Rumi – A evolução da forma

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo; um punhado de pó
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne o mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Retirado de: http://www.sertaodoperi.com.br/poesiasufi/poesia/indice.htm

Rumi – [A Casa dos Hóspedes]

O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

Rumi – [Sama]

Sama

Vem, vem, tu que és a alma
da alma da alma do giro!
Vem, cipreste mais alto
do jardim florido do giro.

Vem, não houve nem haverá
jamais alguém como tu.
Vem e faz de teus olhos
o olho desejante do giro.

Vem, a fonte do sol se esconde
sob o manto da tua sombra.
És dono de mil Vênus
nos céus desse remoinho.

O giro canta tuas glórias
em mil línguas eloqüentes.
Tento traduzir em palavras
o que se sente no giro.

Quando entras nessa dança,
abandonas os dois mundos;
é fora deles que se encontra
o universo infinito do giro.

Muito alto, distante se vê
o teto da sétima esfera,
mas muito além é que encontras
a escada que leva ao giro.

O que quer que exista, só existe no giro;
quando danças, ele sustenta teus pés.
Vem, que este giro te pertence
e tu pertences ao giro.

O que faço quando vem o amor
e se agarra ao meu pescoço?
Seguro-o, aperto-o contra o peito
e arrasto-o para o giro!

E quando as asas das mariposas
abrem-se ao brilho do sol
todos caem na dança, na dança
e jamais se cansam do giro!

Obs: Muito provável que o “giro” se refira à dança que Rumi inventou que simula o movimento dos planetas no sistema solar.

Nossa canção Vitoriosa!

Rumi 14

Nesse dia final,
quando me ponham a mortalha,
não penseis que minha alma
permanecerá neste mundo.

Não chores por mim, gritando:
“Que tragédia, que tragédia!”
Cairias assim nas armadilhas
de um enganoso espelhismo.
Essa seria a verdadeira tragédia!

Quando vires meu corpo inanimado passar,
não griteis: “Se foi!, se foi!”,
pois será meu momento de união,
de aceitar o abraço eterno do Amado.

Quando me introduzirem na cova,
não me digais: “Adeus, adeus!”
A tumba é apenas um véu
que oculta o esplendor do Paraíso.

Pensa na aurora se houveres visto o ocaso.
Que dano fez pôr-se à Lua ou ao Sol?
O que é crepúsculo a vossos olhos
É alvorada para mim.
O que é para vocês uma prisão
É para minha alma um infinito jardim.

Crescerá toda semente no solo enterrada.
Haveria de ser diferente à semente humana?
Sai cheio cada balde que desce ao poço.
Deveria queixar-se me em vez de água
Retiro o próprio José (a beleza)?

Não busqueis aqui as palavras,
Busca-as em outro lugar.
Canta para mim no silêncio do coração
E me erguerei da terra para ouvir
Vossa vitoriosa canção.

Rumi – [Quem está em minha porta?]

Rumi 13

«_Quem está em minha porta?», perguntou Ele.
«Teu humilde servo», respondi eu.
«_Que é o que te traz aqui?»
«Saudar-te, me Senhor.»

«_Quanto tempo mais viajarás?»
«_Até que TÚ me detenhas.»
«_Quanto tempo mais ferverás no fogo?»
«_Até que esteja purificado. Este é meu juramento:
No altar do amor entrego riqueza e posição.»

«Tens defendido teu caso mas não tens testemunhos.»
«Minhas lágrimas são minhas testemunhas,
a palidez de meu rosto são minhas provas.»
«Teu testemunho não tem validade:
Teus olhos estão demasiado úmidos para ver.»
«_Pelo esplendor de Tua justiça
meus olhos tornaram-se limpos e sem imperfeição.»

«_Qué buscas?»
«_Ter-te como Amigo permanente.»
«_Que queres de Mim?»
«_Tua abundante Graça.»
«_Quem foi teu companheiro na viagem?»
«_O pensamento de Ti, meu Rei.»
«_Que é o que te trouxe aqui?»
«A fragrância de Teu vinho.»

«_Que é o que mais te agrada?
«_A companhia do Soberano.»
«_Que é o que n’Ele encontras?»
«_Centenas de milagres. »
«_Por que está o palácio deserto? »
«_Porque todos temem ao ladrão.»
«_Quem é o ladrão? »
«_Quem me mantenha apartado de Ti. »

«_Aonde encontras segurança? »
«No serviço e na renúncia.»
«_Que te oferece a renúncia? »
«_A esperança de saIvação»

«_Onde se acha a graça?»
«_Na presença de Teu amor.»
«_Como te aproveitas desta vida?»
«_Mantendo-me fiel a mim mesmo.»

Chegado está o momento do silêncio.
Se lhes falo de Sua verdadeira essência,
sairás de vosso ser voando,
E nem porta nem telhado os poderiam reter!

Obs: poesia sufis não têm títulos.