PREFÁCIO – Os condenados da terra, de Franz Fanon

Jean-Paul Sartre

Não faz muito tempo a terra tinha dois bilhões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilhão e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado. Entre aqueles e estes, régulos vendidos, feudatários e uma falsa burguesia pré-fabricada serviam de intermediários. Às colônias a verdade se mostrava nua; as “metrópoles” queriam-na vestida: era preciso que o indígena as amasse. Como às mães, por assim dizer. A elite européia tentou engendrar um indigenato de elite; selecionava adolescentes, gravava-lhes na testa, com fero em brasa, os princípios da cultura ocidental, metia-lhes na boca mordaças sonoras, expressões bombásticas e pastosas que grudavam nos dentes; depois de breve estada na metrópole, recambiava-os, adulterados. Essas contrafacções vivas não tinham mais nada a dizer a seus irmãos; faziam eco; de Paris, de Londres, de Amsterdã lançávamos palavras: “Partenon! Fraternidade!”, e, num ponto qualquer da África, da Ásia, lábios se abriam: “… tenon!…nidade!” Era a idade de outro.

Isto acabou. As bocas passaram a abrir-se sozinhas; as vozes amarelas e negras falavam ainda do nosso humanismo, mas para censurar a nossa desumanidade. Escutávamos sem desagrado essas corteses manifestações de amargura. De início houve um espanto orgulhoso: Quê! Eles falam por eles mesmos! Vejam só que fizemos deles! Não duvidávamos que aceitassem o nosso ideal porquanto nos acusavam de não sermos fiéis a ele; por esta vez a Europa acreditou em sua missão: havia helenizado os asiáticos e criado esta espécie nova: os negros greco-latinos. Ajuntávamos, só para nós, astutos: deixemos que se esgoelem, isso os alivia; cão que ladra não morde.

Surgiu uma outra geração que alterou o problema. Seus escritores, seus poetas, com incrível paciência trataram de nos explicar que nossos valores não se ajustavam bem à verdade de sua vida, que não lhes era possível rejeita-los ou assimila-los inteiramente. Em suma, isso queria dizer: de nós fizestes monstros, vosso humanismo nos supõe universais e vossas práticas racistas nos particularizam. E nós os escutávamos despreocupados; os administradores coloniais não são pagos para ler Hegel, aliás lêem-no pouco, mas não precisam desse filósofo para saber que as consciências infelizes se emaranham nas próprias contradições. Nenhuma eficácia. Por conseguinte, perpetuemos-lhes a infelicidade, que dela não resultará coisa alguma. Se houvesse, diziam-nos os peritos, uma sombra de reivindicação em seus gemidos,  outra não seria que a de integração. Não se trata de outorga-la, é claro, isso arruinaria o sistema, que repousa, como se sabe, na superexploração. Mas bastaria acenar-lhes com essa patranha: viriam correndo. Quanto à possibilidade de revolta, estávamos tranqüilos. Que indígena consciente iriam massacrar os filhos da Europa com o fim único de se tornar europeu como eles? Numa palavra, estimulávamos essas melancolias e não achamos mau, uma vez, conceder o prêmio Goncourt a um negro. Isso ocorreu antes de 39. (mais…)

Publicado em: às novembro 10, 2011 em 11:01 pm  Deixe um comentário  
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Jean Paul Sartre – Grandes pensadores del siglo XX.

Publicado em: às novembro 6, 2011 em 12:34 am  Deixe um comentário  
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Entrevista a Sartre completa (6 de 6)

Publicado em: às outubro 28, 2011 em 1:28 pm  Deixe um comentário  
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Entrevista a Sartre completa (5 de 6)

Publicado em: às outubro 27, 2011 em 12:38 am  Deixe um comentário  
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Entrevista a Sartre completa (4 de 6)

Publicado em: às outubro 26, 2011 em 12:55 pm  Deixe um comentário  
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Entrevista a Sartre completa (3 de 6)

Publicado em: às outubro 25, 2011 em 12:38 am  Deixe um comentário  
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Entrevista a Sartre completa (2 de 6)

Publicado em: às outubro 24, 2011 em 12:25 am  Deixe um comentário  
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Entrevista a Sartre completa (1 de 6)

Publicado em: às outubro 23, 2011 em 1:39 am  Deixe um comentário  
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A problemática de “A transcendência do ego” de Sartre

Texto escrito pelo colaborador: Túlio Vinícius – graduando em filosofia pela PUC-SP

O problema que Jean-Paul Sartre aborda no artigo A transcendência do ego: esboço de uma descrição fenomenológica, publicado pela primeira vez em 1936 na revista “Recherches Philosophiques”, é um problema clássico da “filosofia transcendental”, já enfrentado por Immanuel Kant e Edmund Husserl. Contudo, através de suas mãos o problema ganha uma face fenomenológica, deixa o âmbito da “filosofia transcendental” – da doutrina que investiga as condições de possibilidade do conhecimento – e passa ao campo da investigação fenomenológica, tal como Sartre a compreende em seu artigo 1. O problema enfrentado por Kant e Husserl era o da passagem do ego da consciência transcendental para o ego empírico. Mas, para Sartre, trata-se de saber como e porque uma consciência que não tem originalmente nenhuma estrutura egológica, ou seja, é uma consciência impessoal, se dá um objeto tal como o ego para, em seguida, se projetar nele e se identificar como sendo ele. É com esta pergunta em mente que Sartre anunciará nas primeiras linhas de seu artigo o seu objetivo: “Nós queremos mostrar aqui que o Ego não está na consciência nem formal nem materialmente: ele está fora, no mundo; é um ser do mundo, tal como o Ego de outrem” 2.

Sartre inicia seu artigo se debruçando sobre a apercepção transcendental de Kant: “devemos concordar com Kant que o ‘eu penso deve poder acompanhar todas as nossas representações’” 3. Contudo, para Sartre os neo-kantianos tendem a pensar como sendo de fato o que é de direito, ou seja, eles tendem a pensar como fato o que Kant considerou apenas como possibilidade lógica, pois a crítica kantiana trata das condições de possibilidade do conhecimento, e uma destas condições é que o “eu” deva sempre poder acompanhar qualquer uma das nossas representações. Destarte, não se pode concluir da apercepção transcendental de Kant “que um ‘eu’ habita, de fato, todos os nossos estados de consciência e executa realmente a síntese suprema da nossa experiência” 4. Em outros termos, segundo Franklin Leopoldo e Silva, a “questão que

[Sartre] se coloca é a seguinte: esse operador supremo de sínteses cognitivas é um ser ou uma função? Para Kant, manifestadamente é uma função” 5.

Assim, se Sartre concede a Kant a questão de direito, resta, contudo, decidir a questão acerca da existência de fato de um ‘eu’ na consciência. Para esclarecer a constituição do ego, Sartre retorna ao pai da fenomenologia, Husserl, e diz ser este um problema existencial:

“Os problemas das relações do Eu com a consciência são, portanto, problemas existenciais. Husserl reencontra e apreende a consciência transcendental de Kant através da epoché [“redução fenomenológica”]. Mas esta consciência já não é um conjunto de condições lógicas, é um fato absoluto” 6

  (mais…)

Jean Paul Sartre – Documentário BBC

Em inglês e sem legenda

Ou aqui.

Publicado em: às julho 12, 2009 em 10:06 am  Deixe um comentário  
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