ele identifica palavras sem significa distinto. Devemos nos inquirir de que impressão poderia ter surgido uma ideia duvidosa. Não sendo possível encontrar nenhuma impressão correspondente, após aplicá-la ao princípio de que todas as ideias simples são cópias de uma impressão precedente, então essa ideia não é real.

Portanto, percepções são impressões (percepções fortes e vividas) ou ideias (pensamentos, percepções fracas, cópias das impressões) – ambas diferem apenas na intensidade.

Dos Princípios de Conjunção de Ideias.

As operações do espírito humano dependem das associações de ideias. As ideias se associam com certa regularidade e método, a partir de 3 princípios:

1Semelhança: um retrato leva nossos pensamentos para o original;

2Contiguidade no espaço e no tempo: a menção de um cômodo nos leva a investigação dos demais;

3Causa “ou” efeito: se pensarmos em um ferimento pensaremos também sobre a dor que se segue.

Dos Objetos da Razão.

Os objetos da razão são relações de ideias, ou questões de fato.

- Relações de Ideias: verdades determinadas por intuição ou demonstrações; são descobertas por raciocínios e não por dependerem de algo existente, como por exemplo, o princípio de que o todo é maior que as partes;

- Questões de fato: são representações do que acontece no mundo, observadas pela experiência, o que aconteceu de fato, mas que poderia ser diferente, como por exemplo, que Napoleão venceu determinada batalha, mas, no entanto, ele poderia ter perdido.

Dúvidas Céticas sobre as Operações do Entendimento.

1 – O que fundamenta os raciocínios sobre as questões de fato? É possível obter conhecimento acerca destas questões antes da observação? A princípio “parecem” fundamentarem-se na relação de causa ou efeito. Ex.: Se encontrarmos um objeto artificial em uma ilha deserta concluiremos que já houver homens lá.

2 – Mas como obtemos o conhecimento de causa e efeitos, conjunção constante de fenômenos? Não são alcançados por raciocínios a priori. Quando encontramos objetos que apresentam particularidades, por meio de conjunção, aproximamos uns dos outros.

É mais fácil de admitir que causas ou efeitos não possam ser descobertos pela razão, a priori, mas unicamente pela experiência, quando os objetos em questão nos são desconhecidos, ou quando nos são poucos comuns, ou quando seus efeitos dependam supostamente de uma estrutura complexa.

Mas quando nos são familiares desde o nosso nascimento, ou quando tem analogia com o curso da natureza, ou quando dependem supostamente de estruturas simples, somos propensos a imaginar que podemos descobrir seus efeitos ou suas causas por meio de raciocínios.

Todo efeito é um evento distinto de sua causa. E mesmo depois que o efeito tenha sido sugerido, a conjunção do efeito com a causa deve ser igualmente arbitrária.

Toda ligação entre causa e efeito não é de natureza necessária. O máximo alcançável pela razão é a redução de princípios da ação dos corpos a algumas causas mais simples e gerais, como as leis de Newton.

3 – Qual é, portanto, o fundamento de todas as questões da experiência? Observado diversas vezes que a cera se funde ao aproximá-la do fogo, o que me garante que ela se fundira sempre? Nas conjunções constantes de fenômenos (supostas relações de causa e efeito) não há contradição na suposição de que o curso da natureza possa se alterar, invalidando a experiência passada, não havendo desta forma uma fundamentação demonstrativa, logo não se trata de um argumento de relações de ideias. Também não se fundamentam em questões de fato, que se baseiam em relação de conjunção constante de fenômenos, que por sua vez se baseiam na experiência.  Então dizer que as questões da experiência se baseiam em questões de fato é dizer que elas se fundamentam nelas mesmas.

Então as questões da experiência não se fundamentam na razão mediante raciocínios em nem nas questões de fato.

Solução Cética destas Dúvidas.

Em nossas inferências experimentais há um passo que a mente dá sem o apoio de nenhum raciocínio. Se a mente não é levada a efetuar esse passo por argumentos, tem de ser induzida por algum princípio de igual peso e autoridade. Uma pessoa sem experiência, que chegasse ao mundo repentinamente verificaria apenas uma sucessão continua de objetos. Não formaria de imediato, pelo raciocínio, a ideia de causa e efeito, e nem mesmo inferiria a ocorrência de um evento a partir da aparição de outro. Quando passasse a observar a conjunção regular de objetos ou eventos, começaria a fazer essas inferências, mas nenhum processo de raciocínio lhe daria conhecimento do poder secreto pelo qual um objeto produz outro. Apesar disto a pessoa estaria determinada a fazer inferência por algum princípio. Esse princípio é o costume ou hábito.

Do Costume ou Hábito.

Torna útil nossa experiência a nós, e nos faz esperar, no futuro, uma sequencia de eventos similares aos que nos apareceram no passado. Sem sua influência seriamos ignorantes acerca de toda questão de fato, é ele quem as fundamenta. No entanto, para que o hábito produza as inferências causais algum fato deve estar presente aos sentidos. O hábito é uma espécie de instinto natural e não um raciocínio.

Natureza da Crença (hábito ou costume) que Resulta da Conjunção Costumeira de Objetos.

A crença ou ao hábito se anexa uma espécie de sentimento ou sensação provocado pela natureza (instinto natural) independente da vontade, tornando a crença diferente da ficção. É um ato da mente que torna as realidades, ou o que é tomado como tal, mais presente do que as ficções, fazendo-as pesar mais no pensamento, e dando-lhes uma influência superior sobre as paixões e a imaginação; a crença é a concepção de um objeto mais vivido, mais forte que a imaginação.

Da Ideia de Probabilidade.

A ideia de probabilidade surge dos casos em que a conjunção de objetos ou eventos não são sempre constante. Neles a vivacidade que o hábito comunica a ideia associada à impressão presente é menos, e por consequência, também será menor a crença em seu objeto.

Da Origem da Ideia de Conexão Necessária.

Como as operações dos objetos externos não podem fornecer nenhuma ideia de poder de conexão necessária, mas somente de conjunção como demonstrado, então cabe à investigação das operações da mente para verificar se a ideia de conexão necessária provém dela.

Argumentos que Refutam a Possibilidade de Derivar das Operações da Mente a Ideia de Conexão Necessária.

1 – Da ação da vontade sobre os órgãos do corpo: É inegável que a vontade tem influência sobre o corpo, mas os meios pelo qual isso se realiza nós não temos conhecimento. Não conhecemos o poder que liga a alma e o corpo. Alguns órgãos se movem involuntariamente, se tivéssemos conhecimento de como se dá a influência sobre os que podemos mover saberíamos o porquê não movemos aqueles. O poder original não é sentido, se fosse deveria ser conhecido, já que todo poder é relativo a seu efeito.

2- Da ação da vontade sobre as próprias ideias: É inegável que a vontade pode fazer com que nossas ideias apareçam ou desapareçam na mente, mas esse comando não nos dá real ideia de energia. Não conhecemos o poder da vontade sobre as ideias, se percebêssemos o poder que a mente tem sobre elas saberíamos seus limites. O comando da mente sobre as ideias é variável de acordo com o estado de saúde, horas do dia, e etc.

Apenas apreendemos pela experiência interna ou externa à mente a conjunção frequente dos objetos, sem jamais sermos capazes de apreender a conexão necessária entre eles.

Da Ideia de Deus.

A ideia de Deus significando o Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, nasce da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito, aumentando indefinidamente as qualidades de bondade e de sabedoria.

Definição de Ideia de Relação de Causa e Efeito e Consequentemente sua Origem.

Objeto seguido de outro, tal que todos os objetos similares ao primeiro, são seguidos de objetos similares ao segundo, e se caso o primeiro não existisse, supostamente o segundo jamais teria existido; Um objeto seguido de outro, e cujo o aparecimento de um sempre conduz o pensamento naquele outro. No entanto não podemos apontar na causa, nada que lhe atribua uma conexão necessária com seu efeito.

Da Ideia de Liberdade.

A ideia de liberdade provém da possibilidade de agir ou não agir, segundo determinações da vontade.

Da Ideia de Necessidade.

A ideia de necessidade provém do sentimento vivido gerado pelo hábito da uniformidade observada na natureza e na sequência determinante da mente em inferir um objeto a partir da aparição de outro. A sujeição da vontade a necessidade deve ser entendida de modo semelhante: nos seres humanos, tem-se observado que os mesmo motivos sempre produzem as mesmas ações. Generalizando-se, chega-se a máxima de que a conexão entre motivos e as ações humanas é igualmente necessária. E quando nenhuma conexão semelhante entre motivos e ações é sentida, infere-se que não estão ligadas por necessidade.

Portanto necessidade e liberdade não são incompatíveis.

Da Razão.

Razão é conhecimento adquirido pela experiência, passível de desenvolvimento.

Do Instinto.

O instinto é o poder mecânico que atua de forma desconhecida, dado pela natureza.

Da Ideia de Milagre.

Milagre por definição são violações das leis naturais. Mas contra eles pesa a regularidade invariável da experiência passada, que constitui tais leis. Como uma experiência uniforme é informação de peso a ser considerada, há aqui, pela própria natureza, uma prova contra a possibilidade da existência de qualquer milagre.

Da Inferência da Existência de um Criador Infinitamente Bom a partir da Ordem da Natureza.

Quando argumentamos a partir do curso da natureza, e inferimos uma causa inteligente, que no inicio conferiu ordem ao universo e a preserva, abraçamos um princípio que é incerto e inútil. É incerto, porque a questão esta completamente fora do alcance da experiência humana; e inútil porque derivando o nosso conhecimento inteiramente do curso da natureza, nunca podemos, pelas regras do justo raciocínio, retornar a causa com nenhuma inferência nova ou adição de conclusões que não estejam no efeito. A divindade deve ser entendida como singular, pois o mundo é singular. No entanto, mesmo esse conhecimento é incerto, pois apenas, quando duas espécies de objetos são observados conjugados além de sua primeira aparição podemos inferir um a partir do outro.

Objetivo e Utilidade das Ciências.

Portanto, em conclusão a investigação acerca do entendimento humano, os objetivos e a utilidade das ciências são esclarecer-nos como controlar e regular os eventos futuros através da observação da conjunção constante dos eventos passados.

8 comentários em “Resumo da obra “Investigação acerca do entendimento humano” de David Hume

  1. Lucas disse:

    Obrigado por esta publicação, me auxiliou bastante ao entendimento.

  2. Roger disse:

    Obrigado!

  3. Precisa de revisão ortográfica e um pouco mais de detalhe. Útil ainda assim.

  4. [...] seu Investigação acerca do entendimento humano, Hume nos faz constatar que a imaginação está inescapavelmente presa a nossa experiência com a [...]

  5. thayse disse:

    Foi de suma importância esses esclarecimentos sobre o entedimento
    humano.Obrigada!!!

  6. Mario Tito disse:

    Sem exageros, bom resumo! De grande valia.

  7. Lúcia Dórea disse:

    Obrigada.

  8. Thiago Rodrigues de Souza disse:

    excelente resumo… Obrigado!!!

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