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O Homem perante à Natureza – Clique Aqui
Negar que a justiça seja natural ao homem, equivale negar que todo homem tem naturalmente o senso da virtude. Isso não enquanto uma idéia inata em seu espírito, mas quanto uma percepção prática no desenvolvimento dos relacionamentos humanos de que tanto uma quanto a outra, são necessárias e úteis para que uma sociedade goze de relativa paz! Logo, não há arbitrariedade na origem e estabelecimento das regras da justiça, antes, são elas um artifício que confere certo caráter prático àquela percepção originária do teor natural da utilidade e necessidade da justiça.
Todavia, é possível conjeturar que, se houvesse um homem que por uma percepção intuitiva direta da verdade divina, ou que recebesse dos arcanos celestes um conhecimento que transcenda o mero conhecimento da esfera humana, ele compreenderia as palavras supra, mas as teria em conta de uma retórica, muito bem estruturada, que não teria outra função, senão a de convencer-nos que a justiça deste mundo é tudo o que podemos vivenciar, e, que sua verdade é a única que podemos conhecer. Certamente, não descordaria que no estado “decaído” em que se encontra a humanidade, da qual ele não exclui nem a si mesmo, pela via do conhecimento racional ou da experiência esses limites estão postos e é impossível ultrapassá-los por nossa própria capacidade.
Aquele que sustenta o ponto de vista inicialmente descrito, não admite a separação do mundo em duas dimensões estanques, para ele perguntar se há outra justiça além daquela que podemos vivenciar em sociedade, ou se há uma verdade além, é já ir além daquilo que se pode provar, é pressupor a existência daquilo que na realidade se quer provar.
O místico pode julgar estreitos os limites que o cético lhe propõe, pois acostumado a reconhecer no cosmo uma hierarquia dos seres e das coisas, para ele é natural que haja uma hierarquia no reino da verdade, nas formas de se conhecer a verdade e de se vivenciar a justiça, e que se o seu opositor chegou até o nível em que possa conhecer alguma verdade do intelecto e possa vivenciar alguma justiça do corpo, poderá ele, não sem um dispositivo supranatural, conhecer a verdade do coração e vivenciar a justiça do espírito.
Um dos mais prementes problemas que afligem o homem é aquele atinente à sua identidade e seu lugar no mundo. No decorrer dos séculos as mentes mais ilustres debruçaram-se sobres estas questões. Todavia, inúmeras dificuldades se colocam no caminho daqueles que ousam com seriedade e rigor, insistir nestas reflexões!
Acostumamo-nos a pensar que essas questões são típicas de fases especificas de nossas vidas (adolescência e/ou terceira idade), mas, talvez mesmo que de modo inconsciente, basicamente todos (ou quase todos) os nossos movimentos na vida em sociedade têm como mote nossa necessidade intrínseca de auto-afirmação, de auto-identificação e compreensão de nossa posição no universo.
A construção do “eu” nas sociedades contemporâneas e as novas tentativas de pensar esse “eu” em relação ao “tu” e com relação ao “em torno”, são reflexos de quão voláteis e difusas são as imagens que fazemos do humano (portanto, de nós mesmos).Volatilidade e indistinção são algumas palavras que melhor se aplicam ao homem hodierno. Mas, se buscarmos saber o “por que” desta situação, não saberemos ao certo qual é a resposta.
Talvez, possamos seguir a pista deste problema na fragmentação do mundo ocorrida com o advento da Modernidade, e, a concomitante fragmentação do “Saber o homem”, em vários “saberes” distintos e algumas vezes antagônicos. Isso não significa que a questão do autoconhecimento e todas as demais que lhe são implicadas (qual a origem, natureza e destino do homem) não tivessem sido postas na Antigüidade, todas essas indagações já se faziam presente, e isso não nos deixa dúvida a inscrição no pórtico do oráculo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo”. Mas, em certo sentido havia a garantia de um princípio maior, um transcendente ao homem que concedia, senão uma certeza, ao menos alguma segurança nas respostas que sucediam os questionamentos. Removido este “Fundamento”, os homens mergulharam em um lodaçal de incertezas e dúvidas, pois não sendo possuidores de um ponto firme de onde pudessem partir, partiam de si mesmos na construção do edifício dos saberes, sabres que se constituíram na “segurança” da Modernidade e na desesperança da Contemporaneidade, isso porque suas bases são na realidade relativas e inconstantes “a razão e a experiência”!
Construir o edifício do conhecimento tendo como base e princípio aquilo que é relativo e finito “o homem”, é uma tarefa grande em demasia, além da capacidade que nossas forças têm para suportar. Algo análogo a Atlas suportando em seus ombros o Monte Cáucaso, ele necessita de um libertador.
A recusa em reconhecer seus limites, ou quem sabe a incapacidade artificialmente gerada de fazê-lo, torna-nos constantemente oprimidos pelo peso dos absolutos que tentamos sustentar com nosso ser relativo, e a grandiosidade do infinito que ousamos abraçar com nossa natureza finita.
Foi por não poder encontrar o justo que se achou o forte, etc.
É justo que o que é justo seja seguido. É necessário que o mais forte seja seguido.
A justiça sem a força é impotente, vulnerável; a força sem a justiça é tirânica. A justiça sem a força será contestada, porque há sempre maus; a força sem a justiça será acusada. Carece, pois, juntar a justiça e a força; e, dessa forma, fazer com que o que é justo seja forte, e o que é forte seja justo.
A justiça é sujeita a disputas; a força é muito reconhecível, e sem disputa. Assim não pôde dar força à justiça, porque a força contradiz a justiça, dizendo que esta, a justiça, era injusta, e que ela ,a força, é que era justa; e, assim, não podendo fazer com que o que é justo fosse forte, fez-se com que o que é forte fosse justo. Assim, o forte e o justo existindo juntos, a paz existiria. E, tudo, por hábito, imposto pela força , seria razoável. Afinal, só queremos estar sujeitos à razão e à justiça, nos levando a crer, por hábito, que o que seguimos só pode ser uma delas, se não, seria tirania.