Co-Interacionismo – O Desafio Em Correlacionar As Teorias de Piaget, Vygotsky & Wallon.

Introdução.

No binômio professor/aluno ambos os termos correlacionam-se às categorias ensino/aprendizagem. Enquanto a Ciência da Educação ocupa-se com a dimensão do ensino, a Psicologia se ocupa com a aprendizagem, e, o faz elaborando teorias que visem dar conta desta categoria explicitando quais os mecanismos envolvidos no âmbito psíquico, intelectivo e emocional dos alunos e criando metodologias equivalentes que possibilitem ao professor uma melhor execução de sua função docente. Neste contexto três teóricos são extremamente importantes e destacam-se pelas contribuições marcantes mesmo para além dos campos de pesquisa aos quais se dedicavam, sobretudo, na área da educação: Jean Piaget (1896-1980); Henri Wallon (1895-1962) e Lev Semionovitch Vygotsky (1896-1934). Em caráter avaliação à Disciplina Didática e Metodologia do Ensino1º Semestre de 2011 – sob a responsabi

lidade do professor doutor Ronaldo Negrão, elaboramos este breve escrito no qual intentamos lançar um rápido olhar sobre as teorias de aprendizagem – dos autores supra – e em pensar na possibilidade em correlacioná-las num tudo coerentemente ordenado.

1-Jean Piaget (1896-1980).

            Piaget destaca-se por suas pesquisas no campo da biologia e da psicologia, por meio de seu vasto domínio destas ciências foi capaz de elaborar uma síntese cuja teoria chama-se psicogênese – algo como: origem da psique, da alma, da mente humana – partindo do modelo oferecido pelas ciências biológicas Piaget propõe que o homem, enquanto organismo vem ao mundo dotado de uma pré-formação com a qual responde a estímulos externos, esta pré-formação são seus reflexos – relativos aos cinco sentidos – os reflexos têm como sede sua estrutura neurológica, cada reação aos estímulos que recebe do meio em que está inserido altera, em certo aspecto, esta estrutura. Os reflexos constituem a herança biológica do homem e são demasiadamente importantes na atuação deste no sentido de apropriar-se da herança cultural da espécie.

A construção da psique inicia-se a partir da formação intra-uterina e, portanto, cabe considerar que um indivíduo ao iniciar a carreira escolar já carregue em si percepções, informações e experiências que formam o que Piaget chamou de esquemas de ação. Estes esquemas servem de referência para quando no processo de aprendizagem o aluno for exposto a novas informações. Sua pré-formação, conforme a configuração destes esquemas de ação, responderá de um ou de outro modo à informação apresentada, se a informação for igual ou análoga a outras já existentes na pré-formação o aluno não terá dificuldades em acomodá-la em seus esquemas de ação, mas, se ela for diferente, ele terá uma sensação de desequilíbrio até que ela seja assimilada e passe a constituir-se como elemento de sua formação. Estes processos são chamados por Piaget de assimilação e acomodação, e, correspondem aos processos externos e internos do movimento de aprendizagem, ou seja, na assimilação a experiência é incorporada às estruturas dedutivas, enquanto na acomodação estas estruturas são postas sobre os dados da experiência.

Piaget propõe ainda que o desenvolvimento mental ocorra em quatro grandes fases, ou estágios: (1º) estágio sensório-motor (de nascimento aos dois anos), cujo último período se inicia o processo de aquisição da linguagem; (2º) estágio pré-operatório (dos dois aos sete anos), onde se dá o uso exacerbado da imaginação e a laboração simbólica em relação à linguagem; (3º) estágio operatório concreto (dos sete aos doze anos), onde a criança estabelece relações entre objetos que mantêm certa analogia, por exemplo, catalogando-os e, por fim o (4º) estágio operatório formal (inicia-se por volta dos doze anos), neste estágio a criança manifesta a capacidade do pensamento formal abstrato, ou seja, ela consegue ultrapassar o âmbito do raciocínio ancorado na presença de objetos palpáveis. Além destes elementos a teoria de Piaget ainda comporta uma explicação acerca do desenvolvimento da moralidade, que tem intima relação com estes estágios, sendo operada através de três períodos: (1º) anomia, a ausência de normas de conduta: (2º) heteronomia, a necessidade de uma imposição de normas cuja instância é externa ao indivíduo e (3º) a autonomia, onde o próprio indivíduo elabora suas normas de conduta.

2- Henri Wallon (1895-1962).

            Henri Wallon elaborou sua proposta teórica – Psicogenética – tendo como base epistemológica o materialismo histórico dialético – de acordo com o modelo originalmente proposto por Karl Marx (1818-1883) no Manifesto do Partido Comunista (1848) – nesta perspectiva toda construção da psique só ocorre por meio da relação entre os homens no âmbito da vida coletiva, noutras palavras, o processo de humanização é resultado de um movimento de interação entre subjetividades diferentes que se constroem na aproximação mútua de conhecimentos intersubjetivamente constatáveis, e, cuja apropriação torna-os conteúdos de sua vida intra-subjetiva.

Nesta relação Wallon aponta na constituição

Henri Wallon

biológica, orgânica do homem, como um processo de interação entre os sistemas cortical e o sistema muscular, quando na apropriação de novos saberes influem-se mutuamente com base na tonicidade – a atividade elétrica da musculatura – específica de cada sistema, ou seja, a exposição a situações de stress, por exemplo, produz alterações emocionais que afetam a produção de tônus cortical, que por sua vez afeta o tônus muscular, assim como o esforço muscular altera a produção de tônus muscular, que por sua vez afeta a produção de tônus cortical. O problema está em que toda esta atividade intensa produz um ruído na zona associativa do cérebro o que interfere no processo de aprendizagem, pois esta, segundo Wallon, ocorre quando o sujeito consegue, em relação aos signos, passar do estado sincrético – confuso ou indiferenciado – ao estado diferenciado. Para que isso ocorra é necessário que haja condições de acesso na memória provisóriahipocampo – para o “resgate” de informações ali armazenadas com vista à realização do processo associativo

A grande contribuição de Wallon foi destacar a importância das emoções no processo de aprendizagem e conseqüentemente a necessidade de um ambiente favorável, organizado, para sua concretização.

3- Lev Semionovitch Vygotsky (1896-1934).

Vygotsky destaca-se por sua percepção aguda acerca da importância da linguagem na construção da realidade

Vygotsky

humana no âmbito da coletividade; sua teoria tem sido denominada sócio-interacionismo, pois semelhante à concepção de Wallon busca no materialismo histórico bases para sua legitimação e atribui à relação entre herança biológica e a herança cultural a construção da consciência humana. Como se dá este fenômeno é explicado através da atividade de interação entre a subjetividade humana e a objetividade própria dos instrumentos e signos enquanto instâncias mediadoras pelo qual a comunidade dos homens numa dialética constante modifica a natureza e concomitantemente a si mesma.

Os signos constituem a linguagem e na obtenção e domínio desta o homem constrói sua humanidade, a auto-imagem, a auto-estima e o auto-respeito, e, isso em uma postura perante o mundo que se pauta na atitude deste com os conceitos, sendo que a capacidade de sistematização ou não sistematização destes caracterizam uma postura cientifica – no primeiro caso – e, portanto, não ingênua; ou, uma não cientifica – cotidiana – logo, ingênua.

Segundo Vygotsky, o indivíduo desenvolve a capacidade de sistematização dos conceitos numa relação com o coletivo, a organização do coletivo, de modo sistemático, propicia esse desenvolvimento, enquanto um coletivo não sistemático não o faz, a construção da consciência ocorre através da linguagem. Tudo isso constitui o que Vygotsky chamará de zona de desenvolvimento real – porque frisa o que o indivíduo pode realizar sozinho, em que nível de construção sua subjetividade se encontra – com base nisto o conceito de zona de desenvolvimento proximal foi elaborado, nesta zona distingue-se a relação em que o conhecimento intersubjetivo é apropriado pelo indivíduo de modo a constituir-se em conhecimento intra-subjetivo, a partir daí a linguagem é internalizada pelo individuo o que o capacita à realização autônoma de sua sistematização.

4-Breve Esboço De Síntese Entre As Teorias Da Aprendizagem.

            As teorias que tivemos a oportunidade de abordar são ricas contribuições para a Ciência da Educação, elas são excelentes auxiliares para a elaboração de uma didática e metodologia do ensino que alcancem o seu objetivo: a formação da consciência crítica e autônoma do educando com capacidade de exercício de sua cidadania na sociedade democrática.

Todavia, mesmo tendo sido elaboradas há mais de meio século seus efeitos no âmbito da educação ainda são efêmeros, e, até mesmo ambíguos, posto que, são consideradas, pelos educadores, principalmente naquilo que as diferencia, e não nos elementos que as aproximam.

A forte tendência mesmo entre os educadores é de segmentarem-se em nichos que advogam para si a herança de um ou de outro dentre este teóricos. Disto resulta que temos a escola de Piaget, a escola de Wallon e a escola de Vygotsky; cada uma considerando a si mesma, de modo exclusivo, como a melhor proposta ou a resposta ideal para o problema da construção da psique e para a elaboração de uma teoria da aprendizagem.

O que temos é uma polarização do problema, uma visada sob uma única perspectiva sobre um fenômeno que, intuímos, possui diversas perspectivas; considerar o fenômeno humano por um único ângulo é deixar de lado as múltiplas faces com as quais ele se nos apresenta. E talvez, uma teoria que consiga abarcar num todo coerentemente ordenado essas contribuições destes teóricos seja a que possa dar conta satisfatoriamente do problema que requer mais que um único olhar limitado, ainda que agudo, por seus elementos constitutivos.

As teorias tratadas apontam um caminho de elaboração para uma didática e metodologia do ensino que tem em cada autor a ênfase, mais específica, num elemento: em Piaget a formação individual com base no modelo biológico é priorizada, Wallon tem como núcleo a emoção e esta em resultado da interação como o meio, e, por fim, Vygotsky, onde a organização do coletivo é essencial para a formação do indivíduo.

Estas propostas não são excludentes, não é necessário que se escolha uma e rejeite outra, pois, consideram âmbitos, aspectos diferentes no processo de formação do sujeito.

É provável que o caminho mais seguro para uma boa didática seja aquele que considera em primeira instância a organização do coletivo, conforme a proposta de Vygotsky, que coloque de modo sistemático os conceitos com os quais o aluno há de contatar-se pela primeira vez, em que, sobretudo, o ambiente físico seja espaço de organização para que não haja tensão sobre o educando, de modo a proporcionar-lhe o exercício pleno de isegoria, ou seja, que ele possa manifestar opiniões diferentes sem ser afetado negativamente na auto-imagem. Bem, isso movimenta a preocupação com a didática para o plano em que não se considera apenas a questão intelectiva, mas, sobretudo a emotiva, conforme propõe Wallon, a possibilidade de vivências emocionais saudáveis, positivas num ambiente em que a organização é construída com o fim de um exercício da isegoria de cada educando e onde essa organização no âmbito conceitual presa por uma sistemática, se torna mais concreta, bem como as próprias condições emocionais contribuem para essa mesma organização. Por fim, nada mais resta senão laborar a construção individual sob a perspectiva de Piagetprias condiçs concreta, bem como as prsa organizaçpropoe m. aboraçonsiga abarcar num todo corentemente ordenado as contribuiç tendo lançado as bases organizacionais e emotivas o ambiente é propício a que focalizemos a relação das estruturas na obtenção de novos conhecimentos de modo que o indivíduo mova-se – no plano conceitual – de um estado de desequilíbrio à equilibração – a ação conjunta da assimilação e da acomodação – dando lugar à plena adaptação intelectual.

Conclusão.

Este itinerário visa estabelecer uma co-interação entre as diversas teorias aqui expostas, para tanto, tratamos inicialmente de cada uma delas individualmente visando distinguir suas semelhanças e dessemelhanças, os pontos em que seria possível correlacioná-las e os pontos onde isso não seria possível. Esta abordagem constitui-se no exercício de interdisciplinaridade e é importante para os problemas postos, hoje, pela Ciência da Educação, todavia, todo exercício de interdisciplinaridade deve ser levado a efeito após a sistematização prévia de duas ou mais teorias, caso contrário, a interdisciplinaridade, incorrerá no risco de parecer ter sido artificialmente engendrada, pois terá um caráter superficial sendo incapaz em alcançar seus objetivos teóricos e menos ainda seus objetivos práticos.

Faltou-nos abordar as contribuições de outro grande teórico em psicologia: Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), cuja teoria, Behaviorismo, deu origem à ciência análise do comportamento; esta tem sido importante para a discussão na área da educação, problematizando o caráter “livre” de nossas das ações do indivíduo nas relações interpessoais e a possibilidade de modificação de seu comportamento por meio de premiações e – ou – punições. Todavia, inserção deste tópico ficará a cabo de futuras reflexões acerca das possibilidades, das esperanças e das “ilusões” do que tem sido denominado pelo epíteto co-interacionismo.


Autonomia e interação

Franklin Leopoldo e Silva

A relação entre a universidade e o seu entorno sempre foi problemática. Parte desses problemas foi ocasionada pelo perfil corporativo que tomou a organização universitária, já desde o século XII. É interessante notar, e isto evitaria muitos equívocos e discussões inúteis, que a organização corporativa aparece desde o princípio como condição da autonomia universitária. Isso é constatável historicamente desde que se atente em primeiro lugar para o fato de que a universidade surge contemporaneamente à consciência da independência do intelectual, e, em segundo lugar, desde que consideremos as condições externas que cercaram a origem da universidade. Continuar lendo

Textos – Franklin Leopoldo e Silva

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Teoria da escola dualista

Principal Obra – L´École Capitaliste (1971). C. Baudelot e R. Establet

A tese é que a escola está em dividida em duas grandes redes, as quais correspondem da sociedade capitalista em duas classes fundamentais, a burguesia e o proletariado.

“Considerando que o proletariado possui uma força autônoma e forja na pratica da luta de classes suas próprias organizações e sua própria ideologia, a escola tem por missão impedir o desenvolvimento da ideologia do proletariado e a luta revolucionaria. Para isso ela é organizada pela burguesia como um aparelho separado da produção. [...] ela qualifica o trabalho intelectual e desqualifica o trabalho manual, sujeitando o proletariado à ideologia burguesa sob um disfarce pequeno-burgues. [...] A escola é longe de ser um instrumento equalização social, é duplamente um fator de marginalização: converte os trabalhadores em marginais, não apenas por referencia à cultura burguesa, mas também em reação ao próprio movimento proletario, buscando arrancar do seio desse movimento (colocar a margem dele) todos aqueles que ingressarem no sistema de ensino.” (Saviani, 2007 p. 27-28)

Primária profissional – (PP) – Para os que constituem as classes dominadas.

Conteúdo: Dominado pelas noções adquiridas no ensino primário, sempre revistas e repetidas; ligada ao concreto.

Conteúdos culturais: Recebem a mesma cultura mas de forma degradada, empobrecida, vulgarizada – o que dá à ideologia SS o caráter dominante. Se submetam à ideologia dominante.

Secundária Superior (SS) – Reservadas para os filhos da classe dominante.

Conteúdo: São uma preparação para o ensino superior; preserva a abstração.

Conteúdos Culturais: Se consome a cultura própria da classe dominante; prepara os futuros agentes intérpretes dessa ideologia.

“O crescimento das possibilidades de escolarização de todas as classes sociais não mudou a distribuição de probabilidade para alcançar os níveis mais elevados de ensino, de acordo com as diferentes classes sociais.” (Gadotti, 2006 p. 189)

“A linguagem desempenha um papel importante na divisão e na discriminação. São os alunos das classes populares que têm maiores problemas na leitura e escrita, logo na primeira série. A escola reforça apenas a linguagem burguesa, a “norma culta”, desconsiderando as práticas lingüísticas das crianças e pobres.” (Gadotti, 2006 p. 190)

Eles não encaram a escola com o palco da luta de classes (Diferente de Althusser), assim a escola seria apenas um instrumento da burguesia na luta ideológica. A escola não é vista de forma que ela constitua num instrumento de luta do proletariado, uma vez que a ideologia proletária adquire sua forma acabada no seio das massas e organizações operárias, não se cogita em utilizar a escola como meio de difundir a referida ideologia.

Boudelot e Establet, defendem a idéia da existência de duas rede escolares:

Definição de Snyders – “Baudelot-Establet ou a luta da classe inútil”