Uma Fome Nuclear: Um bilhão de pessoas em risco.

Artigo retirado do site da CNN.

Editor’s note: Jayantha Dhanapala is a former ambassador to the United States from Sri Lanka, U.N. under-secretary general for disarmament and chairman of the 1995 Non-Proliferation Treaty Review and Extension Conference. Ira Helfand is the past president of Physicians for Social Responsibility and current North American vice president of the International Physicians for the Prevention of Nuclear War.

(CNN) – Recent ballistic missile tests by India, Pakistan and North Korea — which has ominously threatened to “reduce to ashes” the South Korean military “in minutes” — are once again focusing the world’s attention on the dangers of nuclear war.

This concern was dramatically underscored in a new report released at the Nobel Peace Laureates Summit in Chicago. Titled “Nuclear Famine: A Billion People at Risk” (PDF), the study shows that even a limited nuclear war, involving less than half of 1% of the world’s nuclear arsenals, would cause climate disruption that could set off a global famine.

The study, prepared by International Physicians for the Prevention of Nuclear War and its U.S. affiliate, Physicians for Social Responsibility, used a scenario of 100 Hiroshima-sized bombs exploded in a war between India and Pakistan. If there were such a war, the study estimated that 1 billion people, one-sixth of the human race, could starve over the following decade.

Along with recent events, these findings require a fundamental change in our thinking about nuclear weapons.

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O artigo cita India e Paquistão, que têm bombas atômicas, como ponto de ignição de uma possível Guerra Nuclear. Quanto à Corea do Norte, ela sim está ameaçando a Corea do Sul e ainda o Japão – o que deixam de citar e, ainda por cima, deixam ambíguo que India e Paquistão estejam ameaçando também a Corea do Sul no começo do artigo.
Em resumo, físicos ao redor do mundo se unem para evitar uma Guerra Nuclear que poderia matar um bilhão de pessoas de fome apenas na década seguite aos ataques.

O problema está em pontos como: EUA, na América. Rússia, na Ásia e Leste Europeu. Coreas e Japão, no extremo Leste. Paquistão e India, no sul da Ásia. E – por que não? – Irã no meio do Oriente Médio. Se algo em escala global acontecesse, talvez apenas a África, a América Latina e a Austrália pudessem estar “livres” de uma destruição imediata, mas a fome passaria por todos. E, ainda com os submarinos americanos e russos, e suas numerosas reservas de bombas da Guerra Fria… tudo pode virar às avessas rapidamente.

O artigo continua…

(mais…)

Roda Viva – Arthur Giannotti – 07/05/2012

Texto e vídeo do próprio site da TV Cultura.

Para o link original, clique aqui.

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Filósofo e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo), José Arthur Giannotti foi o centro do Roda Viva de segunda-feira (7/5). Além de filosofia, o professor Giannotti, que é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), também falou sobre política e corrupção, fazendo uma leitura do Brasil de hoje.

“Nós temos uma sociedade de sociólogos fechados”, é assim que define os pensadores de hoje. Para Giannotti, a se a filosofia não for algo mais do que o remoer dos textos ela não chega a entrar para debate mundial.  Mas ele ressalta que há grandes pensadores na atualidade, dentre eles jornalistas que falam como filósofos.

Mas difícil mesmo é saber traduzir um filósofo. Eles existem e sempre existiram. Cada um com suas palavras e pensamentos. “Há um grande engano, quando se lê René Descartes pensa-se que se entendeu e não entendeu-se nada”. Segundo Giannotti, “todos os filósofos estão certos, todos estão errados. Eles dizem o mesmo de uma forma diferente”.

O professor também falou sobre os sistemas de cotas raciais nas universidades: “Sou inteiramente favorável. Existe uma dívida com a população negra que precisamos resgatar. Se fizermos uma quantidade de cotas para escolas públicas, teremos uma quantidade grande de negro sem classifica-los como negros. Acho que podemos também tentar outras soluções, outros tipos de cotas”. Ele ainda ressalta: “daqui a pouco vão ter também cotas para os descriminados se sexualmente”.

Segundo o filósofo, o bom estadista é aquele que perde a alma pelo Estado. Ele também deixa explicita a sua insatisfação com o sistema Judiciário de hoje. “Eu não aguento mais ver sessões do Supremo em que juízes dão parecer de duas horas e pouco e os colegas também dão o parecer no de mais de duas horas, ou seja, virou espetáculo e dizem que estão fazendo justiça”.

Para o professor, o mercado é predador e o maior desafio do país é saber controla-lo. “O grande problema é como vamos controlar o mercado. As tentativas dos últimos anos foram desastrosas. Isso é controlado pela política”.

Sobre a corrupção: “o país pode entrar em decadência por décadas. Não adianta mais o grito generalizado contra a corrupção”. Para Giannotti, neste caso vale o ditado: ‘Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’.

Apresentado pelo jornalista Mario Sergio Conti, o Roda Viva contou, para esta edição, com uma bancada formada por: Laura Greenhalgh (editora executiva do jornal O Estado de S. Paulo e coordenadora dos cadernos Aliás, Sabático, e Caderno 2); Marcos Flamínio Peres (diretor de redação da revista Cult); Luciano Codato (professor do departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp); Márcio Sattin (professor de Estética na Escola da Cidade); Angela Alonso (professora do departamento de Sociologia da USP e pesquisadora sênior do Cebrap).

O Físico e o Filósofo

Publicado em: às abril 19, 2012 em 9:15 am  Deixe um comentário  
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Limites da liberdade de expressão

Renato Janine Ribeiro

Não saberia discutir o caso Rafael Bastos, pela mera razão de que nunca vi o humorista. Mas o debate sobre afirmações agressivas e até desrespeitosas – refiram-se a mulheres feias, refiram-se a homossexuais -, indo do deputado Bolsonaro aos humoristas, é de grande importância política. Porque está em jogo o alcance da liberdade de expressão.
Ora, o que tenho lido a respeito e constitui um quase consenso entre os jornalistas, mas não tanto fora de seu meio, se resume assim: é inaceitável qualquer censura. É preferível que, no mais livre debate, se possa expressar o que há de mais odioso, porque poderá ser contestado, do que coibir sua veiculação. Primeiro, porque se alguém tiver o poder de definir o que é decente e indecente, o que é “do bem” ou “do mal”, esse alguém terá um poder ilimitado, que inevitavelmente empregará para proteger e promover o seu lado e reprimir seus opositores. Segundo, porque estamos lidando com adultos. Eles não podem ter restringido seu direito de acesso a toda forma de opinião até porque, só pelo acesso, pelo debate, pela exposição de ideias opostas, poderão superar o preconceito.

Creio que meu resumo é bastante fiel. Aliás, concordo com tudo isso. Só acho que esse discurso deixa de lado dois problemas sérios. O primeiro é que nenhuma liberdade é absoluta, nem mesmo a de expressão. Na Alemanha, por razões óbvias, a apologia do nazismo é proibida. Na França, negar a realidade histórica do Holocausto constitui crime. Os dois países entendem que a expressão de ideias fascistas não deve ser tolerada, pelos males que já causaram. Considera-se que os indivíduos não dispõem necessariamente de antivírus contra esses perigos.

Deixam a Alemanha e a França de ser países democráticos, porque proíbem a pregação do ódio? No Brasil, a Constituição que veda a censura manda respeitar o nome, a reputação e a família. Qual o equilíbrio entre o direito de se expressar livremente e a obrigação de respeitar o outro? Esse ponto tem de ser definido. Não havendo lei de imprensa, ficam indefinidas as fronteiras entre o direito de se expressar e o de se proteger da calúnia. Esse limbo deixa tudo ao arbítrio do juiz.
Mas há um segundo problema – e esse me entristece. Trinta anos atrás, vivíamos sob a ditadura mais longa de nossa história. Defender a liberdade de expressão significava, então, lutar para que riquezas enormes viessem à tona. Pudera: de 1964 até 1985, passamos por três fases de suspensão até das garantias constitucionais mínimas – seis meses do Ato Institucional, em 1964, ano e meio do AI-2, entre 1965 e 1967, mais de dez anos do AI-5, começando em 1968. Na outra metade da ditadura, mesmo sem atos institucionais, as leis vigentes limitavam muito a liberdade. A esperança era então que a liberdade nos trouxesse ar, vida, sensibilidade, inteligência. Quando um livro, filme ou peça era proibido, víamos nisso um selo de qualidade. E quase sempre tínhamos razão.

Então por que hoje, quando se fala em liberdade de expressão, é para defender o direito a dizer e fazer o pior, não para o melhor? Repito: não me julgo capacitado a dizer o que é bom ou mau, nem quero para mim o poder legal de distingui-los. Mas, nos tempos que evoco, a liberdade era vista como criativa, produtiva de melhores relações humanas. Hoje, porém, quando ela é invocada pelos jornalistas a que aludi, é para autorizar a expressão do que há de pior no ser humano. Mais grave que Bolsonaro, aliás, foi o deputado paulista que acusou os negros de descenderem do filho maldito de Noé. Aqui, saímos dos limites democráticos e entramos no âmbito do que uma sociedade decente pode e deve castigar. Não defendo a censura. Censurar e punir são coisas bem diferentes. A censura se faz antes. Já a punição se aplica depois. A censura impede que se cometa um ato julgado errado. Curiosamente, ela torna o censurado inocente e impune, porque não pôde fazer a coisa errada (supondo que fosse mesmo errada). Mais adequada é a punição, que não impede ninguém de dizer o que quiser, mas castiga com o rigor da lei, após processo justo, quem agiu criminosamente de qualquer forma, inclusive com a palavra.

Mas hoje a liberdade de expressão deixou de ser selo de qualidade para se tornar sinal de desesperança. A maior parte dos que defenderam Rafael Bastos e outros humoristas que avançaram o sinal, pelo menos, do bom gosto alega que qualquer limite à liberdade de expressão pode levar ao controle dos adultos por um governo que imporá cada vez mais controles e censuras. Eu concordo, contra a censura. Contudo, não é um triste sinal dos tempos que hoje, quando se elogia a liberdade de expressão, seja para tolerar o discurso vulgar, preconceituoso, que rebaixa o nível do convívio social – e não mais para criticar o que existe de errado, apresentar utopias, fazer a razão sonhar?

Nos tempos em que a América Latina padecia sob as ditaduras de direita e a Europa Oriental sob as de esquerda, dizia-se que nas gavetas havia inúmeras obras de qualidade, proibidas pela censura – e que, caindo o regime autoritário, cem flores floresceriam. Mas isso não sucedeu. Havia menos obras-primas proibidas do que se imaginava. Parece que, em geral, uma obra-prima precisa de liberdade, não só para ser publicada, mas até mesmo para ser escrita. Mas o que me entristece é ver que hoje se valoriza cada vez mais o vulgar, o reles. Anos atrás, esperávamos que a liberdade gerasse o bom e o ótimo. Agora, parece que o reles é a essência da liberdade, seu produto mais constante, talvez mais importante. Só posso dizer que lastimo esse estado de coisas.

Publicado em: às outubro 29, 2011 em 12:07 am  Deixe um comentário  
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Elogio a ordem

“… são as relações ideológicas que estão imediatamente presentes no processo de produção,

ora é o aparelho repressivo que garante as condições políticas da reprodução e serve de escudo

para a atuação dos AIE, ora é a ideologia que garante a harmonia entre os aparelhos” (ALTHUSSER 1985 p. 31)

 

Elogio a ordem

Desde o fim da ditadura militar não encontrávamos os “homens da ordem” nas universidades, porem nos últimos tempos nos deparamos a cada esquina  com as forças disciplinares infiltrados entre os estudantes, até que em um certo momento a universidade reconheceu sua incompetência e resolveu firmar um convenio com tais “forças”, os quais deveriam “assegurar” o bem estar social, ou melhor dizendo, deveriam garantir a ORDEM.

Em nome da paz instituímos a guerra como forma de “segurança”, como se o mundo estivesse ordenado! – erá que se essa tal “ordem” fosse assim tão ordenada precisaríamos de “homens da ordem” para garanti-la?

Vivemos em um mundo que aparentemente está tudo em seu lugar, cada um tem sua função e vivemos em constante harmonia, que em sua origem tem como perspectiva ordenar o caos. Talvez seja isso que precisamos aprender! O mundo social é um mundo harmônico! Mas… então para que precisamos contar com os “homens da ordem”?

Para Althusser, o mecanismos ideológicos resulta no reconhecimento da necessidade da divisão do trabalho e do caráter natural do lugar determinado para cada ator social na produção. Essa mesma ideologia que deveria ser ensinada pelos Aparelhos ideológicos do Estado, nesse caso a universidade, para que a harmonia prevalecesse sobre o mundo, mas por pura incompetência das universidades isso não vem acontecendo, elas estão formando pessoas que incrivelmente questionam a ordem? Questionar? Não isso não pode ser o papel do estudante, um estudante não pode questionar a ordem!!? É o estudante assim como a ciência que tem que garantir a ordem, afinal vivemos em um mundo extremamente harmônico, não?

Então tomemos o rumo da verdadeira forma de fazer ciência e nos calemos diante de tais acontecimentos, afinal estamos além do bem e do mal, discutir política é para baderneiros que não tem o que fazer!!! Eu… tenho que continuar meus estudos!

Questionar? apenas aquilo que não influencie na ordem  do mundo em que vivemos, afinal é muito difícil viver sem ela!!!

Nossa tão queria ordem, tudo está ai, organizado, ordenado, basta eu olhar para o mundo e percebo a sua forma harmônica. Então… nosso papel como cidadão é o de manter a ordem!

Depois dessas meras palavras percebo que a universidade não é assim tão incompetente, com a ajuda da dos incríveis meios de comunicação (esses sim, extremamente competentes) estão conseguindo assegurar a ordem nacional, afinal conseguiram garantir, na maior parte dos casos, pessoas indiferentes ao mundo em que vivem, indiferentes aos problemas sociais, nos transformaram em uma massa amorfa!! Aceitamos o mundo do jeito que ele se apresenta, não tentamos mudá-lo pois não há nada que possa mudar!!

Um viva aos seres da Ordem, um viva a Ordem !! e, se alguém quiser questionar, chamemos o camburão…

Raphael Alario.

Clique aqui e veja a matéria que saiu no Bom dia Brasil

Publicado em: às outubro 28, 2011 em 1:37 pm  Deixe um comentário  
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Homofobia e moralidade I

Homofobia e moralidade I

Introdução

As relações homossexuais, desde que o mundo é mundo e o homem é homem, existem. Estão tanto no mundo civilizado quanto no mundo animal. Lembremos da antiguidade clássica, Grécia e Roma, dos diálogos de Platão, das peças de Aristófanes, das relações entre os soldados em Esparta. Existem diversas explicações para as várias práticas comportamentais na antiguidade, na modernidade e na contemporaneidade, mas o que vou refletir nesse texto é um problema muito mais sério do que a simples investigação dos motivos por trás das práticas homossexuais, e questiono até a relevância de pesquisar tais motivos. Realmente importa saber o porque? Se é biológico, psicológico, social, uma mistura de todos esses supostos, realmente importa? Se de fato descobrirmos os motivos desse comportamento, mudaria algo na vida dos homossexuais? Bom, aumentaria nosso conhecimento, e mais nada. Heterossexuais continuariam suas vidas assim como os homossexuais.

Pois bem, deixarei de lado esse pequeno problema (apesar que direi algo sobre isso mais a frente) para investigar um problema muito maior, como dito acima, a saber, o de porque os homossexuais são tão odiados na civilização contemporânea. Porque seu estilo de vida causa ódio, repulsa, intolerância e outros sentimentos negativos em pessoas que, muitas vezes, não são más?

Existem, portanto, determinados pressupostos que devem ser esclarecidos, analisados racionalmente, para, por fim, identificar se as razões relativas à repulsa contra homossexuais são sustentáveis, são fundamentáveis, são racionais.

Para começar, algumas palavras sobre a ética

Sempre que escrevo algo sobre a ética (no contexto desse texto usarei as palavras ética e moral como sinônimas), acho necessário explicitar algumas coisas sobre essa disciplina. Pode parecer meio chato, mas é fundamental para podermos ter um critério de avaliação racional sobre o que é “certo” e o que é “errado”.

Uso geralmente um texto que escrevi a algum tempo, e essa parte está contida em outros artigos, e nesse artigo, portanto, não será diferente. Comecemos, pois, a investigação (breve) sobre a natureza da ética.

Para começar nossa discussão, que faz parte do campo da ética, que por sua vez é uma disciplina (e talvez a mais importante) da filosofia, é importante fazer algumas distinções e esclarecer, acima de tudo, o que é a ética. Tentarei não fazer uma exposição exaustiva desse conceito, e exporei apenas o necessário para se ter uma boa clarificação do que é realmente a verdadeira natureza da ética.

Primeiramente direi algumas breves palavras sobre a filosofia para posteriormente estabelecer dentro da prática filosófica as investigações de natureza ética.

A filosofia, desde seu estabelecimento no século VI a.C. por Parmênides de Eléia1, sempre foi um exercício puramente racional. Parmênides desenvolveu uma definição do Ser sobre bases puramente intelectuais e lógicas (tanto é que foi ele quem primeiro estabeleceu o princípio de identidade lógica) demonstrando que a contradição é irracional e o irracional é insuportável. O filósofo eleático distinguiu os dois caminhos que os seres humanos podem seguir em qualquer investigação racional: o caminho consequente que conduz à verdade ou o caminho das simples opiniões que conduzem ao erro. “…é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda, e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira (ou seja, certeza)”.2 Nas palavras dos grandes especialistas na filosofia grega antiga, “Parmênides afirma que em qualquer investigação há duas, e apenas duas, possibilidades logicamente coerentes, que se excluem mutuamente – a de que o objeto de investigação existe ou a de que não existe. Em bases epistemológicas, ele rejeita a segunda alternativa como ininteligível. Em seguida, ataca o comum dos mortais (ou seja, o senso comum inconsequente, a doxa, a opinião) por demonstrarem com as suas crenças que nunca escolhem entre as duas vias ‘é’ e ‘não é’, mas que seguem ambas sem discriminação”.3

Bem, tudo isso foi dito para esclarecer como, desde Parmênides, a filosofia se constituiu como uma pratica racional e consequente sobre problemas bem determinados. Desde essa época a filosofia já era concebida como “desafio ao senso-comum”.

Ora, a preocupação com questões éticas, e o estabelecimento da ética como investigação filosófica, contudo, surgiu com um personagem muito conhecido da humanidade, Sócrates.

Antes de Sócrates, as preocupações dos “filósofos” concentravam-se, sobretudo, em questões relativas ao cosmos e a physis, em outras palavras, concentravam-se na tentativa de compreender a configuração do real, do mundo, e não do homem e suas ações.

Sócrates, no início de suas investigações filosóficas, concentrou-se também (como os filósofos posteriores) em buscar respostas a respeito do ser das coisas a partir de elementos naturais, porém, abandonou bem cedo o estudo da natureza (physis). No diálogo “Fédon”, Sócrates dirá que se decepcionou com os estudos da physis, pois as respostas que encontrou davam conta mecanicamente, por exemplo, de suas ações enquanto cidadão. Ou seja, os físicos explicariam o fato de Sócrates estar preso e condenado à morte porque seu corpo é constituído por ossos e músculos e que esses músculos se contraem dando movimento ao corpo e que, por conseguinte, esse movimento teria levado Sócrates para a prisão. Não contente com esse tipo de resposta mecanicista, Sócrates se voltará para os estudos dos homens nas cidades e buscará as causas que motivam os homens a agir. Esse abandono da physis também se dá pelo fato de que a natureza não exerce o logos. Os animais, os campos, as árvores não consentiam em ensinar-lhe alguma coisa. Sócrates demonstrava que o homem se define por ser um animal racional, sua natureza era racional (como posteriormente dirá Aristóteles), e apenas o homem pode exercer o diálogo (dia– através, logos– discurso, razão), “o através do discurso/razão”, pois naturalmente desenvolvia a linguagem.

Ora, Sócrates funda a ética em bases puramente racionais, não existindo uma fonte externa à própria razão capaz de estabelecer o que é o justo ou o injusto, o certo ou o errado. Nas palavras de Sócrates, a ética nos diz “como devemos viver”. Se o que eu disse à respeito da filosofia é certo, o mesmo se aplica à ética. Se a filosofia é um exercício puramente racional, por conseguinte, a ética também é.

Como disse o filósofo americano James Rachels, a filosofia “como qualquer outra investigação humana responsável é, do princípio ao fim, um exercício da razão. As ideias que devem prevalecer são aquelas que tiverem as melhores razões do seu lado”.4

Não discutirei aqui as diversas teorias éticas desenvolvidas pelos filósofos, contudo, direi que para que um juízo tenha valor ético, ou, para que determinada teoria ética constitua-se de maneira consistente, “primeiro: os juízos morais tem de se apoiar em boas razões; segundo, a moral implica a consideração imparcial dos interesses de cada indivíduo”.5

Ora, o que eu disse pode nos levar a duas consequências interessantes. A primeira é a de que a ética independe da religião e a segunda é a de que nossas inclinações afetivas não constituem base alguma para a moralidade. As críticas à teoria ética religiosa (a chamada teoria dos mandamentos divinos) e as críticas à teoria ética que diz que temos o sentimento de que as ações são boas ou ruins (a chamada teoria do subjetivismo ético), não serão feitas aqui, e isso deixarei para um próximo texto. Contudo, afirmo que em bases racionais essas duas teorias apresentam sérios problemas, e nossa única opção frente a elas é abandoná-las como teorias defeituosas e insuficientes.

Continuando com o texto, podemos concluir então que a ética é uma disciplina filosófica puramente racional, e para que juízos éticos sejam válidos, eles devem apoiar-se em boas razões. Dizer que os juízos éticos devem apoiar-se em boas razões não significa nada mais que dizer que esses juízos e suas justificativas estão disponíveis para a análise de qualquer sujeito racional, ou seja, as razões se apresentam a qualquer ser-humano e podem ser compreendidas por qualquer ser-humano que saiba pensar consequentemente. Enquanto que uma ética baseada na religião se apóia, em última instância, na fé, ou seja, suas justificativas estão condicionadas a serem aceitas apenas por quem compartilha da fé pressuposta, ao mesmo tempo, uma ética baseada em sentimentos subjetivos só será justificável para as pessoas que possuem as mesmas inclinações subjetivas. Ou seja, o único critério aceitável de uma ética objetiva, não pode ser senão fundado na própria objetividade da razão.

Para os propósitos desse texto, acredito que o que foi dito acima seja suficiente para compreender as reflexões posteriores, e, apesar da conceitualização feita acima poder ser criticada por muitos, não vejo como essas críticas poderão ser bem fundamentadas em critérios que se sustentem firmemente.

Se a ética não for um exercício da razão, então não há possibilidade de ética.

Homossexuais e seus carrascos

Bom, como foi dito, me movimentarei sobre as bases estabelecidas acima. Tentarei ser o mais consequente possível.

Como todos devem saber, as críticas negativas feitas ao comportamento homossexual são em sua esmagadora maioria de caráter religioso/moralista, e isso é tanto consciente como inconsciente. Digo isso pois temos tanto os religiosos convictos de que Deus estabeleceu a “abominação” da prática homossexual já no velho testamento quanto os cidadãos que se auto-intitulam não religiosos mas que também desaprovam essa mesma prática, e tentam justificar de muitas formas, sendo a mais comum dizer que “não parece natural”. Ambas possuem raízes na religião judaico-cristã. A primeira fica explicitamente clara, sendo apenas necessário consultar o Levítico 18:22. A segunda alegação, de que é contrária a natureza, pressupõe que a natureza foi feita inteligentemente por um criador que colocou cada coisa no seu lugar, e que cada coisa deve permanecer nesse mesmo lugar. Adão e Eva foram criados e não Adão e Ivo. Não é essa piadinha que costumamos ouvir? Está aí, pois, a origem religiosa da homofobia.

Os críticos dos homossexuais baseiam seus argumentos no fato de que os homossexuais possuem algum tipo de desvio moral que corrompe e macula a sociedade. Temos o exemplo vergonhoso do deputado fascista e racista (eleito pelo povo) Jair Bolsonaro, que além de defender o regime militar e suas atrocidades, milita ferozmente contra a causa gay. Para esse senhor, homossexuais são estupradores, pedófilos e exibicionistas que desvirtuam os verdadeiros valores da sociedade.

Ora, suas criticas poderiam ser justificáveis, mas não são. Poderiam, digo, se encontrasse base factual para o que afirma, mas não existe tal base. Suas razões são ilusórias, marcadas por um discurso ideológico-religioso irracional.

Analisemos, pois, os argumentos dos críticos do comportamento homossexual, que no fundo, são todos os mesmos e velhos sofismas de sempre.

Primeiramente, devemos sempre ter em vista que homossexualismo não é escolha e sim descoberta.
“O fato mais pertinente é que os homossexuais seguem o único tipo de vida que lhes dá oportunidade de ser felizes. O sexo é um impulso particularmente forte – não é difícil saber porquê – e poucas pessoas são capazes de conceber uma vida feliz sem a satisfação das suas necessidades sexuais. Não devemos, no entanto, centrar-nos apenas no sexo. Mais de um escritor gay afirmou já que a homossexualidade não se centra em saber com quem se tem sexo; mas sim em saber quem se ama. Uma vida boa, para gays e lésbicas, assim como para qualquer outra pessoa, pode significar viver com alguém que se ama, com tudo o que isso envolve. Além disso, as pessoas não escolhem a sua orientação sexual; tanto homossexuais como heterossexuais descobrem ser o que são sem terem tido qualquer voto na matéria”.6

O que Rachels escreveu acima já deveria ser o suficiente para que a discussão fosse encerrada, contudo, é necessário examinar os argumentos que sempre ferem a índole dos homossexuais.

Não existem provas, base factual, evidência, que possam provar que homossexuais são imorais, que possuem uma índole perversa e desvirtuada que ameaçam a estrutura moral da sociedade. Como disse Rachels, “Além da natureza de suas relações sexuais, não há qualquer diferença, entre homossexuais e heterossexuais de índole moral ou na participação da sociedade. A ideia de que os homossexuais são de alguma forma perniciosos, revela-se um mito muito semelhante à ideia de que os negros são preguiçosos ou os judeus avarentos”.7

Como não há fatos que provem a perniciosidade moral dos homossexuais, todos os ataques acabam caindo sempre no velho chavão “é contrário à natureza”.

Ora, o “contrário à natureza” é algo extremamente vago, e se perguntarmos às pessoas que defendem tal princípio, não conseguirão sustentar de maneira clara o que tal coisa significa. A partir de Rachels, clarificarei pelo menos três formas de compreender essa afirmação.

A primeira reduz o “contrário à natureza” a uma noção estatística. A segunda reduz-se à ideia de finalidade de uma coisa, e a terceira pode ser reduzida à um termo de avaliação particular.

Comecemos, pois, pela primeira.

Uma noção estatística diz respeito a números, ou seja, o “contrário à natureza” seria tudo aquilo que se difere do que a maioria das pessoas são. Ora, se isso fosse moralmente errado, todas as diferenças estatísticas, pela lógica, deveriam ser condenadas. Peguemos o caso dos canhotos, ou dos ruivos, por exemplo. Estatisticamente, são inferiores à maioria numérica, porém, não há motivo algum para afirmarmos que isso é contrário à natureza, ou pior, que isso deve ser considerado uma coisa má. “Pelo contrário, as qualidades raras são frequentemente boas”, afirma Rachels. Essa primeira noção, por conseguinte, deve ser abandonada, pela falta de justificativa que ela possui.

A segunda noção de “contrário à natureza” diz respeito à finalidade de uma coisa. Tomemos o exemplo de nosso próprio corpo. Nossos órgãos, segundo os que defendem tal argumento, foram feitos para determinadas finalidades (percebam que só o fato de dizer que “foram feitos” implica um criador, uma consciência, o que já apresenta um problema), como nosso olho que foi feito para enxergar, ou nossas pernas que foram feitas para andar. Ou seja, nessa mesma linha, nossos órgãos genitais foram feitos para a procriação. Contudo, quem está disposto a ser coerente consigo mesmo, seguindo esse pensamento, deve abandonar todas as outras atitudes que implicam um uso “contrário à natureza” do próprio corpo. A masturbação seria condenada, assim como utilizar os olhos para flertar com alguém. Utilizar os dedos para acompanhar uma música ou fazer um sinal com as mãos seriam, ambos, antinaturais. “Portanto, a ideia de que é errado usas as coisas para outras finalidades que não são as “naturais” não pode ser defendida convenientemente, logo essa versão do argumento falha”.8

E por último, “contrário à natureza” como termo de avaliação pessoal, talvez seja o mais comum e o mais pernicioso, isso porque esconde um preconceito velado que insiste em ser negado por quem o possui. Isso pode significar algo do tipo: “contrário àquilo que uma pessoa deveria ser”. Essa posição é normativa, e implica que quem a sustenta, já sabe o que alguém deveria ser. Mas isso é impossível. A única possibilidade é um dever-ser pessoal, ou seja, deve ser aquilo que eu achar que deve ser. E mais uma vez, Rachels fulmina: “Mas se é isso que ‘contrário à natureza’ significa, então, dizer que algo é errado porque é contrário à natureza seria uma afirmação frívola. Seria como dizer que isso ou aquilo é errado porque é errado. Este tipo de observação não fornece, naturalmente, qualquer razão para condenar coisa alguma”.9

Concluindo, se não pudermos encontrar uma explicação mais elaborada sobre o que significa esse “contrário à natureza” (e tal explicação não existe), essa linha de raciocínio deve ser abandonada por seres-humanos racionais e éticos, pois não há uma única razão para sustentá-lo. O único motivo para tal pensamento é a ignorância. E condenar pessoas por viverem segundo a única forma que possuem para serem felizes, é a ação mais perversa que alguém pode cometer enquanto homem. Como disse Drummond, “somos humanos, isto é, achamos que somos”. E é nessas horas que percebemos exatamente isso.

Para a finalidade inicial de tais problemas, esse texto é suficiente. O próximo artigo, sobre esse mesmo tema, falará sobre o fato de se homossexuais atacam os valores da família e se a igreja realmente é tão condenatória em relação aos homossexuais.

1A história tradicional da filosofia atribui a Tales de Mileto o início das investigações filosóficas, contudo, o que Tales e os outros sábios gregos chamados de “físicos” faziam era radicalmente diferente do que Parmênides fez. Não entra no mérito desse texto discutir quem verdadeiramente criou a filosofia, porém, atribuo a Parmênides e não a Tales a “invenção” da prática filosófica, com a criação da ontologia. A título de curiosidade, convencionou-se dizer que Tales é o primeiro filósofo apenas porque Aristóteles, o grande filósofo grego e talvez o maior filósofo de todos os tempos, disse isso a respeito de Tales. A afirmação de Aristóteles bastou para que Tales ficasse na história do pensamento humano como sendo o primeiro filósofo.

2PARMÊNIDES. Os pré-socráticos. Tradução de J. C. De Souza. Ed. Abril: São Paulo, 1973. p. 147, fr. 1.

3KIRK, G.S., RAVEN, J. E, SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2008. p. 251.

4RACHELS, J. Problemas da filosofia. Tradução de Pedro Galvão. Gradiva: Lisboa, 2009. p.12.

5RACHELS, J. Elementos de filosofia moral. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves. Gradiva: Lisboa, 2004. p. 27.

6Idem.p. 71-2.

7Idem. p. 72.

8Idem. p.73.

9Id. Ibidem.

O Elogio do Sofrimento

O elogio do sofrimento

 Por Diego Azizi

Quantos de nós, algum dia, já não se encontrou dentro de uma série de situações-limite em que nossa alma e corpo decidiram apenas desistir de operar? E quando isso acontece, quantos de nós, algum dia, teve a maior das pressas para superar essas situações?

O que questiono aqui é: porque a pressa? Será a tristeza uma face da vida tão anti-natural e demoníaca que deve ser expurgada de nosso ser antes que nos afete por completo? Tristeza não é vida também?

Esse pequeno ensaio, indo na contra-mão das pessoas sensatas e fortes, pretende elogiar a tristeza, o sofrimento, o pensamento negativo, a fraqueza de alguns mortais que aprofundam-se nesse mundo desconhecido, nessa face deprimente de toda a vida. De toda a vida…..

Como disse sabiamente Cioran, não seria mais fecundo abandonarmo-nos à fluidez interior, sem nenhum afã de objetivação, limitando-nos a gozar de todas as nossas agitações íntimas?”

O mundo diz que não. Devemos externalizar a máscara, o véu, e ninguém pode perceber que nossas agitações íntimas mais verdadeiras estão a mostra. A tristeza é a face do mal.

Discordo do jargão budista (aliás muito mal compreendido) de que toda a vida é sofrimento, mas concordo que todo sofrimento é vida também. Quem não sofre não vive, e quem esconde o sofrimento, morre sempre mais que os outros, morre de morte. Se distancia de si, se engana por vontade de ser enganado. É, deliberadamente, anti-humano. É um idiota…..

Cioran possui uma expressão fantástica, que utilizo aqui ao meu bel prazer: morrer de viver.

Quem sofre e agarra-se também ao sofrimento quando ele se apresenta, com toda a intensidade que ele pode ter, assim como se agarraria aos “bons” sentimentos, morre de vida, pois dela experimenta de tudo um pouco….morre vivendo e vivendo morre mais um pouco. A vida é poética em seu absurdo desespero.

Sempre é perigoso refrear uma energia explosiva, pois pode chegar o momento em que deixa de possuir a força para dominá-la”, foi o que disse o filósofo.

São fracos, então, aqueles que frente o sofrimento, aproveitam-no, desfrutam-no e até mesmo, gozam-no?

Sofremos por tantos motivos e quanto mais valioso e mais essencial for o motivo de nosso sofrimento, maior ele será e também muito mais honesto. Não sofremos por trivialidades, por banalidades. Isso não nos diz nada, não nos ensina nada. Trivialidades são mudas para os ouvidos de quem sofre plenamente.

E de todos os sofrimentos existentes em nosso ser, o amor é o mais destrutivo mas também o mais delicioso de todos eles. Quando encontramos o amor de nossa vida, sentimos como se o céu fosse colocado sob nossos pés, como se o mundo fosse o melhor dos mundos possíveis. E amamos, então nos agarramos com a maior intensidade possível às coisas boas, que nos fazem felizes, que nos fazem completos. Por ironia do destino, por erros cometidos, por ignorância ou qualquer outro motivo, tudo acaba. Aquela vida perfeita se estilhaça no chão, como cacos de nossa alma que são impossíveis de colar de novo. Ora, obviamente, o sofrimento será proporcional à alegria adquirida anteriormente. Mas se nos agarramos àquela alegria com toda a força de nosso ser, porque não agarraríamos o sofrimento derivado disso tudo? Por acaso devemos ser imunes a isso, devemos nos abster de sofrer assim? Não sofrer significa admitir que o que terminou não significou absolutamente nada. Pois o que foi essencial, pleno, significativo é o que faz sofrer. E quanto maior o sofrimento, maior o amor. A morte de um ente querido, por exemplo, não se compara à perda do amor de sua vida. Todos estamos, de uma certa forma, convencidos da inevitabilidade da morte. Morreremos e isso é fato, e quando alguém morre, ficamos, e temos ainda a nossa vida para desfrutar. Quando o amor de nossa vida se vai, quem morre somos nós. A diferença é grande. Situação pior, só quando o amor de nossa vida é quem morre. Aí morrem os dois.

Todo sofrimento é possível, mas o de amor é necessário. Necessário porque não é possível, depois de encontrar o amor de sua vida, não sofrer ao perdê-lo. E necessária é também sua expressão.

Porque, então, a necessidade de expressar aquilo que se sente? E porque essa expressão é de um lirismo fundamental, belo e também deprimente? Como aponta Cioran, “o lirismo representa uma força de dispersão da subjetividade, pois indica no indivíduo uma efervescência incoercível que aspira sem cessar a expressão. Essa necessidade de exteriorização é tanto mais urgente quanto mais interior, profundo e concentrado é o lirismo. Porque o homem se torna lírico durante o sofrimento e o amor? Porque esses dois estados, a pesar de serem diferentes por sua natureza e sua orientação, surgem das profundezas do ser, do centro substancial da subjetividade, em certo sentido. Nos tornamos líricos quando a vida em nosso interior palpita com um ritmo essencial”.

Só não concordo em uma coisa com Cioran: amor e sofrimento não são de naturezas diferentes, e sim derivam de apenas uma e mesma natureza. Por isso tanto no amor quanto no sofrimento, nos tornamos líricos e nos expressamos de tal forma. O que muda, posso dizer, é a polaridade das expressões.

Montaigne condena a tristeza. Como os estóicos, através do raciocínio, alivia todo sofrimento. O sofrimento não é digno. A tristeza é “sempre nociva, sempre insensata, e também covarde e desprezível: os estóicos a proíbem aos sábios”, diz o filósofo.

Mas Montaigne também sofreu. E não importa o que ele diga, sofreu. Quando perdeu, não o amor de sua vida mas seu grande amigo (alguns dizem que tinha mais coisa aí, mas me abstenho de opiniões desse tipo) La Boètie, sofreu inimaginavelmente. Montaigne falava de sua amizade de maneira tão lirica, que obviamente a falta que seu grande amigo lhe fazia, o fez sofrer muito. “…e assim se preparou essa amizade que nos uniu e durou quanto Deus o permitiu, tão inteira e completa que por certo não se encontrará igual entre os homens de nosso tempo. Tantas circunstâncias se fazem necessárias para que esse sentimento se edifique, que já é muito vê-lo uma vez a cada três séculos”. E uma frase chave dos Ensaios me permite ver seu sofrimento sendo expresso, liricamente, como todo sofrimento por amor (e esse amor não definirei). “Já me acostumara tão bem a ser sempre dois que me parece não ser mais senão meio: ‘como uma morte prematura roubou-me a melhor parte de minha alma, que fazer com a outra? Um só e mesmo dia causou a perda de ambos’”.

Não é desumano, nem covarde, e muito menos irritante sofrer com todas as suas forças, expressar a tristeza com a maior intensidade possível, pois as “experiências subjetivas mais profundas são, assim mesmo, as mais universais, pela simples razão de que alcançam o fundo original da vida”.

Quando Cioran diz que todos os homens são infelizes só que a maioria não sabe, não entendo com isso o fato de que todos os homens são apenas infelizes, mas que a infelicidade está aí, e está para aí ser sentida.

Sofrimento nos lembra que estamos vivos, que amamos, que nos preocupamos, que nos elevamos acima de qualquer coisa, acima de nós mesmos.

Covardia é condenar quem sofre, é se chatear com a tristeza mas adorar a felicidade. Covardia é se esquivar da vida.

Covardia é não saber sofrer…….

Eis, portanto, meu elogio ao sofrimento, parte essencial da vida, da alma. Mundo inexplorado por covardes que, duvidando de suas próprias forças, acabam perdendo a si mesmos enquanto metade da vida se vai sem ser ao menos compreendida……

(Citações retiradas do Livro de Cioran, Nos cumes do desespero, e de Montaigne, Ensaios)

Publicado em: às junho 14, 2011 em 2:00 am  Comentários (13)  
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Ensaio sobre a violência nos games e a moral

Por Diego dos Anjos Azizi

Graduado em filosofia pela PUC-SP

Introdução

A polêmica em torno da violência exposta em jogos de videogame talvez exista desde o início da cultura dos jogos eletrônicos. É evidente que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia (que é ciência aplicada) e seus permanentes progressos trazem à luz do pensamento filosófico, e mais precisamente na área da ética, problemas que devem ser refletidos de maneira rigorosa, radical e acima de tudo, de maneira intelectualmente honesta. Nos problemas não só teóricos da ética, mas também e principalmente nos problemas práticos, nossas opiniões vulgares, pouco refletidas e nossas inclinações devem ser suspensas até que os pressupostos básicos dos problemas sejam suficientemente esclarecidos e desenvolvidos de forma racional e consequente. Todos querem “achar” algo sobre qualquer assunto, porém, o que o vulgo, o senso-comum, não está disposto a fazer é analisar os problemas e as diversas respostas a esses problemas, para avaliá-los à luz da razão se essas respostas não possuem falhas que a tornam, consequentemente, viciosas.

Como dito acima, a polêmica em torno dos jogos eletrônicos violentos existe desde que esses tipos de jogos vieram ao mercado pela primeira vez, possivelmente, com o game Death Race, para Atari na década de 70 e cujo objetivo era atropelar tudo o que aparecia pela frente, o que no Atari não passavam de polígonos simples que apareciam na tela, e que vagamente representavam pessoas.

Os casos (que não são tão frequentes como os críticos gostam de afirmar) de supostos gamers que agiram de forma brutal e violenta por estarem inspirados por games eletrônicos, desde adolescentes suicidas até homicidas, incendiários, etc…, podem ser explicados de outras maneiras, muito mais razoáveis e plausíveis do que simplesmente acusar os games violentos de serem a ignição para esse tipo de atitude.

Há algumas décadas atrás os games já eram extremamente criticados por associações de pais, de religiosos, de defensores da família e dos bons costumes, porém, os ataques aos games continuam aumentando exponencialmente, e no século XXI, os videogames estão ganhando um estatuto demoníaco de perversores dos jovens e disseminadores de imoralidades.

Ora, se nos limitarmos apenas ao Brasil, veremos que, desde o incidente com o estudante Mateus da Costa Meira, que metralhou uma sala de cinema cheia no shopping Morumbi em 1999, os games têm sido atacados como os grandes responsáveis por tais atitudes e para piorar a situação, o caso ocorrido com Wellington Menezes de Oliveira, que atirou e matou diversos alunos de uma escola em Realengo no Rio de Janeiro em 2011 foi considerado, em recente reportagem da rede Record, como sendo motivado pelos games violentos que o jovem costumava jogar. Esses dois casos serão analisados de maneira aprofundada durante o desenvolvimento do texto.

A tese que defenderei nesse pequeno ensaio (ao contrário do que os pseudo-críticos dos games afirmam)1 é a de que os games não incitam de maneira nenhuma a violência, e o único papel que podemos atribuir aos games no que tange à influência violenta nos jogadores é um papel secundário, ou seja, como qualquer outra área da cultura. Nas linhas que se seguem, farei uma tentativa de fundamentar minha tese e mostrar que as justificativas dos “críticos” dos games são injustificáveis, em outras palavras, irracionais.

Primeiro passo: a natureza da ética

Para começar nossa discussão, que faz parte do campo da ética, que por sua vez é uma disciplina (e talvez a mais importante) da filosofia, é importante fazer algumas distinções e esclarecer acima de tudo o que é a ética. Tentarei não fazer uma exposição exaustiva desse conceito, e exporei apenas o necessário para se ter uma boa clarificação do que é realmente a verdadeira natureza da ética.

Primeiramente direi algumas breves palavras sobre a filosofia para posteriormente estabelecer dentro da prática filosófica as investigações de natureza ética.

A filosofia, desde seu estabelecimento no século VI a.C. por Parmênides de Eléia2, sempre foi um exercício puramente racional. Parmênides desenvolveu uma definição do Ser sobre bases puramente intelectuais e lógicas (tanto é que foi ele quem primeiro estabeleceu o princípio de identidade lógica) demonstrando que a contradição é irracional e o irracional é insuportável. O filósofo eleático distinguiu os dois caminhos que os seres humanos podem seguir em qualquer investigação racional: o caminho consequente que conduz à verdade ou o caminho das simples opiniões que conduzem ao erro. “…é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade bem redonda, e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira (ou seja, certeza)”.3 Nas palavras dos grandes especialistas na filosofia grega antiga, “Parmênides afirma que em qualquer investigação há duas, e apenas duas, possibilidades logicamente coerentes, que se excluem mutuamente – a de que o objeto de investigação existe ou a de que não existe. Em bases epistemológicas, ele rejeita a segunda alternativa como ininteligível. Em seguida, ataca o comum dos mortais (ou seja, o senso comum inconsequente, a doxa, a opinião) por demonstrarem com as suas crenças que nunca escolhem entre as duas vias ‘é’ e ‘não é’, mas que seguem ambas sem discriminação”.4

Bem, tudo isso foi dito para esclarecer como, desde Parmênides, a filosofia se constituiu como uma pratica racional e consequente sobre problemas bem determinados. Desde essa época a filosofia já era concebida como “desafio ao senso-comum”.

Ora, a preocupação com questões éticas, e o estabelecimento da ética como investigação filosófica, contudo, surgiu com um personagem muito conhecido da humanidade, Sócrates.

Antes de Sócrates, as preocupações dos “filósofos” concentravam-se, sobretudo, em questões relativas ao cosmos e a physis, em outras palavras, concentravam-se na tentativa de compreender a configuração do real, do mundo, e não do homem e suas ações.

Sócrates, no início de suas investigações filosóficas, concentrou-se também (como os filósofos posteriores) em buscar respostas a respeito do ser das coisas a partir de elementos naturais, porém, abandonou bem cedo o estudo da natureza (physis). No diálogo “Fédon”, Sócrates dirá que se decepcionou com os estudos da physis, pois as respostas que encontrou davam conta mecanicamente, por exemplo, de suas ações enquanto cidadão. Ou seja, os físicos explicariam o fato de Sócrates estar preso e condenado à morte porque seu corpo é constituído por ossos e músculos e que esses músculos se contraem dando movimento ao corpo e que, por conseguinte, esse movimento teria levado Sócrates para a prisão. Não contente com esse tipo de resposta mecanicista, Sócrates se voltará para os estudos dos homens nas cidades e buscará as causas que motivam os homens a agir. Esse abandono da physis também se dá pelo fato de que a natureza não exerce o logos, os animais, os campos, as árvores não consentiam em ensinar-lhe alguma coisa. Sócrates demonstrava que o homem se define por ser um animal racional, sua natureza era racional (como posteriormente dirá Aristóteles), e apenas o homem pode exercer o diálogo (dia– através, logos– discurso, razão), “o através do discurso/razão”, pois naturalmente desenvolvia a linguagem.

Ora, Sócrates funda a ética em bases puramente racionais, não existindo uma fonte externa à própria razão capaz de estabelecer o que é o justo ou o injusto, o certo ou o errado. Nas palavras de Sócrates a ética nos diz “como devemos viver”. Se o que eu disse à respeito da filosofia é certo, o mesmo se aplica à ética. Se a filosofia é um exercício puramente racional, por conseguinte, a ética também é.

Como disse o filósofo americano James Rachels, a filosofia “como qualquer outra investigação humana responsável é, do princípio ao fim, um exercício da razão. As ideias que devem prevalecer são aquelas que tiverem as melhores razões do seu lado”.5

Não discutirei aqui as diversas teorias éticas desenvolvidas pelos filósofos, contudo, direi que para que um juízo tenha valor ético, ou, para que determinada teoria ética constitua-se de maneira consistente, “primeiro: os juízos morais tem de se apoiar em boas razões; segundo, a moral implica a consideração imparcial dos interesses de cada indivíduo”.6

Ora, o que eu disse pode nos levar a duas consequências interessantes. A primeira é a de que a ética independe da religião e a segunda é a de que nossas inclinações afetivas não constituem base alguma para a moralidade. As críticas à teoria ética religiosa (a chamada teoria dos mandamentos divinos) e as críticas à teoria ética que diz que temos o sentimento de que as ações são boas ou ruins (a chamada teoria do subjetivismo ético), não serão feitas aqui, e isso deixarei para um próximo texto. Contudo, afirmo que em bases racionais essas duas teorias apresentam sérios problemas, e nossa única opção frente a elas é abandoná-las como teorias defeituosas e insuficientes.

Continuando com o texto, podemos concluir então que a ética é uma disciplina filosófica puramente racional, e para que juízos éticos sejam válidos, eles devem apoiar-se em boas razões. Dizer que os juízos éticos devem apoiar-se em boas razões não significa nada mais que dizer que esses juízos e suas justificativas estão disponíveis para a análise de qualquer sujeito racional, ou seja, as razões se apresentam a qualquer ser-humano e podem ser compreendidas por qualquer ser-humano que saiba pensar consequentemente. Enquanto que uma ética baseada na religião se apóia, em última instância, na fé, ou seja, suas justificativas estão condicionadas a serem aceitas apenas por quem compartilha da fé pressuposta, ao mesmo tempo, uma ética baseada em sentimentos subjetivos só será justificável para as pessoas que possuem as mesmas inclinações subjetivas. Ou seja, o único critério aceitável de uma ética objetiva, não pode ser senão fundado na própria objetividade da razão.

Para os propósitos desse texto, acredito que o que foi dito acima seja suficiente para compreender as reflexões posteriores, e, apesar da conceitualização feita acima poder ser criticada por muitos, não vejo como essas críticas poderão ser bem fundamentadas em critérios que se sustentem firmemente. Aos críticos de plantão, fiquem livres para objetar-me, porém, de maneira racional e honesta.

Segundo Passo: São justificáveis as críticas feitas aos games?

Virou um lugar comum, até mesmo trivial, acusar os games de modificarem o caráter e o comportamento de seus usuários. Ora, primeiro de tudo, qualquer instância da cultura possui potencialmente o poder de modificar o caráter e o comportamento das pessoas. Não é justificável atribuir apenas aos games esse capacidade. Se o leitor for bem instruído, lembrará que no século XVIII, quando Goethe publicou seu maravilhoso romance “Os sofrimentos do jovem Werther”, uma onda de suicídios ocorreu na Europa, pois os jovens que liam esse romance identificavam-se tanto com as circunstâncias em que o personagem principal encontrava-se, com seus sofrimentos e seu fim trágico que acaba em suicídio por não ter seu amor correspondido, que agiram como o próprio Werther. Essa onda de suicídios, contudo, não impediu que o livro de Goethe ficasse na história da cultura humana como o ponto alto do romantismo alemão, como uma obra-prima da literatura mundial. O livro de Goethe exprimia de maneira profunda e genial não só as circunstâncias reais da sociedade européia daquela época como apresentava uma crítica dessa mesma sociedade.

Os games sempre citados nas reportagens como sendo os piores, os mais violentos, os que deveriam ser proibidos (na última reportagem da Record sobre o tema isso se repetiu) são os que mais apresentam, potencialmente, uma crítica da sociedade contemporânea e uma narrativa profunda, com histórias cheias de reviravoltas, tramas complexas e muito drama. Para citar alguns desses jogos, não podemos deixar de lado a série Grand Theft Auto, a série Call of Duty e a série Counter-Strike. No primeiro, a história se passa com um personagem (diferente nos diversos jogos da franquia) em que dadas determinadas circunstâncias em sua vida, acaba entrando no crime organizado. Nos últimos dois, os conflitos entre a lei e o crime são o foco principal, seja entre policiais e bandidos ou exércitos e facções terroristas.

Pode parecer estranho a comparação entre Goethe e os games, contudo, a analogia pode funcionar de determinada maneira. Não considero a genialidade de um Goethe comparável aos roteiros desenvolvidos por softhouses*, porém, a intenção é mostrar que a cultura de um modo geral não só pode, como de fato influencia a maneira como nosso caráter é construído. Essa mesma analogia funciona com filmes, novelas, seriados, desenhos, etc…

Concluindo essa primeira linha de raciocínio, afirmo que se os críticos querem justificar a influência dos games no comportamento das pessoas, devem estar também dispostos a justificar que as outras áreas da cultura exercem, potencialmente, a mesma influência. Seria uma incoerência lógica afirmar que apenas os games, dentre os diversos ramos da cultura, possuem participação na vida psíquica e comportamental das pessoas.

Contudo, essa minha linha de raciocínio pode prestar-se a algumas críticas. A mais importante que consigo, a princípio, enxergar em meu raciocínio é a de que diferente das outras instâncias da cultura, em que o sujeito é passivo (por exemplo, nos livros, nos filmes, etc..), não podendo influenciar de modo algum o decorrer da narrativa, do roteiro, da história, nos games o sujeito é ativo, é ele quem está no controle das ações nos games. De fato isso é verdade. Podemos escolher entre matar ou não matar, entre realizar missões ou desobedecê-las, podemos escolher o lado do bem ou o lado do mal, porém, há também uma predeterminação, como nos livros. Se em algum game, não cumprirmos determinadas missões, o game acaba, cristaliza-se, ou é perdido. Para que a trama continue, é necessário fazer o que os programadores pensaram ao criar o game. Mas, analisemos então de outra maneira os games, a fim de ver se as ações do sujeito que controla o personagem podem, do ponto de vista ético, ser boas ou más.

A ética foi descrita por mim como uma investigação intelectual fundada na razão, porém, faltou adicionar um detalhe importante e que farei agora. Poderíamos dizer que a ética diz respeito à vida do homem, ou como Sócrates disse, “de como deveremos viver” a vida. Em outras palavras, isso quer dizer como o homem deve agir no convívio com outros homens, o que deve fazer? Ou nas palavras de Kant, não se trata do que devemos fazer e sim porquê devemos fazer? Em ambos os casos o dever está em jogo, e em última instância, o dever de agir de determinada forma em relação ao convívio com outros homens.

Essa conclusão ainda omite uma parte relevante das preocupações éticas, pois, segundo a definição acima, a ética diz respeito apenas às ações que se dirigem aos seres humanos. Os animais, por exemplo, estariam fora do conceito de ética que conceitualizei acima. Ora, os filósofos clássicos não costumavam considerar as vidas dos animais, e isso foi uma tendência, preponderantemente, contemporânea.

Ampliarei um pouco o que disse acima, e afirmarei que as ações éticas dirigem-se à qualquer ser senciente, e o fato de ser racional ou possuir a capacidade de falar, não é um bom critério para restringir a ética aos humanos. Me valerei de um princípio encontrado na doutrina utilitarista da ética, formulada principalmente por Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Como Bentham sustentou, “a questão não é saber se podem usar a razão ou se podem falar mas antes se podem sofrer”7. O utilitarismo pode conter muitas falhas, mas seu grande mérito foi considerar animais não-humanos nos juízos éticos.

Ora, continuando, quando matamos idosos, crianças, terroristas, animais, civis inocentes em um game, estamos cometendo algo digno de repulsa? Serão essas ações imorais? Evidentemente que não, pois se o que assentamos acima é correto, não estamos matando nem ferindo ninguém, em outras palavras, não estamos infligindo sofrimento em seres sencientes. Não são pessoas que habitam o mundo digital dos games, são construções feitas através de programação e modelagem gráfica, que simulam, imitam determinadas realidades sociais. Matar um personagem em um game não é matar uma pessoa, primeiro porque o conceito de pessoa supõe um sujeito que possua consciência de si próprio e de valores morais. Nos games apenas encontramos polígonos, píxels e dados de programação. Então, não importa do que seja o game, nunca poderemos julgar moralmente as ações feitas dentro do universo eletrônico. A menos que concedamos direitos a polígonos e píxels…

Para ensaiar um suposto benefício dos games, psicologicamente e sociologicamente, podemos pensar que, por exemplo, jogos de caça animal são muito mais moralmente aceitáveis do que o esporte real. Animais de verdade sofrem dor e infelicidade quando caçados nas matas reais pelo mundo afora. Se a prática de caça esportiva for reduzida apenas aos games, com o máximo realismo possível, que simule realmente as condições que os caçadores enfrentam, o esporte real poderá ser substituído pelo game. Games de caça são violentos, super violentos, mas são virtuais. Em última instância, não existem armas, caçadores e nem animais. Contudo, matar animais reais por prazer é desprezível.

Um segundo exemplo pode ser dado através das determinações físicas e sociais que enfrentamos na vida real. Somos regidos por determinismos físicos, como as leis causais da natureza, por legislações, por padrões culturais, além de sermos também regidos por impulsos naturais psicológicos e fisiológicos como a ansiedade, a raiva, a vontade, etc…

Poder fazer nos games o que não podemos, ou não devemos, fazer na vida real é a possibilidade de aliviar impulsos que, em determinados casos, podem nos consumir irracionalmente. Vídeo-games aliviam nossas tensões, nos acalmam e ainda, nos divertem.

Ora, as críticas feitas aos games, portanto, não são justificáveis, pois são tão vulgares e inconsequentes, que, ao invés de partirem da razão e do bom senso, partem de moralismos piegas fundamentados em doutrinas míticas pertencentes a uma época que não é a nossa.

Terceiro passo: Games motivam comportamentos desprezíveis?

Os críticos sempre sustentam que os games motivam objetivamente o comportamento das pessoas.

Portanto, pessoas que jogam games violentos, tornam-se violentas, assim como pessoas que jogam games infantis, tornam-se infantis. Pessoas que jogam, então, games de super-heróis, colocam uma fantasia e no final do dia saem combatendo o crime. Nunca vi, por exemplo, uma criança que jogasse os games do super Mário, querer entrar em bueiros na rua ou comer cogumelos alucinógenos…

A motivação dos games não pode ser objetiva, e se deduzirmos isso, necessariamente devemos admitir que todos os que jogam games violentos praticarão violência. Ora, meu exemplo pode valer como ilustração. Desde pequeno jogo videogame ferozmente, sou o que chamam de jogador hardcore. Tive praticamente todos os videogames lançados depois do Master-System, e meus pais, sempre que podiam, me davam os videogames mais avançados. Nunca pratiquei aquilo que jogava e tinha plena consciência, mesmo quando criança, de que aquele mundo não é o mundo real. Se, como disse acima, a influência fosse objetiva, eu necessariamente deveria ter praticado o que presenciava nos games. Se é objetivo, então é aplicável a todos, e se não é, então é subjetivo, ou seja, o problema não está nos games e sim no sujeito.

Como disse no começo desse texto, apenas admito uma influência secundária dos games na construção do caráter dos usuários.

Desde que nascemos, já estamos inseridos dentro de comunidades e instituições que determinam aquilo que seremos durante nossa vida. Cidades, escolas, famílias, igrejas, universidades, hospitais. E às vezes determinações genéticas podem nos afetar negativamente quando se trata de sociabilidade. Nesses casos, o acompanhamento das instituições expostas acima ainda é mais importante para o desenvolvimento do cidadão. Dito isso, avaliemos os dois casos colocados no início do texto.

O primeiro caso, de Mateus da Costa Meira que metralhou um cinema em 1999, foi exaustivamente analisado pela mídia. Descobriu-se que ele era um rapaz solitário, com desvios de personalidade, de classe média alta que não teve uma boa educação de seus pais (o que ocorre quase sempre nas famílias com um nível social elevado), porém, o que foi enfatizado foi o fato do jovem jogar bastante o game Duke Nukem 3D, que possui uma fase em que o jogador deve matar alienígenas dentro de um cinema. Ora, não é necessário ser filósofo para inferir quais circunstâncias levaram o jovem a fazer o que fez. Se os games tiveram alguma influência em Mateus, foi apenas no fato de que seus impulsos sociopatas, podem, ter tido a inspiração para o ato em alguma fase do game. Porém os motivos foram sociais, como criação desviada dos pais, problemas psiquiátricos sem acompanhamento, solidão, etc…

No caso de Wellington Menezes de Oliveira, que matou diversos alunos em um colégio, a mesma coisa ocorreu. Wellington era órfão, frequentou um colégio, no qual sofria agressões dos colegas, possuía problemas mentais explícitos além de ser um fanático religioso motivado por questões de pureza e salvação da alma, como escreveu em sua carta e disse em seu vídeo. Seu comportamento lembrava o de um terrorista muçulmano atacando os infiéis impuros em nome de sua fé cega. Contudo, principalmente a rede Record, disseminou o fato, através de uma reportagem desonesta e sensacionalista, de que Wellington tinha sido motivado pelos diversos games violentos no qual era viciado. Entrevistas com conhecidos do rapaz, manipuladas obviamente, mostram depoimentos dizendo que Wellington tina jogos violentos, muito violentos, que como afirmou o conhecido, nem ele possuía acesso. Ora, se observarmos a entrevista, o tal conhecido que disse tamanha bobagem, tinha como papel de parede uma imagem do game Mortal Kombat, um dos games mais violentos de todos os tempos. Como acreditar em testemunhas tão incoerentes? Isso sem falar nas opiniões “profissionais” de psicólogos que disseram negatividades sobre os games.

Ora, Wellington possuía problemas de sociabilidade, psiquiátricos, que deveriam ter sido acompanhados, tratados e observados. Não teve educação, formal ou informal, era um ignorante em matéria de religião e cultura, e não tinha ninguém que o direcionasse para valores éticos objetivos.

Provavelmente o levavam para igrejas, o doutrinavam e o fanatizaram ao ponto de, com a ajuda de seus problemas psiquiátricos, levaram ao ato brutal que cometeu. Onde entra os games nisso? É possível afirmar que o grande culpado foi o videogame? Ou a falta de cultura, educação e acompanhamento que o jovem não obteve durante sua vida? A conclusão pode ser atingida facilmente pelo leitor.

Lembremos da comparação feita acima com Goethe. Os jovens que suicidaram-se ao ler o livro, foram motivados pelo livro em si, ou já sofriam de angústias e melancolias profundas (falaríamos hoje em depressão)?

Uma última observação, e não menos importante, é saber que existem órgãos de classificação etária, para determinar qual a idade ideal para se jogar cada game. Isso é algo que os pais devem acompanhar também. Caso exista uma boa criação familiar, e os filhos tiverem um bom caráter construído, não há problemas em um garoto de treze anos jogar um game para maiores, mas isso deve ter o acompanhamento dos pais e são os pais que se responsabilizarão pelo controle das horas de jogatina, das horas de fazer as refeições, os deveres da escola, etc…

Se os pais possuem filhos pequenos, deixam-nos jogar games de adultos, e depois reclamam que o comportamento do filho mudou, a culpa é dos pais e não dos games. Se seus filhos tiverem nove anos, não tiverem uma boa educação, e jogarem games para maiores, cujo conteúdo ainda não pode ser compreendido pela imaturidade infantil, o problema é familiar. Se esse for o caso, então NÃO DEIXE SEU FILHO PEQUENO JOGAR GAMES ADULTOS, AFINAL, É O QUE ESTÁ ESCRITO NA CAIXA, NÃO?

A conclusão desse artigo deixarei para a avaliação do leitor, que, se for inteligente, chegará a mesma conclusão que a minha.

1Chamo de pseudo-críticos pois para ser um crítico da cultura, consequente e bem articulado, se faz necessário conhecer os pressupostos dos problemas dos quais se quer criticar. Isso não acontece com os partidários da criminalização dos games pois estes desconhecem em absoluto o mundo cultural dos games, e na maioria das vezes não passam de fanáticos ignorantes dominados por banalidades religiosas.

2A história tradicional da filosofia atribui a Tales de Mileto o início das investigações filosóficas, contudo, o que Tales e os outros sábios gregos chamados de “físicos” faziam era radicalmente diferente do que Parmênides fez. Não entra no mérito desse texto discutir quem verdadeiramente criou a filosofia, porém, atribuo a Parmênides e não a Tales a “invenção” da prática filosófica, com a criação da ontologia. A título de curiosidade, convencionou-se dizer que Tales é o primeiro filósofo apenas porque Aristóteles, o grande filósofo grego e talvez o maior filósofo de todos os tempos, disse isso a respeito de Tales. A afirmação de Aristóteles bastou para que Tales ficasse na história do pensamento humano como sendo o primeiro filósofo.

3PARMÊNIDES. Os pré-socráticos. Tradução de J. C. De Souza. Ed. Abril: São Paulo, 1973. p. 147, fr. 1.

4KIRK, G.S., RAVEN, J. E, SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2008. p. 251.

5RACHELS, J. Problemas da filosofia. Tradução de Pedro Galvão. Gradiva: Lisboa, 2009. p.12.

6RACHELS, J. Elementos de filosofia moral. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves. Gradiva: Lisboa, 2004. p. 27.

*Empresas que produzem os games.

7Citação de Bentham extraída de RACHELS, J. Elementos de filosofia moral. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves. Gradiva: Lisboa, 2004. p. 145.

Pensar, pensar

Junho 18, 2010 por Fundação José Saramago

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

Fonte: http://caderno.josesaramago.org/

Publicado em: às junho 19, 2010 em 3:06 am  Deixe um comentário  
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