O AUTÔNOMO NO PENSAMENTO DE SANTO TOMÁS DE AQUINO. UMA RESPOSTA À LEITURA DE FRANCIS SCHAEFFER.

“Se alguém vai passar uma longa temporada no exterior, é de se esperar que aprenda a língua do país a que se destina. Mais do que isso, entretanto, faz-se necessário ele poder realmente comunicar-se com aqueles no meio dos quais viverá. Impõe-se-lhe aprender ainda outra língua – a das formas de pensamento das pessoas com quem falará. É somente assim que conseguirá real comunicação com elas e a elas”.
(SCHAEFFER, 1974, p.5.).

Dr. Francis Schaeffer (1912-1984). Um dos mais importantes pensadores do Cristianismo no século XX.

Com Posfácio do Professor Doutor Carlos Arthur Ribeiro Nascimento.


Apresentação.

A gênese deste escrito lança raízes em minhas experiências de leitura há muito passadas.
Durante muito tempo – em meados da década de 90 – fui um leitor entusiasmado e voraz das obras de Santo Tomás de Aquino, sobretudo, dos títulos mais acessíveis ao público não-especializado – Compêndio de Teologia (1272) e O Ente e Essência (1254-1256) . Suas obras me auxiliavam na reflexão de minha vivência de fé cristã num mundo cada vez mais secularizado; e foi assim por um longo tempo.
Até que tomei conhecimento das obras do teólogo reformado Francis Schaeffer, este com muita erudição e apelo à autoridade dos textos bíblicos proferira certo juízo negativo acerca de determinados aspectos da obra de Santo Tomás, juízo este que alterou minha própria apreciação dos escritos do Aquinate e fez com que fenecesse a admiração e o interesse que tinha por sua obra.
No trato que mantive durante os anos subseqüentes com diversos escritos históricos e filosóficos, deparava-me constantemente com referências ao Doutor Angélico e a influência de sua obra na Filosofia e na Teologia Ocidental; e, pressentia que haveria um momento de minha vida em que eu teria que acertar contas com o Aquinate, lidar com nossa relação mal-resolvida.
Ao tomar conhecimento que teria a oportunidade de ser aluno do Professor Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento no curso de graduação em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, não hesitei e matriculei-me em sua disciplina – mesmo já tendo cursado uma equivalente. Esta não era a primeira vez que o professor cruzava meu caminho, há alguns tivemos um encontro casual numa Livraria – Sebo – no bairro de Pinheiros, onde após um período de conversa acerca de temas filosóficos – sem eu saber quem era meu interlocutor – ele me disse: – Meu jovem você devia fazer Filosofia!
Ante a expectativa deste curso, crescia em mim a certeza que a oportunidade para retomar a questão, que ficara em aberto, se daria por meio deste contato renovado com o entusiasmo e o fascínio provocado pela obra de Santo Tomás através das exposições do professor Carlos Artur. A ocasião se mostrava oportuna, durante um semestre aprendemos mais sobre a atmosfera intelectual em que se formou o pensamento do Aquinate. E sob a orientação do professor debruçamo-nos sobre o “Comentário de Santo Tomás ao Tratado da Trindade de Boécio” e também sobre o “Comentário de Santo Tomás à Metafísica de Aristóteles” – tudo isso sob o amparo de diversos textos complementares.
Compartilhei com o professor meu interesse em elucidar minha “velha” questão, expondo-lhe, inclusive, os detalhes da tese de Schaeffer – tese esta que ele achou interessante e inusitada, mesmo apresentando breves ressalvas – fiz a proposta de, a partir dos conhecimentos adquiridos em seu curso, tratar da questão confrontando os dois pensadores no meu trabalho de conclusão ao semestre. Minha proposta foi aceita com entusiasmo e sob sua orientação, retomei a questão.
Portanto, o escrito que o leitor tem em mãos é fruto da necessidade intelectual-espiritual do autor em resolver um relacionamento passado que ficou mal-resolvido, em expurgar o sentimento de frustração diante de teorias que parecem irreconciliáveis e em resgatar uma “velha” e boa amizade que outrora estava perdida no passado da incompreensão e da desesperança.
Todavia, apesar da tônica de pessoalidade conferida por esta breve apresentação, este escrito é paradigmático e pretende também – talvez até de modo primeiro – servir como uma pequena contribuição ao necessário, porém difícil diálogo entre a Teologia Católica e a Teologia Protestante e à tentativa de apaziguar “querelas antigas” apontando para a importância conjunta da contribuição intelectual e do vigor espiritual destas duas grandes tradições à Civilização Ocidental!
Agradeço a Deus por esta oportunidade, e, ao professor Carlos Arthur que tão gentil e perspicazmente me conduziu por estas sendas e escreveu o singelo posfácio a este texto.
São Paulo, 18 de Janeiro de 2011.
Carlos Eduardo Bernardo


Resumo.

Neste breve escrito pretendemos refletir acerca de uma concepção atinente ao pensamento de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), conforme exposta nas obras de Francis Schaeffer, mormente em seu livreto, A Morte da Razão . Concepção essa que perpassa não apenas a trilogia à qual pertence esta obra, mas a todo o pensamento do autor em questão. Grosso modo, podemos dizer que Francis Schaeffer advoga encontrar na obra de Santo Tomás de Aquino, a idéia de uma autonomia da razão, mas não apenas isso, e sim uma autonomia da razão frente ao problema soteriológico.
Portanto, pretendemos averiguar se esta tese de Schaeffer se justifica ou não; para tanto, nos reportaremos não apenas à obra em questão, mas, sobretudo, aos escritos do próprio Santo Tomás de Aquino, que com certeza são abundantes na discussão sobre o status da razão, tanto no estado pré-queda, quanto no estado pós-queda, lembrando que este último é o mais relevante para a presente discussão.
Palavras-chave. Razão, Intelecto. Autonomia. Salvação. Irracionalidade. Modernidade.
Sobre o autor.
Francis Schaeffer (1912-1984) é talvez um dos mais importantes pensadores do Cristianismo, de vertente evangélica, do século XX. Crítico de arte, dramaturgo, filósofo, teólogo e ministro cristão. Pensou os problemas relativos à fé e a cultura e percebeu, como nenhum outro antes, que o grito surdo e o desespero do homem moderno são resultantes de uma fuga para um mundo de irracionalidade que nega o único fundamento legítimo para todo conhecimento, Deus.
Schaeffer era dotado de enorme perspicácia intelectual e profundidade espiritual; junto a sua esposa Edith Schaeffer fundou em 1955 a Comunidade L’Abri (Suíça), local que se tornou um importante centro espiritual e de propagação do Evangelho, além de um pólo de convergência intelectual, onde Schaeffer amadureceu ainda mais seu pensamento através dos diversos diálogos ali travados, fazendo com que sua abordagem fosse livre dos diversos academicismos, embora conservasse todo rigor necessário para a inquirição filosófica .

A Morte da Razão - Editora Fiel (ABU)

O Problema.
Schaeffer considera a obra de Santo Tomás Aquino aquela que transformou de forma efetiva o mundo, e, segundo ele, foi realmente Santo Tomás quem nos introduziu na Renascença humanista. Além disto, Santo Tomás quem abriu-nos o caminho à discussão que é convencionalmente designada “natureza e graça”, sendo a graça o nível superior da realidade e a natureza o nível inferior. O autor representa isto com o seguinte diagrama:

GRAÇA, O NÍVEL SUPERIOR:
DEUS O CRIADOR; O CÉU E AS COISAS CELESTES; O INVISÍVEL E SUA INFLUÊNCIA NA TERRA; A ALMA HUMANA; A UNIDADE.

NATUREZA, O NÍVEL INFERIOR:
A CRIAÇÃO; A TERRA E AS COISAS TERRENAS; O VISÍVEL E O QUE FAZEM A NATUREZA E O HOMEM NA TERRA; O CORPO HUMANO; A DIVERSIDADE.
(Schaeffer, 1974, p. 7).
Schaeffer argumenta que até a introdução deste dualismo a representação do mundo seguia um esquema bizantino, ou seja, as realidades celestes capitalizam toda a importância e sua santidade impunha uma representação simbólica, em hipótese alguma eram representadas de forma realista. A natureza, em si mesma, não suscitava interesse no artista, a não ser enquanto símbolo das coisas celestes. O autor observa, acertadamente, que Santo Tomás mantinha um princípio de unidade que correlacionava os dois âmbitos (graça e natureza), e, que a partir de sua proposta, muitos se esforçaram para manter a unidade, numa esperança de racionalidade. E conclui que antecipando o pensamento renascentista, Santo Tomás deu-nos a noção da necessidade de valorização da natureza, posto que, a valorização apropriada da natureza equivale à valorização apropriada do próprio Deus e vice-versa.
Todavia, Schaeffer nos diz que é a partir destas considerações introdutórias que podemos lançar um novo olhar sobre o diagrama natureza e graça.
Ao mesmo tempo, estamos agora em condições de ver o significado do diagrama da natureza e graça numa perspectiva diferente. Embora bons resultados adviessem da posição de maior realce conferida à natureza, isso deu lugar a muita coisa de cunho destrutivo, como se verá.
(Schaeffer, 1974, p. 9).
Schaeffer advoga que a valorização da natureza, de acordo com o esquema supra, deduzida do pensamento de Santo Tomás, já tem o germe do humanismo que caracterizará o período renascentista, e isso, em uma tendência sempre crescente até assumir as proporções que podemos contemplar nos tempos hodiernos. Esse germe é a afirmação da autonomia da razão.
Na concepção tomista a vontade humana estava decaída, mas não o intelecto. Dessa noção incompleta do conceito bíblico da Queda, defluiram todas as dificuldades subseqüentes. O intelecto humano se tornou autônomo. Em um aspecto era o homem agora independente, autônomo.
(Schaeffer, 1974, p. 9).
Segundo Schaeffer, um dos resultados do conceito de autonomia da razão é a capacidade humana em elaborar uma teologia natural, esta é uma teologia que pode ser formulada independentemente da Escritura. Schaeffer tenta fazer justiça a Santo Tomás lembrando-nos que este pressupunha uma unidade final entre esta teologia natural e aquela haurida da Escritura.
Como o autor, de forma perspicaz, salienta, as diversas disciplinas (ou saberes) são elaborações humanas e coisas de homens, estas “[...] não se podem conceber como linhas paralelas não relacionadas”. (Schaeffer, 1974, p.10). Portanto, os efeitos nocivos desta autonomia logo se fizeram sentir em todas as áreas e inclusive na Filosofia.
Com base neste princípio de autonomia, também a filosofia se tornou livre e se separou da revelação. Portanto, a filosofia começou a criar asas, por assim dizer, voando por onde quer que lhe aprazia, deixando à margem as Escrituras. Não quer dizer que essa tendência não se manifestara em tempos anteriores, apenas que de agora em diante se patenteia de maneira mais completa. Nem se limitou à teologia filosófica de Tomás de Aquino. Bem logo se fez sentir no mundo da arte.
(Schaeffer, 1974, p. 10).
Para Schaeffer, Santo Tomás abriu o caminho a um humanismo autônomo, a uma Filosofia autônoma, enfim a um movimento de autonomia que desaguou como um dilúvio e proporcionou à natureza, agora autônoma, o poder de devorar a graça, processo esse que se tornou efetivo na Renascença.
Desembaraçando o emaranhado.
Schaeffer é sem dúvida alguma um pensador digno de respeito, A Morte da Razão, foi, dentre suas obras, a primeira que tivemos oportunidade de ler, e, confessamos que a despeito de seu pequeno porte a ela é extremamente rica, variada e provocativa.
Não fosse por uma preocupação em se manter o rigor filosófico de nossas reflexões, talvez, jamais voltássemos às questões que ela nos suscitou. Todavia, tendo voltado, propomo-nos em levar esta empresa até o fim. Naturalmente, não esgotaremos o problema, mas com certeza desembaraçaremos, ao menos um pouco, o complexo emaranhado em que parece ter sido envolvido o pensamento de Santo Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus!
A abordagem Dois-Andares.
Inicialmente devemos tecer algumas observações sobre o esquema graça e natureza, representado no diagrama proposto por Schaeffer, e, que segundo ele remete-nos a uma nova concepção da realidade, concepção essa inaugurada por Santo Tomás.
Esta abordagem habitualmente é designada como conceito dois-andares, e desde o momento em que os cristãos envolveram-se, realmente, com a Filosofia ela foi procurada e exercitada no decurso dos séculos, e isso, mesmo por contemporâneos de Santo Tomás.
Posto que, esta abordagem está intimamente relacionada à possibilidade de se fazer dois tipos de teologia; poderíamos retroceder a inquirição sobre este recurso até períodos que antecedem o próprio advento do Cristianismo, apontando para que o pensar esta possibilidade de duas teologias é, sem dúvida alguma, muito mais antigo, e isso se tivermos em conta que uma teologia revelada, de certo modo, já se encontra na base da religião dos hebreus (sempre vinculada à revelação bíblica) e uma teologia natural, remonta à Filosofia clássica de Platão (c 428-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), para não falar dos pré-socráticos, embora não possamos deduzir disto que qualquer relacionamento entre ambas já existisse na Antigüidade . Porém, não enveredemos por essas sendas, pois elas nos conduziriam a caminhos mais longínquos do que aqueles que importam a esta reflexão.
O que realmente é necessário destacar é que a abordagem dois-andares já se fizera presente, ao menos, deste Agostinho (354-431) e Boécio (480-524). Ainda mais, é notório que mesmo no período da Patrística, o problema de se estabelecer à exata relação entre a fé e a razão já se tornara central da reflexão cristã, e, isso de modo mais acentuado entre os Padres Gregos. Certo é que alguns tinham uma visão mais organicista da relação entre ambas, a exemplo de Clemente (c.150-217) e Orígenes (c.185-253); porém, tem sido sustentado que outros as concebiam como relativamente estanques, e que esta tendência foi a que se tornou mais comum no período medieval . Todavia sempre houve entre ambas a convicção de que a fé e razão não são de natureza totalmente heterogêneas devido à possibilidade em correlacioná-las!
A Distinção das Ciências.
Em Santo Tomás vemos uma culminância possível do esforço em conjugar harmoniosamente a auctoritas e a ratio, esforço este que se desenrolara durante séculos, onde ora a pêndulo se inclinava mais para a ratio, a exemplo de Boécio (480-524), ora se inclinava mais para a auctoritas, Hilário (315-367). Sempre que se fazia necessário um modelo que mantinha o equilíbrio entre os dois princípios, era necessário retornar a Agostinho, o Mestre do Ocidente. Mas, novos problemas se punham diante do Cristianismo, e a redescoberta de Aristóteles requererá uma nova síntese que viesse a nutrir-se menos do neoplatonismo e que se conciliasse com as novas fontes de saber que impulsionavam as ciências .
Mas ao fazer isso, Santo Tomás não confundiu as disciplinas e tampouco atribuiu à razão alguma qualidade que, de certo modo, ferisse a graça, antes ele estabeleceu solidamente a distinção entre a filosofia (entendida como a philosophia prima) e a teologia (entendida como doctrina sacra) delimitando claramente os seus terrenos. Boehner observa:
Embora, pensadores cristãos de eras anteriores houvessem percebido claramente a distinção entre filosofia e teologia, contudo nem sempre procederam a uma delimitação exata entre as duas ordens, pelo menos no que concerne à exposição concreta de suas doutrinas. Com S. Tomás acentua-se a tendência para destacar as conseqüências práticas desta distinção, já teoreticamente reconhecida, entre os dois domínios. Todavia, a idéia de uma filosofia separada e totalmente autônoma lhe é tão alheia quanto aos outros grandes vultos da filosofia cristã.
(Boehner / Gilson, 2008, p. 450).
Consideremos que Santo Tomás adota a distinção aristotélica das três ciências, a saber: as teóricas ou especulativas; as práticas e as produtivas. Sendo que entre as ciências teóricas, temos a Teologia, a Matemática e a Física.
No Comentário ao Sexto Livro da Metafísica de Aristóteles, Santo Tomás distingue as três partes da filosofia teórica, sendo a primeira uma aitiologia (aquela que trata das causas), livro V I, Lição 1ª. 1164; a segunda uma ontologia (aquela que trata o ente enquanto ente), Livro VI, Lição 1ª. 1165 e por fim, a terceira uma teologia (aquela que trata das inteligências separadas / Deus e os anjos).
Porém, Santo Tomás distingue esta Teologia ou Metafísica, daquela que ele chamará de Teologia das Escrituras ou a Sagrada Doutrina.
Era necessário existir para a salvação do homem, além das disciplinas filosóficas, que são pesquisadas pela razão humana, uma doutrina fundada na revelação divina.[...] Portanto, além das disciplinas filosóficas, que são pesquisadas pela razão, era necessária uma doutrina sagrada, tida por revelação.[...] Nada impede que os mesmos objetos de que as disciplinas filosóficas tratam, enquanto são conhecíveis à luz da razão natural, sejam tratados por outra ciência, como conhecidos à luz da revelação divina. A teologia, portanto, que pertence à doutrina sagrada difere em gênero daquela que é considerada parte da filosofia.
(Suma de Teologia, 1ª, q.1 a.1solução e resposta ao 2º. Artigo.)
Por meio desta distinção podemos entender que se Santo Tomás concede à razão uma importância elevada no processo de inquirição sobre Deus e de questões correlatas no âmbito da natureza (andar inferior), porém, ele não o faz em detrimento da fé e da revelação (andar superior), mas, concedendo que:
A sabedoria filosófica tem como sujeito o ente como tal e só conhece Deus como sua causa eficiente e final última. Embora esse conhecimento seja a aspiração mais profunda das criaturas intelectuais, só é atingível pela sabedoria filosófica de modo precário e longínquo. A teologia das Escrituras tem o próprio Deus como sujeito, tal como ele se revela, comunicando algo de seu próprio conhecimento. (Nascimento, C. A.R. do. s/d. p. 126)

Logo, o sujeito-gênero das inquirições diferem, embora coincidam; em uma nota da Suma de Teologia, 1ª, q.1 solução, o comentarista observa que a teologia natural é uma parte da metafísica que considera Deus como o principio de seu sujeito-gênero: o ser enquanto ser; logo, o princípio de todos os seres. Até este ponto é possível chegar através exercício racional, pois Deus mesmo nos deu indícios no plano da natureza pelos quais podemos estabelecer esta inquirição (Romanos 1.20); todavia, é necessário ir mais além se pensamos no conhecimento soteriológico sobre Deus, e, para isso se faz necessário uma teologia das Escrituras, que se pauta na revelação de Deus, ou seja, no conhecimento que Ele nos dá de si mesmo. Pois, da primeira forma, teremos que nos reportar a ele “[...] como o olho da coruja para com a luz do Sol, como diz no livro II da Metafísica, não podemos chegar a ele, pela luz da razão natural, senão na medida em que somos conduzidos a ele pelos efeitos”. (Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio. 5, a. 4, trad. p, 132).
A abordagem dois-andares, se realmente consta na obra de Santo Tomás, pauta-se em uma clara distinção, solidamente estabelecida, entre os campos atinentes à razão e a fé, portanto acreditamos que, após as breves considerações supra, fica claro que a relação entre ambas, bem como entre a teologia natural e a teologia das Escrituras, implicam em liberdade condicionada da razão que não fere o domínio da Graça!
Todavia, encerraremos este tópico com uma citação de Gilson, que corrobora nossa conclusão.
Todo domínio da filosofia pertence exclusivamente à razão; isso significa que a filosofia deve admitir apenas o que é acessível à luz natural e demonstrável apenas por seus recursos. A teologia baseia-se, ao contrário, na revelação, isto é, afinal de contas, na autoridade de Deus. [...] Assim, delimitados os dois domínios, deve-se constatar, porém, que ocupam em comum certo número de posições. Em primeiro lugar, o acordo de direito entre suas conclusões últimas é coisa certa, muito embora esse acordo não apareça de fato. Nem a razão, quando fazemos uso correto dela, nem a revelação, pois ela tem Deus por origem, seriam capazes de nos enganar. Ora, o acordo da verdade com a verdade é necessário. É certo, pois, que a verdade da filosofia se uniria à verdade da revelação por uma cadeia ininterrupta de relações verdadeiras e inteligíveis, se nosso espírito pudesse compreender os dados da fé. [...] a impossibilidade em que temos de tratar filosofia e teologia por um método único não nos proíbe considerá-las como constituindo, idealmente, uma só verdade total.
(Gilson, 2007, pp. 655-656).
Mesmo considerando que as verdades da fé não se alcançam através razão, depois de concedidas por meio da revelação são passíveis de articulação, aprofundamento e defesa por meio desta.
A Queda, a razão e a autonomia.
Afirmar que Santo Tomás tinha uma noção incompleta da Queda, nos parece um tanto temerário. Santo Tomás tinha uma noção completa da Queda, todavia, em face da noção da Queda proposta e adotada pela Reforma, quase três séculos depois, admitimos que sua concepção é radicalmente diferente.

Santo Tomás de Aquino (1225-1274) - Botticelli. "A graça não destrói a natureza, mas a conduz à perfeição"


Este problema é tratado pelo Aquinate na Iª Seção da IIª Parte da Suma de Teologia, Questão 85. Tentaremos sintetizar sua posição. Ao responder a questão: “O pecado diminui o bem da natureza?”; Santo Tomás, inicialmente, distingue os três possíveis significados de bem da natureza.
1º. Os princípios que constituem a natureza, com as propriedades deles decorrentes (como as potências da alma).
2º. A inclinação natural para a virtude como um bem especifico da natureza.
3º. O dom da justiça original que foi dado a toda humanidade no primeiro homem .
Quanto à ação do pecado ele nos diz que no primeiro aspecto não houve perda nem diminuição, quanto ao terceiro foi totalmente tirado após a Queda, já o segundo (a inclinação natural para a virtude) foi diminuída . Santo Tomás nos diz.
Como foi dito, o bem da natureza que diminui pelo pecado é a inclinação natural à virtude. Esta inclinação convém ao homem pelo fato de ser ele racional. É isso que lhe permite agir segundo a razão, e isso é agir segundo a virtude. Ora, o pecado não pode tirar completamente do homem que seja racional, porque já não seria capaz de pecado. Por conseguinte, não é possível que o predito bem da natureza seja tirado totalmente.
(Suma de teologia. Iª. IIª , q. 85, a.2, solução)

Santo Tomás defende que esta inclinação tem sua raiz na natureza racional, e, que “tende ao bem da virtude como a um termo, a um fim”. (Idem.), explica-nos que a diminuição poderia ocorrer de duas formas, no lado da raiz ou no lado do termo, porém, ele não pode diminuir no lado da raiz, pois isso diminuiria a própria natureza, o que já se estabelecera (diminuir na raiz colocaria o risco de desaparecimento a própria natureza racional); conclui Santo Tomás, que a diminuição se dá do lado do termo, no colocar impedimento para que tal inclinação não se chegue a ele. Eis como conclui esse momento de sua argumentação.
Mas, porque há diminuição pelo impedimento posto para não chegar ao termo, é claro que isso pode ir ao infinito, uma vez que o homem pode acrescentar ao infinito pecado sobre pecado. Entretanto, a inclinação não desaparece totalmente, pois fica a raiz. Tem-se um exemplo disso no corpo diáfano que tem, por ser diáfano, uma inclinação para receber a luz. Esta inclinação ou aptidão é diminuída pelas nuvens que sobrevêem, se bem que ela subsista sempre na raiz da natureza.
(Suma de teologia. Iª. IIª , q. 85, a.2, solução).

No artigo 3º. Santo Tomás trata especificamente das seqüelas do pecado, (e isso também em relação aos efeitos da Queda) sobre as potências inferiores e a própria razão. Na alma há quatro potencias que podem ser sujeitos de virtudes: a razão; a vontade; o irascível e concupiscível. Segundo o Doutor Angélico, quando estas quatro potências são demovidas da sua ordem (dos seus respectivos fins) temos que quanto à razão, há ignorância, quanto à vontade, há malícia, quanto ao irascível, há fraqueza e quanto ao concupiscível, há concupiscência . E assim, conclui:
Portanto, são quatro feridas infligidas a toda a natureza humana pelo pecado do primeiro pai. Ora, como a inclinação ao bem da virtude é diminuída em cada um pelo pecado atual, como fica claro pelo que foi dito, estas são quatro feridas conseqüências dos outros pecados, a saber, a razão encontra-se embotada, sobretudo em matéria de ação; a vontade endurecida em relação ao bem, e aumenta uma maior dificuldade de agir bem e a concupiscência inflama-se mais.
(Suma de teologia. Iª. IIª , q. 85, a.3, solução).

Portanto, no que tange ao conceito cristão de Queda, Santo Tomás, tem uma teoria plena e coerente, óbvio que diverge da concepção pessimista latina em que o homem era considerado despojado dos dons gratuitos e ferido em sua natureza, concepção essa que, em certo sentido, será retomada pela Reforma. A origem da teoria do Doutor Angélico pode ser localizada na concepção do Pseudo-Dionísio, que ao tratar dos anjos que pecaram, este observa que os mesmos conservaram em integridade o que pertence à natureza . Santo Tomás seguirá esta perspectiva para elaboração de sua teoria, que tende a evitar extremos perigosos.
Schaeffer adere à noção da Reforma, porém, ao fazê-lo, não considera de modo pleno a apreciação de Santo Tomás sobre este tema. Sustenta que somente a noção reformada pode ser considerada bíblica e que, de modo “contrário a Santo Tomás”, somente a Reforma preserva a autonomia como atributo exclusivo de Deus.
A Reforma aceitou a noção bíblica de uma Queda total, absoluta. O homem em sua totalidade era obra de Deus; agora, porém é decaído em sua natureza, inclusive o intelecto e a vontade. Em contraste com a posição tomista, admitia que somente Deus é autônomo.
(Schaeffer, 1974, pp. 18-19).
Há dois problemas com relação à atitude reformada, um deles é a crescente tendência a absolutização de sua hermenêutica da Queda, e, o outro é a não consideração de certas nuanças do pensamento de Santo Tomás, exatamente aquelas que tentamos ressaltar. Quanto ao falar de uma autonomia da razão em Santo Tomás; primeiro, cremos que as explicitações, supra, não deixam qualquer dúvida de o quanto é impróprio atribuir-lhe tal conceito.
Mas, acrescentamos a isso, que nos parece deveras anacrônica essa atribuição, uma vez que, não se pode dizer com certeza que a conjuntura histórico-social e as condições culturais e espirituais da época em que Santo Tomás viveu exalavam a atmosfera propícia à eclosão deste conceito; sobretudo, porque que o conceito de autonomia da razão é, conforme uso corrente, sem dúvida alguma, fruto das reflexões do Iluminismo. Cuvillier resumiu este conceito de autonomia da seguinte forma: “Estado da vontade racional que não obedece senão a regra imanente de si mesma”. (Cuvillier, 1976, p. 15). A origem conceitual do autônomo remonta até os escritos de Kant (1724-1804), que considera todo “ser dotado da faculdade de razão como potencial fundador de uma legislação universal” . Podemos afirmar que se esta concepção fosse apresentada a Santo Tomás, ele oporia a ela a noção de que “[...] a razão encontra-se embotada, sobretudo em matéria de ação; a vontade endurecida em relação ao bem, e aumenta uma maior dificuldade de agir bem e a concupiscência inflama-se mais”.
Conclusão.
Deste breve percurso podemos concluir que a abordagem dois-andares sempre foi familiar ao Cristianismo (com suas devidas variações) e que Santo Tomás, embora não fazendo uso da metáfora, talvez respirasse a atmosfera composta pelas implicações relativas a esta abordagem, todavia; mesmo estas implicações se integram dentro de conjunto arquitetônico, por ele construído, de forma a harmonizar coerentemente o exercício teológico natural com o exercício teológico da Doutrina Sagrada. Na elaboração de sua teologia (ulteriormente chamada aristotélico-tomista) valoriza-se demasiadamente a razão, posto que, leva em conta a sua capacidade em alcançar certas modalidades de verdade ; todavia, também considera que ela necessita da fé, pois sozinha não pode alcançar o conhecimento do mistério essencial de Deus.
Confrontando a teologia filosófica de Santo Tomás, relativa à razão e às potências inerentes ao homem, com aquela que foi desenvolvida pela Reforma; vemos o quanto realmente o homem é valorizado, e isso, de modo a constituir o que Pedro Dale Nogare chamou de um verdadeiro humanismo cristão . Dados os princípios adotados na consecução de seu intento, extraídos principalmente do Corpus Aristotelicum, disponível em sua época, o conjunto arquitetônico de sua obra não poderia ter outro caráter. E se expressa algo que é compreendido como uma visão otimista do homem é porque também extrai das Escrituras a afirmação da grandeza do homem, enquanto ser criado à imagem de Deus, imagem essa, que em algum sentido, manteve-se mesmo após a Queda, como se pode deduzir das palavras do Apóstolo Santo Tiago (S.Tiago 3,9).
Ao contrário, Schaeffer, adotando a perspectiva reformada sobre o homem e principalmente sobre a Queda, não poderia construir, de modo coerente, um conjunto arquitetônico de caráter diferente do que construíra; a sobrevalorização da vontade em contraposição à razão, traço característico da mentalidade semita, conforme a expressão das Escrituras; principio sempre tão caro à Reforma, confere à sua antropologia bíblica uma tonalidade sombria que logo se destaca ao contrastar-se com a concepção tomista.
Podemos depreender disto que uma dentre as duas concepções é melhor ou pior que outra, enquanto representação dos arcanos de Deus expressos nas Escrituras? De maneira alguma! Antes, são diferentes, devido os diversos motivos, já apontados neste escrito, mas ambas se nutrem da mesma fonte espiritual originária. Ambas pretendem atribuir a Deus toda glória e toda soberania, porém enquanto a Reforma escolheu para isso a via negativa, ou seja, tirar tudo do homem para engrandecer a Deus, Santo Tomás preferiu uma via positiva, preservar a integridade de algo no homem, para que em todas as coisas, inclusive nessa característica, Deus seja engrandecido!

Posfácio.

Este trabalho traz contribuições importantes para deslindar a sofrida relação entre as tradições cristãs: católica e protestante. A observação final – feita pelo autor – indica um ponto chave na diferenciação das duas atitudes: Tomás utiliza uma lógica de participação e a Reforma uma lógica da univocidade (herdada da escolástica do século XIV – nominalistas). Talvez a metáfora de dois-andares já seja comprometida com esta lógica da univocidade.
Santo Tomás usa na arquitetura geral do seu pensamento uma lógica platônica, ou melhor, neoplatônica, cuja peça central é a idéia de participação, isto é, o absoluto (Deus, as idéias) não exclui, mas fundamentam o relativo (criaturas, mundo material). Para Tomás, talvez fosse melhor usar a metáfora da água ou do óleo (graça) que empapa e limpa ou perfuma o pano (natureza) em que penetra. Confira a conhecida frase de que “a graça não destrói a natureza, mas a conduz à perfeição”. (Suma de Teologia, Iª parte, Q 1, a. 8, resp. ao arg. 8).
O trabalho do jovem autor revela um esforço bastante bem sucedido de leitura e confronto dos textos utilizados.
Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento.

Bibliografia.

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________________. Suma Teológica – Volume II, São Paulo, Edições Loyola, 2005.

________________. Suma Teológica – Volume IV, São Paulo, Edições Loyola, 2005.

________________. Suma Teológica – Volume V, São Paulo, Edições Loyola, 2005.

_________________.Comentário ao Tratado da Trindade de Boécio: Questões 5 e 6. (tradução e introdução de Carlos A. R. do Nascimento), São Paulo, Fundação Editora UNESP, s/d.

BOEHENER, Philotheus / GILSON, Étienne. História da Filosofia Cristã, Petrópolis, RJ. Vozes, 2008.

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GILSON, Étienne. A Filosofia na Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 2007.

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Co-Interacionismo – O Desafio Em Correlacionar As Teorias de Piaget, Vygotsky & Wallon.

Introdução.

No binômio professor/aluno ambos os termos correlacionam-se às categorias ensino/aprendizagem. Enquanto a Ciência da Educação ocupa-se com a dimensão do ensino, a Psicologia se ocupa com a aprendizagem, e, o faz elaborando teorias que visem dar conta desta categoria explicitando quais os mecanismos envolvidos no âmbito psíquico, intelectivo e emocional dos alunos e criando metodologias equivalentes que possibilitem ao professor uma melhor execução de sua função docente. Neste contexto três teóricos são extremamente importantes e destacam-se pelas contribuições marcantes mesmo para além dos campos de pesquisa aos quais se dedicavam, sobretudo, na área da educação: Jean Piaget (1896-1980); Henri Wallon (1895-1962) e Lev Semionovitch Vygotsky (1896-1934). Em caráter avaliação à Disciplina Didática e Metodologia do Ensino1º Semestre de 2011 – sob a responsabi

lidade do professor doutor Ronaldo Negrão, elaboramos este breve escrito no qual intentamos lançar um rápido olhar sobre as teorias de aprendizagem – dos autores supra – e em pensar na possibilidade em correlacioná-las num tudo coerentemente ordenado.

1-Jean Piaget (1896-1980).

            Piaget destaca-se por suas pesquisas no campo da biologia e da psicologia, por meio de seu vasto domínio destas ciências foi capaz de elaborar uma síntese cuja teoria chama-se psicogênese – algo como: origem da psique, da alma, da mente humana – partindo do modelo oferecido pelas ciências biológicas Piaget propõe que o homem, enquanto organismo vem ao mundo dotado de uma pré-formação com a qual responde a estímulos externos, esta pré-formação são seus reflexos – relativos aos cinco sentidos – os reflexos têm como sede sua estrutura neurológica, cada reação aos estímulos que recebe do meio em que está inserido altera, em certo aspecto, esta estrutura. Os reflexos constituem a herança biológica do homem e são demasiadamente importantes na atuação deste no sentido de apropriar-se da herança cultural da espécie.

A construção da psique inicia-se a partir da formação intra-uterina e, portanto, cabe considerar que um indivíduo ao iniciar a carreira escolar já carregue em si percepções, informações e experiências que formam o que Piaget chamou de esquemas de ação. Estes esquemas servem de referência para quando no processo de aprendizagem o aluno for exposto a novas informações. Sua pré-formação, conforme a configuração destes esquemas de ação, responderá de um ou de outro modo à informação apresentada, se a informação for igual ou análoga a outras já existentes na pré-formação o aluno não terá dificuldades em acomodá-la em seus esquemas de ação, mas, se ela for diferente, ele terá uma sensação de desequilíbrio até que ela seja assimilada e passe a constituir-se como elemento de sua formação. Estes processos são chamados por Piaget de assimilação e acomodação, e, correspondem aos processos externos e internos do movimento de aprendizagem, ou seja, na assimilação a experiência é incorporada às estruturas dedutivas, enquanto na acomodação estas estruturas são postas sobre os dados da experiência.

Piaget propõe ainda que o desenvolvimento mental ocorra em quatro grandes fases, ou estágios: (1º) estágio sensório-motor (de nascimento aos dois anos), cujo último período se inicia o processo de aquisição da linguagem; (2º) estágio pré-operatório (dos dois aos sete anos), onde se dá o uso exacerbado da imaginação e a laboração simbólica em relação à linguagem; (3º) estágio operatório concreto (dos sete aos doze anos), onde a criança estabelece relações entre objetos que mantêm certa analogia, por exemplo, catalogando-os e, por fim o (4º) estágio operatório formal (inicia-se por volta dos doze anos), neste estágio a criança manifesta a capacidade do pensamento formal abstrato, ou seja, ela consegue ultrapassar o âmbito do raciocínio ancorado na presença de objetos palpáveis. Além destes elementos a teoria de Piaget ainda comporta uma explicação acerca do desenvolvimento da moralidade, que tem intima relação com estes estágios, sendo operada através de três períodos: (1º) anomia, a ausência de normas de conduta: (2º) heteronomia, a necessidade de uma imposição de normas cuja instância é externa ao indivíduo e (3º) a autonomia, onde o próprio indivíduo elabora suas normas de conduta.

2- Henri Wallon (1895-1962).

            Henri Wallon elaborou sua proposta teórica – Psicogenética – tendo como base epistemológica o materialismo histórico dialético – de acordo com o modelo originalmente proposto por Karl Marx (1818-1883) no Manifesto do Partido Comunista (1848) – nesta perspectiva toda construção da psique só ocorre por meio da relação entre os homens no âmbito da vida coletiva, noutras palavras, o processo de humanização é resultado de um movimento de interação entre subjetividades diferentes que se constroem na aproximação mútua de conhecimentos intersubjetivamente constatáveis, e, cuja apropriação torna-os conteúdos de sua vida intra-subjetiva.

Nesta relação Wallon aponta na constituição

Henri Wallon

biológica, orgânica do homem, como um processo de interação entre os sistemas cortical e o sistema muscular, quando na apropriação de novos saberes influem-se mutuamente com base na tonicidade – a atividade elétrica da musculatura – específica de cada sistema, ou seja, a exposição a situações de stress, por exemplo, produz alterações emocionais que afetam a produção de tônus cortical, que por sua vez afeta o tônus muscular, assim como o esforço muscular altera a produção de tônus muscular, que por sua vez afeta a produção de tônus cortical. O problema está em que toda esta atividade intensa produz um ruído na zona associativa do cérebro o que interfere no processo de aprendizagem, pois esta, segundo Wallon, ocorre quando o sujeito consegue, em relação aos signos, passar do estado sincrético – confuso ou indiferenciado – ao estado diferenciado. Para que isso ocorra é necessário que haja condições de acesso na memória provisóriahipocampo – para o “resgate” de informações ali armazenadas com vista à realização do processo associativo

A grande contribuição de Wallon foi destacar a importância das emoções no processo de aprendizagem e conseqüentemente a necessidade de um ambiente favorável, organizado, para sua concretização.

3- Lev Semionovitch Vygotsky (1896-1934).

Vygotsky destaca-se por sua percepção aguda acerca da importância da linguagem na construção da realidade

Vygotsky

humana no âmbito da coletividade; sua teoria tem sido denominada sócio-interacionismo, pois semelhante à concepção de Wallon busca no materialismo histórico bases para sua legitimação e atribui à relação entre herança biológica e a herança cultural a construção da consciência humana. Como se dá este fenômeno é explicado através da atividade de interação entre a subjetividade humana e a objetividade própria dos instrumentos e signos enquanto instâncias mediadoras pelo qual a comunidade dos homens numa dialética constante modifica a natureza e concomitantemente a si mesma.

Os signos constituem a linguagem e na obtenção e domínio desta o homem constrói sua humanidade, a auto-imagem, a auto-estima e o auto-respeito, e, isso em uma postura perante o mundo que se pauta na atitude deste com os conceitos, sendo que a capacidade de sistematização ou não sistematização destes caracterizam uma postura cientifica – no primeiro caso – e, portanto, não ingênua; ou, uma não cientifica – cotidiana – logo, ingênua.

Segundo Vygotsky, o indivíduo desenvolve a capacidade de sistematização dos conceitos numa relação com o coletivo, a organização do coletivo, de modo sistemático, propicia esse desenvolvimento, enquanto um coletivo não sistemático não o faz, a construção da consciência ocorre através da linguagem. Tudo isso constitui o que Vygotsky chamará de zona de desenvolvimento real – porque frisa o que o indivíduo pode realizar sozinho, em que nível de construção sua subjetividade se encontra – com base nisto o conceito de zona de desenvolvimento proximal foi elaborado, nesta zona distingue-se a relação em que o conhecimento intersubjetivo é apropriado pelo indivíduo de modo a constituir-se em conhecimento intra-subjetivo, a partir daí a linguagem é internalizada pelo individuo o que o capacita à realização autônoma de sua sistematização.

4-Breve Esboço De Síntese Entre As Teorias Da Aprendizagem.

            As teorias que tivemos a oportunidade de abordar são ricas contribuições para a Ciência da Educação, elas são excelentes auxiliares para a elaboração de uma didática e metodologia do ensino que alcancem o seu objetivo: a formação da consciência crítica e autônoma do educando com capacidade de exercício de sua cidadania na sociedade democrática.

Todavia, mesmo tendo sido elaboradas há mais de meio século seus efeitos no âmbito da educação ainda são efêmeros, e, até mesmo ambíguos, posto que, são consideradas, pelos educadores, principalmente naquilo que as diferencia, e não nos elementos que as aproximam.

A forte tendência mesmo entre os educadores é de segmentarem-se em nichos que advogam para si a herança de um ou de outro dentre este teóricos. Disto resulta que temos a escola de Piaget, a escola de Wallon e a escola de Vygotsky; cada uma considerando a si mesma, de modo exclusivo, como a melhor proposta ou a resposta ideal para o problema da construção da psique e para a elaboração de uma teoria da aprendizagem.

O que temos é uma polarização do problema, uma visada sob uma única perspectiva sobre um fenômeno que, intuímos, possui diversas perspectivas; considerar o fenômeno humano por um único ângulo é deixar de lado as múltiplas faces com as quais ele se nos apresenta. E talvez, uma teoria que consiga abarcar num todo coerentemente ordenado essas contribuições destes teóricos seja a que possa dar conta satisfatoriamente do problema que requer mais que um único olhar limitado, ainda que agudo, por seus elementos constitutivos.

As teorias tratadas apontam um caminho de elaboração para uma didática e metodologia do ensino que tem em cada autor a ênfase, mais específica, num elemento: em Piaget a formação individual com base no modelo biológico é priorizada, Wallon tem como núcleo a emoção e esta em resultado da interação como o meio, e, por fim, Vygotsky, onde a organização do coletivo é essencial para a formação do indivíduo.

Estas propostas não são excludentes, não é necessário que se escolha uma e rejeite outra, pois, consideram âmbitos, aspectos diferentes no processo de formação do sujeito.

É provável que o caminho mais seguro para uma boa didática seja aquele que considera em primeira instância a organização do coletivo, conforme a proposta de Vygotsky, que coloque de modo sistemático os conceitos com os quais o aluno há de contatar-se pela primeira vez, em que, sobretudo, o ambiente físico seja espaço de organização para que não haja tensão sobre o educando, de modo a proporcionar-lhe o exercício pleno de isegoria, ou seja, que ele possa manifestar opiniões diferentes sem ser afetado negativamente na auto-imagem. Bem, isso movimenta a preocupação com a didática para o plano em que não se considera apenas a questão intelectiva, mas, sobretudo a emotiva, conforme propõe Wallon, a possibilidade de vivências emocionais saudáveis, positivas num ambiente em que a organização é construída com o fim de um exercício da isegoria de cada educando e onde essa organização no âmbito conceitual presa por uma sistemática, se torna mais concreta, bem como as próprias condições emocionais contribuem para essa mesma organização. Por fim, nada mais resta senão laborar a construção individual sob a perspectiva de Piagetprias condiçs concreta, bem como as prsa organizaçpropoe m. aboraçonsiga abarcar num todo corentemente ordenado as contribuiç tendo lançado as bases organizacionais e emotivas o ambiente é propício a que focalizemos a relação das estruturas na obtenção de novos conhecimentos de modo que o indivíduo mova-se – no plano conceitual – de um estado de desequilíbrio à equilibração – a ação conjunta da assimilação e da acomodação – dando lugar à plena adaptação intelectual.

Conclusão.

Este itinerário visa estabelecer uma co-interação entre as diversas teorias aqui expostas, para tanto, tratamos inicialmente de cada uma delas individualmente visando distinguir suas semelhanças e dessemelhanças, os pontos em que seria possível correlacioná-las e os pontos onde isso não seria possível. Esta abordagem constitui-se no exercício de interdisciplinaridade e é importante para os problemas postos, hoje, pela Ciência da Educação, todavia, todo exercício de interdisciplinaridade deve ser levado a efeito após a sistematização prévia de duas ou mais teorias, caso contrário, a interdisciplinaridade, incorrerá no risco de parecer ter sido artificialmente engendrada, pois terá um caráter superficial sendo incapaz em alcançar seus objetivos teóricos e menos ainda seus objetivos práticos.

Faltou-nos abordar as contribuições de outro grande teórico em psicologia: Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), cuja teoria, Behaviorismo, deu origem à ciência análise do comportamento; esta tem sido importante para a discussão na área da educação, problematizando o caráter “livre” de nossas das ações do indivíduo nas relações interpessoais e a possibilidade de modificação de seu comportamento por meio de premiações e – ou – punições. Todavia, inserção deste tópico ficará a cabo de futuras reflexões acerca das possibilidades, das esperanças e das “ilusões” do que tem sido denominado pelo epíteto co-interacionismo.


Por que Crescem os Evangélicos? Diagnóstico da Agonia do Cristianismo em Meio ao Crescimento Vertiginoso do Evangelicalismo

A Agonia do Cristianismo

 Introdução.

                                                     

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil tem suscitado muitas análises, questionamentos e especulações e este crescimento é verdadeiramente um fenômeno social – e religioso – sem precedentes na história de nossa nação, embora a presença evangélica em nossas paragensseja de, aproximadamente, dois séculos, o advento de uma forma específica de anuncio e práxis evangélica detonou o crescimento vertiginoso na cifra daqueles que compõem esse movimento: o pentecostalismo, e, mais recentemente o neopentecostalismo.

  1. Definindo os termos.

Para um bom começo necessitaremos de algumas definições que nos auxiliem a compreender em que sentido são usadas às nomenclaturas relativas aos movimentos e grupos. Há muita confusão e ambigüidade no falar cotidiano acerca de termos como: protestantes, evangélicos, pentecostais, carismáticos e neopentecostais.

A nomenclatura Protestantismo é comumente aplicada a todos os grupos oriundos da Reforma deflagrada por Martinho Lutero (1483-1546) no século XVI,desta forma aplica-se o substantivo protestante desde luteranos até aos mais extremados pentecostais. Todavia, destaquemos que um uso rigoroso deste termo exigiria sua aplicação especificamente aos luteranos, posto que, assim foram designados os príncipes luteranos que protestaram ante a decisão da Igreja Católica Apostólica Romana na Dieta de Speier em 15291.

Seguiremos aqui o uso corrente de aplicação da expressão protestantismo histórico – ou simplesmente históricos – em referência a denominações como: luteranos, presbiterianos, anglicanos, batistas e metodistas, distinguindo-os dos pentecostais e neopentecostais, é bom que observemos o fato de que geralmente a expressão movimentoevangélico abarca, especificamente, o conjunto dos pentecostais e neopentecostais.

O Pentecostalismo – com as características com as quais se apresenta hodiernamente2 – é um fenômeno recente, sua origem remonta ao início do século passado e sua chegada ao Brasil ocorreu em 1910 – Congregação Cristã no Brasil – e em 1911 – Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Sua principal característica é a crença na contemporaneidade dos dons do Espírito Santo, com ênfase no dom do falar em línguas – glossolalia – os pentecostais destacam-se, também, por enfatizarem seus usos e costumes que, segundo crêem, os distinguem como servos de Deus, tanto dos não cristãos, quanto dos integrantes dos grupos históricos e neopentecostais; o aparente ponto de unidade entre os pentecostais e os históricos parece ser a aceitação de, ao menos, três dos cinco princípios reformados propostos por Martinho Lutero, conhecidos como sola – lat. Somente sola Scriptura, sola fide, sola gratia, solus Christos, e, soli Deo gloria3.

O Neopentecostalismo lança raízes, aproximadamente, nos fins da década 70. A fundação da Igreja Universal do Reino de Deus (1977) pode ser considerada como o marco inicial deste movimento. Junto à Igreja Universal algumas denominações neopentecostais mais proeminentes são: a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) – cuja origem está intimamente ligada à Universal – a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (1976) e a Renascer em Cristo (1986). Estas igrejas são caracterizadas por sua ênfase naquilo que eles consideram Batalha Espiritual – em que os crentes têm de enfrentar Satanás e seus representantes: dentre os quais contam o catolicismo e todas as religiões não cristãs, além dos demônios causadores de doenças, vícios e toda miséria humana. A pregação da Teologia da Prosperidade – também chamada de Confissão Positiva – que advoga a crença de que a prosperidade material, a saúde física e vitória, em todos os setores, são indícios da benção de Deus na vida do verdadeiro cristão e que a não participação nestes elementos indicam, senão uma vida não transformada por Deus – que é o caso do não cristão –, ao menos, um estado de vida pecaminoso – neste caso o cristão que não consagra sua vida. Lembremos que os neopentecostais não adotam os usos e costumes dos pentecostais e tampouco tendem a se identificarem com o rigorismo dos históricos.

Uma palavra de ser dita acerca dos Carismáticos, muitas vezes confundidos com os pentecostais, os carismáticos são fruto de uma renovação – daí o epíteto Renovação Católica Carismática – cuja origem é datada em 1967, Pittsburgo, sob a influência direta de pentecostais alguns católicos receberam por imposição de mãos os dons – carismas – do Espírito Santo e a partir daí – mesmo sob fortes reações contrárias – o movimento espalhou-se pelo mundo, fortalecendo-se sobremodo nos países da América Latina. René Laurentin assim descreve esse movimento.

Surgiu, assim, em 20 de janeiro de 1967, pela oração e imposição das mãos sobre os dois primeiros fundadores, o que foi chamado desde o início Pentecostalismo católico: uma conversão, uma libertação de forças vivas, um repentino florescimento de carismas esquecidos na igreja Católica, a começar pelo carisma de falar em línguas, característico do Pentecostalismo, como também o profetismo (no sentido de palavras inspiradas, ditas em nome de Deus), o dom de curas, etc.

(Laurentin, 1981, p. 40)

 

Os carismáticos mantêm muitas semelhanças com o pentecostalismo no que tange à teologia pneumatológica – ou antes, paracletológica4porém, ainda são fundamentalmente católicos e por isso, hoje, têm uma convivência pacífica e muito engajada no seio da Igreja Católica, sendo responsáveis por uma retomada no crescimento desta instituição que há muito vinha perdendo fiéis para outras manifestações de espiritualidade cristãs e mesmo não cristãs!

  1. Diagnóstico do crescimento – seus motivos internos.

Na vivência comunitária do evangelicalismo brasileiro podemos distinguir duas atitudes básicas, aquela atinente aos integrantes do grupo histórico e a outra atinente ao grupo pentecostal, do qual, em certo sentido, partilham os neopentecostais com suas devidas diferenças. Os históricos põem a ênfase na experiência do novo nascimento que se evidencia por meio de uma transformação do comportamento do individuo no seio da sociedade em que se insere; não é exagero dizer que sua preocupação central caracteriza-se num rigorismo moral que busca inspiração na mais típica representação evangélica dos Revivals – anglo-europeus – dos séculos XVII e XVIII.

O Pentecostalismo – e o neopentecostalismo – põem ênfase em experiências de cunho sobrenatural, curas e expulsões de demônios, e, também na concretização material – financeira – da benção espiritual na vida do cristão, isso em especial entre os neopentecostais, portanto, o perfil socioeconômico de seu público é relativamente diferente daquele que é cativado pelo dos históricos. A identificação do perfil socioeconômico dos aderentes de ambos os grupos é útil, também, como identificação de quais os indivíduos são mais suscetíveis a um ou outro tipo de mensagem, a faixa etária, a formação escolar – acadêmica – o sexo e etnia são indicadores relativamente seguros da capacidade de alcance, quer dos históricos, quer dos pentecostais5.

Para a grande maioria dos brasileiros a mensagem pentecostal é mais atraente que aquela anunciada pelos históricos, pois apela para um elemento supranatural a ação poderosa dos carismas sobre a igreja; afinal a reforma moral, ponto forte do protestantismo histórico, não exerce tanta atração sobre as massas, já que há uma idéia amplamente difundida – sensus comunis – de que basta apenas um pouco de esforço pessoal para que se tenha uma conduta moral, senão irrepreensível, ao menos pouco reprovável; não se faz necessário buscar o auxílio divino para coisas que podemos alcançar por nós mesmos – essa atitude é exemplificada através do ditado: “Deus não fará por você, aquilo que você mesmo pode fazer”.

Porém, curas miraculosas, libertação de opressões demoníacas, e (ou) o “abrir as janelas dos céus” em toda sorte de bênçãos e prosperidade material é algo que somente Deus pode fazer, e, o faz na igreja através do Espírito Santo, poder pentecostal que atua sobre os fiéis.

É possível fazer um diagnóstico essencial do núcleo do poder atrativo do movimento evangélico brasileiro?

Postulamos esta possibilidade, todavia, ressaltamos que este será um diagnóstico preliminar, e, sempre relativo em suas conclusões, suscetível às influencias características do devir histórico.

Até o presente momento, em essência, o poder atrativo da mensagem do movimento evangélico brasileiro está na promessa de resolução dos problemas imediatos do homem – pentecostais e neopentecostais – e (ou) na garantia de que o homem pode de alguma forma se apresentar justo diante de Deus e contribuir com Ele em sua salvação6, analogamente à salvação do mundo – protestantismo histórico – e isso no cumprimento de exigências morais que são extraídas de interpretações da Bíblia, muitas vezes, questionáveis por estarem sobrecarregadas de séculos de tradições confessionais marcadas por suas respectivas ideologias.

Na verdade o que se pode contemplar na atitude evangélica contemporânea é que o cristão segue “ajudando Deus a lhe ajudar7” e nada é mais estranho ao espírito do Evangelho do que essa atitude. Pois, o foro mais íntimo do kerygma cristão é aquele expresso na síntese incomparavelmente aguda de Edith Stein (1891-1942)8 ao observar que: “Não é atividade humana que nos salva, mas somente a paixão de Cristo”.

O que tem sido deixado de lado é a noção de que o comportamento cristão com relação às coisas que de modo geral se inserem no âmbito do que consideramos atividades mundanas, se distingue pela temperança, no sentido de atuar neste âmbito na medida certa9; não é uma questão de “ser ou não ser” salvo na medida em que “fazemos ou não fazemos algo”, nossa vivência cristã é marcada pelo movimento paradoxal em que mesmo nossas obras são operadas em nós – Filipenses 2.13 –, no sentido de sermos mobilizados por Deus no mais íntimo de nossa vontade, como bem salientou C. S. Lewis:

Fazemos o que Ele nos pede, não porque nossa salvação depende disso, mas por que Ele já começou a salvar-nos. Comportamo-nos inevitavelmente de certa maneira, não tanto porque esperamos o Céu como recompensa das nossas ações, mas porque o Céu já começou a resplandecer dentro de nós.

(Lewis, 1997, p. 151)

Talvez, seja essa consciência aguda que falte aos históricos, e, é por isso que podemos dizer que o evangelicalismo tem feito um “braço de ferro” com Deus, os históricos com a força de seu moralismo e os pentecostais com a força dos “milagres”, cada um joga com aquilo em que tem mais “competência”. Mas, o que não percebem é que não podem – verdadeiramente – forçar a Deus, lembrando as palavras de um dos personagens de C. S. Lewis – “As Crônicas de Nárnia” – acerca de Aslam: “Ele não é um Leão domesticável”!

  1. Conseqüências da inversão valorativa e práxica no seio do evangelicalismo brasileiro.

O comportamento do evangelicalismo brasileiro se constitui numa inversão tanto dos valores, quanto da práxis cristã, e, suas conseqüências são patentes a qualquer observador atento: o evangelicalismo reproduz – de modo um tanto dissimulado – o mesmo esquema funcional da sociedade civil, capitalista e midiática; ele ignora o apelo do apóstolo – Rm. 12.1. – e se conforma ao mundo.

Ao olharmos o movimento evangélico brasileiro vemos uma legitima representação da Igreja que segundo crêem foi instituída por Cristo?

Em hipótese alguma! Não vemos no movimento evangélico uma igreja inclusiva, mas, sim uma igreja que exclui, uma igreja que discrimina, marginaliza e age, muitas vezes, de forma preconceituosa para com aqueles que não integram sua comunidade, ou, que dela discordam.

Vemos no movimento evangélico brasileiro um potencial muito belo para auxiliar os carentes e amparar os fracos, mas, não vemos efetividade neste aspecto, infelizmente vemos o efeito placebo, a concessão de respostas prontas e de regras determinadas de conduta para aqueles que não encontram por si mesmos, e isso devido os mais diversos fatores, as respostas que lhes cabem enquanto individualidades – socialmente inseridas – e o ethos relativo ao caráter autônomo de sua existência enquanto seres dotados de razão.

Aliás, é o exercício da razão que conhece a Deus por meio da fé que se constitui num culto agradável a Deus – Rm. 12.1 – e não a atitude de ignorância, de falta de conhecimento, atitude pela qual o povo de Deus perece – Os. 4.6.

Uma das mais nefastas conseqüências deste estado anômalo engendrado no seio do movimento evangélico é a perseguição explicita ou mesmo velada àqueles que ousam pensar de modo autônomo colocando em questão o sistema vigente. Pois é certo que há cabeças pensantes entre os evangélicos, e, é certo que estes denunciam a situação e a identificam com o pecado, como algo alienante, como desvio da verdade, tanto teológica, quanto prática – cristã. Porém, após certo período de admiração – ou entusiasmo – devido à novidade de sua mensagem, são tidos como mensageiros incômodos e inconvenientes, e, se tornam como ilhas – poderíamos dizer paradisíacas – no oceano de confusão religiosa onde prevalece o orgulho denominacional, a jactância atinente à sua tradição teológica e o fascínio das mega-construções: templosde consumo onde o preço é a própria fé, e, a graça – tomando a expressão de Bonhoeffer (1906-1945) – é transformada em uma graça barata!

Significa isso que todos os fiéis que integram o rol das igrejas evangélicas brasileiras estão errados? Estão estes fiéis apenas dissimulando?

Convém, dizer esta palavra acerca dos fiéis: não duvidamos de sua sinceridade, muitos têm uma fé viva, poderosa e bem nutrida, oriunda de um relacionamento pessoal com o Deus em que crêem e a quem se entregam, pois este relacionamento se estabelece na interioridade de cada um – mesmo considerando que seu fruto nos seja visível apenas na exterioridade de uma vida socialmente (ou comunitariamente) manifesta. Logo, não julgamos acerca de seu acerto ou de seu erro, mas, nos cabe a possibilidade de fazer um pronunciamento acerca daqueles que estando amadurecidos no âmbito do que se considera “espiritualidade cristã” – como se conhecêssemos outra espiritualidade que não seja a humana – contemplam a situação em que se encontram as diversas denominações evangélicas, inclusive aquelas a que pertencem, e não ousam se pronunciar, não têm a coragem de se postar diante de seus pares e de lhes alertar o quão distantes estão da verdade e da vida cristã.

Talvez, isso se deva à nossa tendência natural em evitar confrontos, mesmo sabendo que nosso silêncio se constitui numa hipócrita conivência com o erro, às vezes temos de pagar o preço por dizer a verdade – temos na fé um exemplo desta atitude, Cristo Jesus; e na razão, aquele do próprio Sócrates.

É certo uma ousadia e este termo nos remete a Kierkegaard (1813-1855) um cristão que denunciou as mazelas da cristandade de sua pátria, e, de sua época, tendo sofrido por isso. Ele teve a coragem em dizer a verdade e por este motivo as suas palavras nos servem de alerta. “Ousar é perder o equilíbrio por um instante, mas não ousar é perder-se a si mesmo”.

 

Bibliografia

AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo: A Formação do Pensamento Batista Brasileiro. Piracicaba / São Paulo. Editora Unimep. 1996.

BOICE, James Montegomery e Outros. Reforma Hoje – Uma Convocação Feita Pelos Cristãos Confessionais. São Paulo. Editora Cultura Cristã. 1ª Edição. 1999.

LAURENTIN, René. A Renovação Carismática: Renovação Profética ou Neoconservadorismo? In: Concilium/161: O Neoconservadorismo – Um fenômeno Social e Religioso. Gergory Baum (Ed.). Petrópolis / Rio de Janeiro. Editora Vozes Ltda. 1981.

1 Vide. A exposição de Israel Belo Azevedo no capítulo 1º de sua pela obra: “A Celebração do Indivíduo”.

2 Fazemos esta observação tendo em conta a opinião de que o Pentecostalismo tem seus antecedentes no movimento dos quakers – tremedores – facção cristã do século XVII conhecida por seu comportamento frenético e por seus violentos êxtases dentre outras manifestações tidas como carismas divinos.

3“Somente a Escritura, Somente a Fé, Somente a Graça, Somente, Cristo e Somente a Deus toda glória”.

4 O primeiro termo se refere à reflexão teológica acerca do espíritoPneuma – e o segundo é mais especificamente relativo à reflexão teológica acerca do Espírito Santo, também chamado na s Escrituras pelo título de Paráclito, algo como Ajudador, Auxiliador, ou simplesmente Advogado (cf. Jo. 14.15, 26; 16. 7).

5Para uma análise mais específica deste aspecto remeto ao estudo de Ricardo Mariano “Estudos Avançados Dossiê Religiões No Brasil. Expansão Pentecostal No Brasil: O Caso da Igreja Universal.” In: Estudos Avançados. Vol. 18. Nº 52. São Paulo, Set./Dez. 2004

6 Naturalmente este não é dado constitutivo de seu discurso, certamente os evangélicos me objetarão dizendo ser artigo inerente de sua fé a total incapacidade do homem em salvar-se por si mesmo ou de contribuir com Deus em sua salvação, e, reconhecemos a verdade desta afirmação. Todavia, é necessário que distingamos entre o que é inerente ao plano discursivo e aquilo que constitui a vivência prática no evangelicalismo brasileiro, sua vivência prática nega aquilo que o discurso afirma, ousamos a afirmar que neste fenômeno se nos apresenta um dilema, ou a vivência não é conseqüente com a afirmação de sua crença; ou a crença – verdadeira; aquela relativa ao mundo interior do fiel – é aquilo que se manifesta no plano da vida prática, e, não aquilo que é expresso por eles no plano discursivo, seja qual for à alternativa, o problema da autenticidade da vivência cristã estará seriamente comprometido e cabe ao cristão posicionar-se criticamente ante a situação com o intuito de encontrar-se novamente na vivência saudável da fé no Filho de Deus, Jesus o Cristo – Ap 2.5..

7 Devo esta expressão a James Montgomery Boice em seu prefácio de Reforma Hoje (1999) indicação bibliográfica completa Bibliografia.

8Edith Stein, jovem, judia, filósofa, discípula do grande filósofo Edmund Husserl (1859-1938), ela converteu-se ao catolicismo, aderindo à vida numa ordem religiosa (Carmelo de Colônia,1934) sob o nome religioso de Irmã Teresa Bendita da Cruz. Mesmo após sua inserção na vida religiosa foi feita prisioneira pelo Regime Nacional-Socialista – Nazismo – em sua cruel perseguição aos judeus, e, foi executada no Campo de Concentração de Westerbork em 1942.

9 Lembremos do lema dos dominicanos in medio stat virtusa virtude está no meio termo – que tem como fonte a metaxý platônica e a mesothés aristotélica.

Kierkegaard & Nietzsche. Repetição a Novidade Categorial da História e da Fé.

Kierkegaard

Introdução.

                                                                                                            

Nietzsche

Carlos Eduardo Bernardo

Na memorável tese “Diferença e Repetição” (1968), o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995) propõe diversas leituras ousadas acerca do pensamento de Kierkegaard (1813-1855), Nietzsche (1844-1900) e Peguy (1873-1914) e outros – que não intentamos abordar neste escrito, mas que são igualmente gigantes do pensamento Ocidental. Naturalmente muito do que está posto nesta obra de Deleuze não é aceito de modo unânime por vários filósofos e, sobretudo por aqueles que têm se dedicado ao estudo das obras dos dois primeiros aqui mencionados, antes sua tese sofreu e sofre ataque constante em alguns dos principais elementos que a compõe, destacando-se a necessidade inerente de localizar e explicitar uma divisão ternária no pensamento e nos escritos dos autores, excetuando Kierkegaard, tal empreendimento requer um esforço intelectual, e ainda mais imaginativo – diriam alguns de seus críticos – que põe em lume à originalidade do autor. Outro ponto crítico é a prevalência dada por Deleuze ao tempo

Não ousaremos neste breve escrito aprofundar na rica e variada tese de Deleuze e tampouco nos afastaremos demasiadamente de suas linhas mestras gerais, nosso intuito é de pensar, de modo breve, um problema proposto no movimento O trágico e o cômico, a história, a fé do ponto de vista da repetição no eterno retorno[1]. Neste contexto o problema está na explicitação da novidade categorial da história e da na obra de Kierkegaard e Nietzsche, considerando suas semelhanças e dessemelhanças, assim como as vê Deleuze.

A Repetição na tese de Deleuze.

Deleuze faz da Repetição um tema central, para tanto propõe que esta seja tratada numa estrutura ternária, ou seja, constituída ou efetuada em três momentos que ele assim identifica: (1º) Trágico; (2º) Cômico Grotesco – & (3º) Drama. Correspondendo esta tríplice à clássica divisão temporal Passado; Presente & Futuro. Suas justificativas fundamentais para tal divisão não são oriundas da Filosofia ou da História, antes, são retiradas do âmbito da Arte. Deleuze, de modo semelhante a Hegel (1770-1831), faz uso do Teatro com seus principais componentes – o cenário, os atores, os atos e os gêneros teatrais – e através destes perfila a história da Repetição no âmbito da humanidade extraindo nas obras dos filósofos supra as bases conjecturais de sua tese.

Faz-se necessário apontar um dado que é muito interessante, porém não muito explorado, o problema da tríade na tese de Deleuze parece imiscuir-se no âmbito filosófico tendo como pano de fundo um conceito teológico, a saber, a Trindade; essa possibilidade de leitura, da obra deleuziana, se insinua ao observador atento à referência feita ao pensador Joachim de Fiore (1135-1202).

Dado as figuras usadas por Deleuze para abordar os três momentos da Repetição podemos detectar em sua teoria uma priorização o Tempo e a oposição entre a generalidade e a particularidade que joga com o valor da novidade inerente a cada Instante. Neste ponto temos que nos reportar a Kierkegaard não apenas como aquele que introduziu a Repetição no âmbito da reflexão filosófica existencial – ou Existencialista –, mas, sobretudo, como aquele que valorizou a novidade do Instante como núcleo de resistência à generalização.

Kierkegaard e o tema da Repetição.

            O filósofo dinamarquês tem o mérito de ser considerado o precursor das mais variadas correntes filosóficas de caráter existencial. Como é notório Kierkegaard propõe um itinerário espiritual ao homem em três estádios: o Estético, o Ético e o Religioso. Cada estádio caracteriza-se do modo que lhe é peculiar.

            Kierkegaard nos apresenta a Repetição nos estádios, condenando a repetição estética, pois, segundo ele, esta seria uma repetição da natureza, o esteta não conseguiria escapar ao poder de suas determinações instintivas[2].

A significação da Repetição para Kierkegaard está relacionada com a imutabilidade e a necessidade do ser, por este motivo Kierkegaard a aproximou da expressão aristotélica quod quid erat esse aquilo que o ser era[3] – ou seja, sua Repetição.

A Repetição ética se contrapõe a repetição estética no sentido de que esta põe ao individuo a possibilidade de escolha repetida de sua tarefa, escolha essa cujo emblema, o símbolo é o matrimônio.

 

 

 

 

Nietzsche e a Repetição além dos círculos do conhecido.

Duas concepções de Repetição ligadas à idéia do eterno retorno eram comuns nos dias de Nietzsche: (1º) repetição mecânica, simbolizada pela fala do anão (2º) a repetição cósmica, aquela da natureza, simbolizada pela fala dos animais. Nietzsche se opõe à ambas, sua proposta enigmática aponta para uma a Repetição que funda uma nova era, uma nova forma de viver no mundo, uma nova filosofia. Neste ponto partilhamos com Deleuze da noção de que esta Repetição, ou o eterno retorno é seletivo, somente aquilo que extravasa, que ultrapassa, que sobeja aquilo que é mais – ümber – é que retorna.

Por isto vemos no Prólogo[4] do Zaratustra a afirmação do retorno dos homens que são qualificados como ümbermensch – além homem.

Ora, essa Repetição ultrapassa o âmbito do conhecido, falar da Repetição nestes termos é falar de modo diferente e desconhecido dos homens de uma determinada época, Zaratustra veio cedo demais, Nietzsche igualmente!

 

Leitura do movimento: O trágico e o cômico, a história, a fé do ponto de vista da repetição no eterno retorno.

Como sabemos Deleuze propõe um movimento tríplice para a Repetição, o trágico correspondendo a primeira repetição, o cômico correspondendo a segunda e sua grande inovação, o drama correspondendo à terceira.  O trágico corresponde ao passado, o cômico corresponde ao presente, mas o drama corresponde ao futuro, a primeira síntese do tempo tem seu núcleo no hábito que relaciona os tempos passado e futuro numa dependência fundamental para sua efetivação no presente vivido.  A síntese seguinte, a segunda, da memória coloca no passado a limpidez que o qualifica enquanto algo puro. Já a terceira síntese opera como um ator ou autor, pois como este introduz no futuro a categoria da própria Repetição que já se pronunciara nas sínteses anteriores.

Bem, segundo Deleuze, o problema da Repetição coincide em Kierkegaard e Nietzsche, supondo haver em ambos a introdução de novidades categoriais que, embora distintas e diferentes, trazem algo analogamente novo.

Qual é o terreno palmilhado por Deleuze na elaboração desta perspectiva?

Ele não supõe qualquer identificação entre o Deus de Kierkegaard e o Dioniso de Nietzsche, mas supõe, baseado nas características intrínsecas ao pensamento de ambos, que as suas filosofias, na verdade, se constituem em ultrapassagens da própria filosofia, para ambos sua filosofia seria uma superação da filosofia.

Na crítica kierkegaardeana à concepção de Repetição presente em Hegel, está contida a afirmação contundente da necessidade do movimento real, para Kierkegaard o movimento dialético tão enfatizado nos círculos do hegelianismo era um movimento ilusório, um falso movimento. É fundamental também para Nietzsche a ultrapassagem deste movimento que em Kant (1724-1804) se caracterizará como movimento lógico. O problema destas duas concepções é que ferem o movimento ao transferi-lo para o âmbito metafísico, ele – o movimento – perde sua realidade e, portanto, não toca o homem naquilo que realmente é mais importante, sua alma – espírito. As concepções criticadas imiscuem o homem no âmbito da generalidade, por exemplo, por mais que ela se afirme ela não se põe ao nível do individuo, necessita, pois de uma mediação, Kierkegaard e Nietzsche põem a Repetição no âmbito do individuo. O geral é aquele que norteia as velhas concepções do antigo mundo Oriental, o sacrifício do primogênito era uma concepção geral à qual Abraão aparentemente submetera-se, todavia.

[...] O paradoxo da fé perdeu a instância do intermediário, o geral. Por um lado, a fé é a expressão do supremo egoísmo: realiza o terrificante, realiza-o por amor de si próprio; por outro lado é a expressão do mais absoluto abandono, actua por amor a Deus [...] o cavaleiro da fé não encontra absolutamente nenhuma expressão do geral (concebido como moral) capaz de o salvar [...]

(Kierkegaard, 1990,pp.92-93&96)

            No esquema de Deleuze, a categoria da fé, proposta por Kierkegaard, se opõe à repetição do hábito, correspondente ao passado e ao estádio estético, posto que este tenha por hábito a repetição de sua ação “livre” de busca por novos prazeres.  A fé também se opõe à repetição da memória, correspondente ao estádio ético, posto esta insere o homem no dever de sempre lembrar os preceitos morais e de viver sob a égide desta moral do gênero. A fé lança os dados no futuro, ela transvasa a própria Repetição, pondo-se como uma categoria a realizar-se escatológicamente.

Esta repetição suprema como categoria do futuro era por eles confiada à fé. Ora sem dúvida, a fé tem suficiente força para desfazer o hábito e a reminiscência, o eu dos hábitos e o deus das reminiscências, a fundação e o fundamento do tempo.

(Deleuze, 1988, p.163)

Já o problema em Nietzsche toma rumos um pouco diferentes, pois a categoria historial, segundo Deleuze, não poderá ser fundada na fé, antes encontra outro móbil que não está devidamente explicitado nos escritos de Nietzsche, já que, ainda conforme Deleuze, ele jamais chegou a escrever o terceiro ato.

Esse terceiro ato traria a lume o resultado do processo seletivo do eterno retorno, resultado que, em certo sentido, fora prognosticado por Zaratustra nas suas críticas às concepções comuns do mesmo. Todavia, o encontro entre o pastor e o anticristo é marcado por uma visada ao futuro, à inauguração de um novo teatro, de uma nova filosofia de um movimento que Kierkegaard diria ser o saltar ao qual Nietzsche certamente oporia o dançar.

Bibliografia

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, São Paulo, Editora Martins Fontes, 1999.

DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição, Rio de Janeiro, Editora Graal, 1988.

KIERKEGAARD, Soeren Abye. Temor e Tremor. Lisboa, Guimarães Editores, 1990.   

NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falava Zaratustra – Um Livro para Todos e Para Ninguém. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1995.

 


[1]Vide in: Deleuze. Diferença e Repetição. Capítulo II – A Repetição para si mesma.

[2] Instintivas: Fazemos uso de um termo que, até onde sabemos não figura na obra de Kierkegaard.

[3] Devemos esta observação a Abbagnano – Dicionário de Filosofia. Verbete: Repetição.

[4] Temos em mente, principalmente o Prólogo 4º e 5º – Assim Falava Zaratustra.

Palco, Picadeiro, Púlpito, Palanque e Política – Eleições 2010.

O processo de sucessão eleitoral, pelo qual estamos passando, nos trouxe inusitadas, e, bizarras “novidades”. Se por um lado contemplamos, certa, participação mais diversificada de integrantes dos mais variados segmentos sociais, por outro, notamos a confusão instaurada, quanto ao papel da política no seio de nossa sociedade, e, mais da própria função daquele que a exerce com fins determinados àquilo que, poderíamos chamar, sua vocação!

  • Política.

Política não é uma palavra simples de se definir, a palavra é de origem grega, politikhè, segundo Abbagnano, ao menos, quatro coisas são designadas por essa palavra: 1ª.a doutrina do direito e da moral; 2ª a teoria do Estado; 3ª a arte ou ciência do governo; 4ª o estudo dos comportamentos intersubjetivos. Porém, interessa-nos para presente reflexão uma definição menos ambiciosa, menos ampla, aquela que figura na perspectiva de Weber (1864-1920) que, num de seus mais famosos ensaios, compreende […] a politica apenas como a liderança, ou a influência sobre a liderança, de uma associação política, e, daí hoje, de um Estado. Nesta perspectiva ela tem um papel imprescindível, tanto no contexto do Estado, quanto das associações políticas, ou seja, aquelas que se estabelecem voluntariamente entre as pessoas para a consolidação de uma determinada configuração de forças. Neste sentido, a política tem como objeto primeiro, o poder; e, se pensarmos como os gregos, o poder que tenciona garantir que os membros da comunidade (política) possam alcançar o seu fim comum: o bem da maioria, da démou, ou de muitos (da politia), ou do povo, o bem da polis. Em Weber, esse fim não é explícito, talvez nem mesmo implícito, mas, é justificável na concepção originária da política, entre os gregos. Todavia, essa concepção impõe uma reflexão mais aguda da relação entre a moral e a política, reflexão que se faz presente nos textos dos grandes filósofos, a partir do pensamento clássico grego, até o ápice da Ilustração.

  • Nuanças da Participação Política.

A participação política é um dispositivo importante para que a comunidade alcance seu fim determinado, para que todos possam influenciar, de certa forma, no rumo que seguirá o desenvolvimento da sociedade e no próprio papel individual que cada um desempenhará na configuração social. Por outro lado, a não participação política, no seio da sociedade, é um problema que acarreta drásticas consequências. Certa vez, contemplamos num muro, na cidade de São Paulo, a seguinte frase: “O pior castigo para aqueles que não se interessam por política é que eles serão governados por aqueles que se interessam!” Descontando a inferência negativa, aquela que faz supor, implicitamente, que aqueles interessados por política são, necessariamente, manipuladores, essa frase tem certo quê de verdade e expressa apenas um dos resultados da não participação política. Assistir o horário reservado à propaganda eleitoral, acompanhar os noticiários, ler os jornais, e, prestar atenção aos veículos de propaganda dos vários candidatos à sucessão eleitoral, faz-nos ter a impressão que a apatia política está sendo banida do cenário contemporâneo. Afinal, além, dos já conhecidos “…cabelereiro’, “…da farmácia”, “…da padaria” e, etc, vislumbramos, cada vez mais, celebridades da TV, dos esportes e religiosos, empenhados na busca à obtenção de um cargo, de uma função no cenário da política brasileira. É uma prerrogativa das sociedades democráticas garantir a liberdade e participação política a todos os que por ela se interessam e estão civilmente habilitados para exercê-la, em diferentes níveis e status. Todavia, a situação presente têm um caráter nefasto que é bem dissimulado através dos veículos de comunicação e de técnicas arrojadas de Marketing. (mais…)

Espiritualidade

Francis Bacon (1561-1626) escreveu uma pequena obra, intitulada De Sapientia Veterum, “A Sabedoria dos Antigos”[1], onde pretende demonstrar que os mitos antigos eram alegorias de aspectos atinentes à ordem civil, moral e filosófica!  Entre os mitos conhecidos de , Perseu, Dédalo e outros, encontramos aquele que narra a história de Erictônio que o filósofo relaciona com a atitude de Impostura. Seguindo o exemplo de Bacon, gostaríamos de usar desta narrativa para refletir sobre a  espiritualidade, assunto, não pouco, suscetível à impostoras.

Na tradição grega, diz-se que Vulcano ardendo de desejo tentou possuir Minerva, à força; seu objetivo fora malogrado, no entanto, sua semente derramou-se no chão de forma que lhe nasceu Erictônio. Este da cintura para cima era belo e formoso, porém suas coxas e pernas eram disformes – finas e sem consistência – de tal modo que não podia suster-se em pé!

Herdeiro do talento de Vulcano e vaidoso como só, fez um carro com o qual podia locomover-se escondendo a parte feia do corpo e simultaneamente mostrando a bonita!  Erictônio era um impostor, as pessoas encantavam-se por seu busto e por seu rosto, porém desconheciam sua deformidade escondida por seu belo carro!

Hoje muitos grupos e personalidades usando técnicas arrojadas de marketing, os recursos tecnológicos da mídia eletrônica e da indústria do entretenimento, nos encantam, porém escondem sua deformidade, sua fealdade. Fealdade esta que consiste na falsificação da espiritualidade, no incentivo de atitudes egóticas por parte de seus adeptos e líderes, que vivem em total contradição com a mensagem das tradições espirituais da humanidade. Estes apontam para terra, almejam apenas os “valores” deste século – dinheiro, poder, fama… – e ignoram valores transcendentes, não suscetíveis a efemeridade deste mundo! Pregam uma mensagem de total conformidade com os anseios desta geração “fast food”, prometem aprimoramento espiritual rápido e garantido, principalmente àqueles que podem pagar bem e manter o alto padrão de vida destes novos gurus!

A iluminação – libertação, ou mesmo salvação – apregoada por eles está confinada ao seu grupo particular, que transmite a seus adeptos a crença que podem alcançá-la através de onerosas sessões programadas especificamente para esse fim!

Logo, na presente era, as pessoas têm crido nas afirmações mais estapafúrdias no que tange a espiritualidade. Muitos se aproveitam da incapacidade com a qual os homens e mulheres do século XXI lidam com esse assunto e conseguem vender sua mensagem usando slogans e rótulos, com os quais querem nos convencer que integram a corrente de transmissão das tradições espirituais ou que delas são remanescentes; quando na verdade, sua mensagem nada tem em comum com essas tradições – a não ser uma ou outra afirmação, temperada a gosto de seus proponentes – o que indica que estes usam de má-fé para com a boa-fé das pessoas!

Mundo caótico, do ponto de vista da espiritualidade, mundo de evangélicos que não valorizam o Evangelho, espíritas que não cultivam as ciências do espírito, ortodoxos que não andam no caminho da retidão, católicos que desconhecem o significado do universalismo[2] cristão, protestantes que já não protestam contra a situação de conformismo e esotéricos que publicam seus “segredos’ e os vendem em livrarias como best-sellers.

Este é um mundo de respostas fáceis,  o mundo em que temos vivido, onde todos se julgam aptos à discorrer sobre qualquer assunto, e, aquele que mais discorre é tido por  mais destacado entre seus pares, porém, suas palavras não passam de opiniões – doxa – cuja profundidade não ultrapassa a de uma poça d’água.

Alguns diriam que isto é um mal que atinge a plebe, as massas, e que homens letrados não se curvam a superstições e não se apegam a futilidades, e, que com o aumento crescente dos níveis de formação escolar e acadêmica, em breve,  estas balelas serão erradicadas.

Belo discurso positivista, porém tão marcado pela ingenuidade, quanto ingênuos são os que nele acreditam, pois, infelizmente não podemos dizer que este seja um mal, de uma classe inculta e desinformada. Antes, suas raízes se encontram no próprio seio  do academicismo, que após aproximadamente dois séculos de doutrinação, conseguiu lançar-nos num lodaçal de secularismo e incapacidade de considerarmos seriamente a possibilidade de uma realidade ou valores transcendentes que se correlacionem com a imanência de nosso viver, de modo,  contribuir para o pleroma de nossa existência.

O Dr. Walter Martin, certa vez, compartilhou que todos os anos a Associação dos Bancos dos Estados Unidos leva centenas de funcionários a Washington para um treinamento onde aprenderão a identificar dinheiro falso. Esse treinamento tem uma duração de quinze dias, mas, sua peculiaridade está em que durante esse período os “caixas” não manuseiam nem uma vez, cédulas falsas, apenas verdadeiras. Por que?

Porque a Associação… acredita que se os funcionários dos bancos estiverem bem familiarizados com as cédulas verdadeiras, reconhecerão facilmente, quando durante seu expediente de trabalho tiverem qualquer contato com cédulas falsas!

Este expediente ilustra, de modo simples,  porém eficiente, como a experiência de formação de um indivíduo pode se constituir no fator decisivo para sua formação, enquanto ser humano,  e enquanto pessoa, o que implica viver na profundidade de seu ser muito mais  como uma totalidade, do que como uma fração, muito mais como  um ser independente, do que como um escravo.

Porém, frente a isso, uma pergunta  se nos impõe: se nossos mestres não nos ensinaram nada sobre a verdadeira espiritualidade, e, nem ao menos a considerar sua existência ou  possibilidade,  quando a falsa, se nos apresentar, como a  distinguiremos?


[1] Cf. Francis Bacon. A Sabedoria dos Antigos, São Paulo, UNESP, 2002.

[2] A expressão Ciências do Espírito, pode ser entendida como aquela que trata dos  elementos constitutivos da Cultura, portanto, criações do espírito humana (ex. Crítica Literária, Pintura e etc.), ou como aquelas ciências que, em conjunto, estudam fenômenos mentais atinentes apenas a seres dotados de consciência (ex. Psiquiatria, Fenomenologia e etc.).  Lembremos que a palavra ortodoxia carrega consigo o sentido de caminho correto e católico o significado de universal.

Filosofia e Teologia – Paul Tilich

O autor.

Paul JohannesTillich (1886-1965) Teólogo e Filosofo alemão, defendeu tese em Tübingen e em Halle, “de 1919 a 1924 foi livre docente em Berlim; em 1924/25 foi professor em Marburg; de 1925 a 1929, em Dresden e Leipzig de 1929 a 1933, em Frankfurt. Entrando em conflito com o nazismo imperante, foi demitido da cátedra, tendo sido o primeiro professor não-judeu a sofrer essa vexação”[1]. foi expulso de seu país nos primórdios do nazismo, estabeleceu-se nos Estados Unidos da América em 1933, foi professor na Universidade de Harvard  e no Seminário Unido de Nova York, manteve diálogo constante com teólogos e filósofos de sua época. Tão grande a riqueza de seu pensamento e a profundidade de suas obras que ele foi classificado por alguns como teólogo dialético, por outros, neo-ortodoxo, mesmo liberal e por muitos foi chamado de herege. Todavia, Tillich sempre se colocou a serviço da Igreja, nunca abandonou suas funções como Ministro Luterano, e de sua “auto-interpretação”.

Uma breve palavra introdutória.

Tillich é um pensador demasiadamente produtivo, o assunto aqui tratado é muito bem delineado em sua “Teologia Sistemática” (Vol I, Introdução B. tópicos 6 e 7 & Parte I ). É necessário destacar que toda sua reflexão tem como eixo um determinado princípio hermenêutico chamado por Tillich “princípio de correlação”, Mondin assim explica este princípio.

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Publicado em: às março 13, 2010 em 8:40 pm  Comentários (3)  
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O Desejo Mimético Em Kierkegaard e Girard – Aproximações Experimentais.

Resumo. Neste breve texto tentaremos aproximar em uma reflexão temática, dois grandes pensadores o filosofo dinamarquês Soeren Aabye Kierkegaard (1813-1855) e o intelectual francês René Girard (1924 -). A despeito das diferenças que caracterizam cada um destes pensadores, quanto ao tempo; quanto ao contexto sociológico; quanto à formação espiritual e intelectual e quanto ao temas de interesse pessoal, cremos ser possível esta aproximação com base em um conceito, o de desejo mimético, que surge assim denominado nas obras de Girard, mas cujas características, constitutivas parecem já estarem presentes, talvez de forma fluída e não-sistemática, nas obras Kierkegaard. Este é, portanto, o móbil da presente reflexão sobre o qual convidamos o leitor a se debruçar!

Palavras-chave: Desejo Mimético. Indiferenciação. Indivíduo. Singular. Totalmente Outro. Sofrimento.

Desejo Mimético (Girard)

Em 1961, René Girard publicou[1] a obra na qual anunciara sua concepção “revolucionária” acerca da origem da Civilização. Nesta Girard propõe pela primeira vez que o princípio fundador de toda sociedade é a violência. Todavia, diferente de certos conceitos já apresentados por representantes do ramo da etnologia (Franz Boas, Konrad Lorenz), em Girard, essa violência não é fruto de uma selvageria e tampouco é anônima, antes é resultado daquilo que ele denominou “desejo mimético”.

De modo sintético, o desejo mimético é a “imitação”, ou seja, nós desejamos o que o outro deseja. Girard tem a cada dia refinado esta tese, em uma de suas mais recentes entrevistas[2], ele surpreendeu-nos com a inserção no escopo do “processo mimético” a diferenciação entre má imitação e boa imitação, dando-nos como exemplo a pessoa de Jesus, o Cristo, que escapou a desejo mimético que gera violência imitando o “Pai”, e nos diz que através da imitação Dele o desejo mimético, aquele mesmo que gera a violência não tem capacidade para se tornar um determinante absoluto do comportamento humano.

Na análise da sociedade em que estamos inseridos, uma sociedade de consumo, a teoria do desejo mimético nos aponta que são nossos vizinhos que indicam o objeto que iremos desejar por imitação, para tanto, não faltam aparatos tecnológicos e instigadores midiáticos que venham a fornecer objetos que se tornarão os instigadores deste desejo no seio dos relacionamentos inter-pessoais.

Mas, qual é a conseqüência lógica do desejo mimético?

É a violência que põe em risco o grupo social em que ela se instaura, que desestabiliza a ordem cultural já estabelecida.  Girard gosta de exemplificar isso por meio de análise das tragédias gregas, menciona a guerra de Tróia, provocada pelo desejo que Paris sente por Helena, a prometida de Menelau. Girard avança até Eurípedes, Shakespeare e outras expressões da dramaturgia, sempre demonstrando como esse desejo mina os alicerces da ordem cultural.

Perguntamos qual o motivo disto ser assim como ele nos apresenta?

Sua resposta é: o desejo mimético dissolve as diferenças, ele instaura o que Girard denomina “crise da indiferenciação” (ou simplesmente, crise das diferenças). Toda ordem social se funda na diferença, o desempenho de diferentes papeis por cada indivíduo constitui essa ordem, a  imitação gera o fenômeno da “indiferenciação”, que por sua vez, avoluma-se em caráter de crise.

Girard não se abstém de diagnosticar nossa sociedade, que segundo ele vive essa crise de indiferenciação generalizada, onde já não se distinguem com exatidão, os povos, as classes, as funções sociais e até mesmo os sexos.

O Desejo (Kierkegaard).

Em Kierkegaard o tema “desejo” está notadamente presente, porém não é tão fácil explicitá-lo, posto que está imbricado com diversos outros conceitos de modo a formar um todo unificado.

Kierkegaard considera o “eu” do homem uma síntese de opostos polares (finito e infinito, liberdade e necessidade, temporal e eterno…), além de ser uma síntese autorrelacional, que em última instância depende absolutamente de Deus, pois Nele é que a unidade do “eu” se funda!

O homem na concepção de Kierkegaard constrói o seu “eu” em uma relação de interioridade (ele dirá também subjetividade, ou seja, “o eu que se relaciona consigo mesmo”) e através da relação com o outro rumando em direção ao Totalmente Outro (Deus). Esse itinerário se faz necessário porque em um dado período nossos primeiros pais caíram da relação com o Totalmente Outro introduzindo o “pecado” no mundo, fazendo do homem um ser de “falta” e essa falta se constitui no “princípio motor” do desejo.

Kierkegaard dirá que o homem deseja “preencher” essa falta, e na busca de satisfação seu desejo será direcionado de forma diferente (ou para objetos diferentes) de acordo com o estádio em que se encontre.

No estádio estético, ele se volta para as coisas terrenas e humanas, aquelas que lhe são imediatas, mas, essas são relativas e não têm o poder de satisfazer o desejo absoluto o que somente o telos absoluto (Deus) é capaz de fazer.

No estádio ético, o desejo se posta ante um principio que exigirá dele a exteriorização de seu desejo interior, que ele queira um outro que ele ame[3], que ele se dê a “um” outro de modo que valorize a consciência que a ética supõe lhe despertar!

O estádio religioso transcende a fraqueza que o estádio ético não é capaz de transcender, pois este (ético) se põe uma exigência de moralidade que os princípios gerais de quaisquer códigos são incapazes de fornecer e que instaura uma crise, somente superável por meio do desejo do Um (que sendo telos absoluto, tem seus correlatos nos teloi relativos dos estádios anteriores).

Porém, esse Um deve ser desejado como o Eterno, como Aquele que é Totalmente Outro em relação aos homens.

Não podemos deixar de lado em uma discussão sobre o desejo, o fato do sofrimento, o próprio Kierkegaard nos adverte que tem de ser assim, pois na lacuna entre consciência da falta e o desejo da satisfação situa-se a insatisfação expressa em sofrimento, causado pela inabilidade em se relacionar com o outro, pela inquietude a respeito de sua significação e pelo fato do Um não poder ser colocado dentro da “forma” do saber.

O sofrimento, todavia, no estádio religioso se imiscui no foro da interioridade humana, sofre aquele que existe essencialmente, portanto, seu pathos é essencial existencial, é a conseqüência da consciência que o indivíduo adquire de sua incapacidade de auto-transfromação (fora da base do Outro).

Mas, podemos dizer que a maioria dos homens vive no estádio estético, neste há uma exteriorização máxima da interioridade, onde esta é esvaziada e o individuo assimila as mais variadas situações com o intuito de preencher o vazio gerado. No estádio estético os padrões de convivência social e os padrões éticos são dissolvidos e o principio de vida pautado no ego do esteta se torna a “norma padrão”. Neste ponto, temos uma sociedade em que os indivíduos buscam seus próprios interesses, mas que entram em conflito com os interesses alheios, talvez por terem o mesmo objeto.

Os Pontos de Convergência.

Kierkegaard viveu em meados do século XIX no seio da sociedade dinamarquesa entre a classe média (burguesa) e viu com que facilidade os homens eram absorvidos por uma homogeneidade, onde mesmo as “afirmações” das individualidades, não passavam de mero individualismo, onde não havia constituição do verdadeiro “eu” de cada indivíduo, mas apenas “eus” genéricos (“eu” na terceira pessoa).

Esse é sem dúvida o sintoma da instauração e desenvolvimento da “sociedade de massas”, onde o indivíduo não pode se constituir como individualidade e toda tentativa cai no individualismo, mas na grande maioria das vezes, ocorre o seu oposto, o individuo é tragado e se torna algo indistinto entre os seus pares, em seu tempo havia uma tendência em se assimilar o indivíduo na generalidade, em diluí-lo no anonimato e na impessoalidade, sua crítica compara a sociedade a um conjunto de animais, a um rebanho obediente a um principio de desejo exterior a si e artificialmente engendrado.

Não é mera coincidência que uma teoria como a de Girard faça sempre com que nos remetamos a Kierkegaard, a análise e diagnóstico da sociedade, feita por ambos é extremamente semelhante, ou digamos que são análogas, respeitando as devidas diferenças atinentes aos contextos históricos, datas, condicionamentos culturais, religiosos, além das orientações intelectuais de cada autor, é possível dizer que ambos nos “pintam um retrato” da sociedade muito parecido.

As abordagens de Kierkegaard e Girard constituem um “corpus” que podemos sem dúvida alguma classificar como “antropologia filosófica”. Na elaboração de cada autor “o desejo” tem uma função essencial.

Em Kierkegaard o desejo tem um índice ontológico, porque é o desejo de “falta” que se manifesta em querer ser o outro e em última instância o Totalmente Outro.

Em Girard, o desejo tem um índice axiológico, porque é desejo de possuir o objeto de desejo do outro[4].

Na antropologia filosófica marcada pelo índice ontológico a preocupação se volta para a constituição do “eu” e contra tudo o que ameace sua singularidade, portanto contra a indiferenciação que de modo claro caracteriza a sociedade de massas.

Na antropologia filosófica marcada pelo índice axiológico a preocupação se volta para valores externos que parecem autenticar o “eu”, mas o dissolve na indiferenciação e essa é basicamente a característica mais marcante da sociedade de consumo hodierna.

Considerando os dados acima podemos dizer que ambos conceitos referentes ao “desejo”, o qualificam como “mimético”, na medida que há “imitação” de algo que em primeira instância é extrínseco ao “eu” e que ambos aparentam contribuir para a construção deste (Kierkegaard) ou para sua autenticação (Girard). Também consideremos que em ambas as teorias a indiferenciação é a mais elevada ameaça para a realização do indivíduo, enquanto sujeito singular, em Kierkegaard instaura uma subserviência cega a fatores generalizantes que se impõem sobre os indivíduos e os reduzem ao anonimato e a impessoalidade. Em Girard instauram a “crise das diferenças” levando ao colapso a ordem cultural estabelecida e deflagrando um turbilhão de violência generalizada que se movimenta num crescendo capaz de aglutinar a tudo e a todos na indiferenciação.

Conclusão.

Cremos ter estabelecido, de modo claro, certo paralelo entre Kierkegaard e Girard, no que tange o tema “desejo mimético”. Sabemos que aproximações deste tipo devem ser realizadas com cautela e com muita reverência, afinal não convém apressar-se em falar sobre coisas das quais ainda somos meros aprendizes, e neste espírito é que nos propomos a compor este breve escrito.

É certo que não consideramos diversos aspectos que integram as teorias dos autores aqui referidos, mas ao menos procuramos não deixar de fora aqueles aspectos que mais contribuem para abordagem do assunto em questão.

Em primeira instância éramos céticos quanto à possibilidade de estabelecer esta conexão, e isso devido a diversos fatores mencionados no corpo da reflexão, conquanto nos despimos dos pré-conceitos acreditamos ter encontrado os pontos de convergência suficientes para essa produção. Naturalmente, não tencionamos reduzir Kierkegaard a Girard e vise-versa, até porque tal redução resultaria em uma bizarra figura incrível e digna do desprezo que lhe seria votado[5]. Os dois pensadores têm diferenças marcantes em diversos âmbitos, talvez sua maior similaridade seja a “profissão de fé” cristã que de certo modo lhes serve de “princípio hermenêutico” na compreensão da realidade e do fenômeno humano.

Enfatizamos que esta abordagem aproximativa é um breve ensaio e que tal não se pretende perfeita, mas rumando ao aprimoramento. Não tenciona relacionar ambos pensadores em todos os pontos, antes, é como uma fina teia de aranha onde o caminhante tem que “tomar cuidado” onde pisa, pois pode se perceber repentinamente caindo no abismo sobre o qual ela foi tecida.

Esperamos de forma ardorosa que haja novos ensaios, e este por meio de mãos e mentes mais habilitadas, que consigam construir pontes onde ainda vislumbramos apenas a outra margem!

Bibliografia.

ELROD, John W. Paixão, Reflexão e Individualidade. (Trad. Nelson Rabuske) S/ Data.

FARAGO, France. Compreender Kierkegaard, Petrópolis, RJ. Vozes. 2006.

GIRARD, René. Um Longo argumento do Princípio ao Fim (Escatologia, Cristianismo e Mundo Contemporâneo) São Paulo, Editora Companhia das Letras. S/ Data.

KIERKEGAARD, Soeren Abaye. As Categorias do Sofrimento Religioso e da Dúvida Religiosa (O limite extremo entre a razão e a fé) In: Post-Scriptum Aux Miettes Philosophiques . Trad. Silvia saviano Sampaio. S/ Data.

NOGARE, Pedro Dalle. Humanismos e Anti-Humanismo (Introdução à Antropologia Filosófica). Petrópolis, RJ. Vozes. 1985.

SAMPAIO, Silvia Saviano. Kierkegaard e a Psicossomática. São Paulo. 2008.

SORMAN, GUY. Os Verdadeiros Pensadores de Nosso Tempo. Rio de Janeiro, Editora Imago. 1989.


[1] Trata-se da obra “Menoge Romantique et Vérité Romanesque”.

[2] Um Logo Argumento do Princípio ao Fim: Escatologia, Cristianismo e Mundo Contemporâneo. Editora Companhia das Letras.

[3] Embora não saibamos os detalhes, lembramo-nos da notícia que a Legislação Brasileira aprovara uma lei que “obriga os pais a demonstrarem amor a seus filhos”.

[4] Girard pode aplicar isso até mesmo  com relação às esferas angelicais, onde Lúcifer quis paar si o trono de Deus (Cf. Is. 14 : 13)

[5] Talvez, algo que se assemelha ao “Monstro” de Frankenstein, figura inumana que tão bem nos remete aos aspectos mais “feios” de nossa humanidade.

“Os umbrais da antropologia filosófica na obra de Dostoievski”

“Creio que a melhor definição que posso dar do homem é a de que se trata de um ser que se habitua a tudo”.- Dostoiévski[1]

Onde podemos encontrar a gênese dos conflitos entre os homens? E onde estão as cordas de amor que nos prendem em atos de solidariedade aos nossos semelhantes? No interior do homem digladiam forças antagônicas, num ímpeto tão vigoroso, que parecem estar prestes a nos despedaçar. Mas, ao mesmo tempo este caráter multiface do fenômeno humano, nos capacita adaptar-se a quaisquer circunstâncias. Dostoiévski soube como poucos reproduzir em seus personagens (na maioria das vezes tão patéticos, que é quase impossível que não nos identifiquemos com alguns deles) o imenso e intricado labirinto que é o “universo interior” do homem, povoado pelos mais tenebrosos “demônios”. Em seus romances todas as personas que carregamos dentro de nós, figuram com tanta vitalidade que mal podemos distinguir se ao criá-las o autor olhou para dentro de si ou para dentro de nós. Todavia, não é improvável que ao olharmos para nosso interior com audácia, perspicácia, sensibilidade e sinceridade, vejamos o homicida e o filantropo, o adúltero e o bom marido, o luxurioso e o abstêmio, o jogador e o austero, o parricida e o filho amoroso, o homem vil e a criança dócil e indefesa ante um mundo mal. Personagens tão corriqueiros no mundo literário de Dostoiévski. E também no nosso mundo; o homem é um ser multidimensional, e esta característica tem suscitado tantas investigações cujos resultados são as mais variadas concepções sobre a natureza humana com as quais devemos lidar.


[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. “Recordações da Casa dos Mortos”. Publicações Europa-América, 1972. Pág.15.

O significado cósmico da habitação humana.

Riad - Figura do Jardim Primordial

Nas grandes tradições religiosas Deus e o universo são tidos como o macrocosmo e o homem como o microcosmo, este carrega em si de modo análogo as mesmas particularidades existentes no macrocosmo. Essa correspondência possibilita estabelecer analogias úteis para o nosso aprimoramento espiritual. As grandes tradições do Espírito sempre consideraram que a analogia entre o macrocosmo e o microcosmo também pode ser aplicada a templos e a todo tipo de edifício construído com objetivos sagrados (quer trate-se de mesquitas, sinagogas, stûpas ou catedrais cristãs)!
Porém, cremos como alguns eruditos (e neste caso pensamos em Guénon ), que as habitações humanas também podem ser objetos dessa analogia. Pois, há uma transposição do templo (neste caso como macrocosmo) para a residência (como microcosmo), sempre guardando as devidas proporções. Isso mostra a sacralidade do lar e qual seja a dinâmica espiritual do homem em sua habitação que deve tornar-se um ritual doméstico de exaltação ao Altíssimo. A própria palavra habitar (em latim habitare) deriva da palavra hábito (em latim habitus), um hábito é algo que fazemos de modo regular e com uma certa constância, de modo a tornar-se uma inclinação, no latim habitare se liga etimologicamente a habere (ter), logo é algo que temos devido à interiorização, daí a relação com ritual, aquilo que se compõe de determinados, gestos, atos e palavras que têm um significado místico, transcendendo a mera forma. Isso significa que a habitação, o lar tem um significado mais que meramente utilitário, a habitação humana é também um microcosmo refletindo o macrocosmo. Essa característica foi mantida nas sociedades tradicionais, o modelo islâmico é muito significativo neste ponto, suas residências possuem os pisos (ou as bases) quadrados ou retangulares (quadrado duplicado) e os tetos abobadados. Nas tradições espirituais o quadrado simboliza a terra e o círculo o céu (no caso, o domo é um semicírculo e símbolo da abóbada celeste). As residências tradicionais são construídas de modo quadrilátero, ao redor de um pátio interior, assim sobre este se constitui um vão livre, um espaço onde o domo é substituído pela real abóbada celeste, afirmando ainda mais o seu caráter simbólico, neste ponto se encontra também um jardim com uma fonte, simbolizando o “Jardim Primordial”, o paraíso onde viveram nossos primeiros pais, a fonte não é outra, senão a fonte da vida, e embora a árvore nem sempre esteja presente, a fonte também faz vezes à “Árvore da Vida”, bem no centro do jardim. Porque, isso indica o local onde podemos nos encontrar com Deus, no centro, a árvore é um símbolo axial, bem como a fonte, o fato de elas estarem no centro e serem atraídas para cima pela lei natural, as caracterizam como colunas ou pontos de ligação entre “reino celeste” e o “reino terrestre”, entre o “em cima” e o “embaixo”, entre Deus e os homens!
Nas residências tradicionais da Índia não há distinção entre sala e cozinha, o fogo é acesso no lugar principal da casa e simboliza a manifestação de Agni (na tradição védica, deus do fogo), da mesma forma os lares tinham suas estátuas próximas ao fogo, ali seria aceso nos corações humanos o desejo pelas coisas celestiais (espirituais) e pelo mundo porvir!
Podemos dizer, enfim que os edifícios eram construídos com significados cósmicos implícitos; e suas estruturas representavam a formação do mundo e (ou) a hierarquia cósmica! Com o evidente declínio do mundo moderno as residências são construídas apenas com fim utilitários. Mas, não totalmente arreligiosos, pois no fundo há uma religiosidade às avessas, onde o consumo é a prática da “fé” e as posses materiais garantias de status social!
Por que será que bem no centro de nossas residências (as salas) estão instalados os televisores, os home theaters e os dvds? Objetos poderosos não apenas para o entretenimento, mas também para a formação de nossas opiniões, de nossos valores e principalmente de nossos anseios!

Bibliografia
GUÉNON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo, Editora Pensamento, 1993.
RIFFARD, Pierre A. O Esoterismo – O que é esoterismo? Antologia do esoterismo ocidental. São Paulo, Editora Mandarim, 1996.

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