Obra Completa de René Guenon em espanhol

René Guenon, assim como Mircea Eliade, é um pensador obrigatório para quem busca estudar os aspectos do sagrado, as raízes das grandes religiões, seus significados simbólicos e seus erros hermenêuticos. Com um conhecimento não só teórico mas também prático (Guenon realmente vivia nas religiões que estudava, conhecendo de dentro), o pensador francês nos proporcionou um vasto estudo sobre o islamismo, os ritos e símbolos vedas, as diversas correntes do cristianismo, dentre muitas outras. Uma fonte inesgotável sobre conhecimentos tradicionais, Guenon merece ser lido.

Link: https://sites.google.com/site/textostradicionales/ren-gunon-abdel-wahid-yahia

Espiritualidade

Francis Bacon (1561-1626) escreveu uma pequena obra, intitulada De Sapientia Veterum, “A Sabedoria dos Antigos”[1], onde pretende demonstrar que os mitos antigos eram alegorias de aspectos atinentes à ordem civil, moral e filosófica!  Entre os mitos conhecidos de , Perseu, Dédalo e outros, encontramos aquele que narra a história de Erictônio que o filósofo relaciona com a atitude de Impostura. Seguindo o exemplo de Bacon, gostaríamos de usar desta narrativa para refletir sobre a  espiritualidade, assunto, não pouco, suscetível à impostoras.

Na tradição grega, diz-se que Vulcano ardendo de desejo tentou possuir Minerva, à força; seu objetivo fora malogrado, no entanto, sua semente derramou-se no chão de forma que lhe nasceu Erictônio. Este da cintura para cima era belo e formoso, porém suas coxas e pernas eram disformes – finas e sem consistência – de tal modo que não podia suster-se em pé!

Herdeiro do talento de Vulcano e vaidoso como só, fez um carro com o qual podia locomover-se escondendo a parte feia do corpo e simultaneamente mostrando a bonita!  Erictônio era um impostor, as pessoas encantavam-se por seu busto e por seu rosto, porém desconheciam sua deformidade escondida por seu belo carro!

Hoje muitos grupos e personalidades usando técnicas arrojadas de marketing, os recursos tecnológicos da mídia eletrônica e da indústria do entretenimento, nos encantam, porém escondem sua deformidade, sua fealdade. Fealdade esta que consiste na falsificação da espiritualidade, no incentivo de atitudes egóticas por parte de seus adeptos e líderes, que vivem em total contradição com a mensagem das tradições espirituais da humanidade. Estes apontam para terra, almejam apenas os “valores” deste século – dinheiro, poder, fama… – e ignoram valores transcendentes, não suscetíveis a efemeridade deste mundo! Pregam uma mensagem de total conformidade com os anseios desta geração “fast food”, prometem aprimoramento espiritual rápido e garantido, principalmente àqueles que podem pagar bem e manter o alto padrão de vida destes novos gurus!

A iluminação – libertação, ou mesmo salvação – apregoada por eles está confinada ao seu grupo particular, que transmite a seus adeptos a crença que podem alcançá-la através de onerosas sessões programadas especificamente para esse fim!

Logo, na presente era, as pessoas têm crido nas afirmações mais estapafúrdias no que tange a espiritualidade. Muitos se aproveitam da incapacidade com a qual os homens e mulheres do século XXI lidam com esse assunto e conseguem vender sua mensagem usando slogans e rótulos, com os quais querem nos convencer que integram a corrente de transmissão das tradições espirituais ou que delas são remanescentes; quando na verdade, sua mensagem nada tem em comum com essas tradições – a não ser uma ou outra afirmação, temperada a gosto de seus proponentes – o que indica que estes usam de má-fé para com a boa-fé das pessoas!

Mundo caótico, do ponto de vista da espiritualidade, mundo de evangélicos que não valorizam o Evangelho, espíritas que não cultivam as ciências do espírito, ortodoxos que não andam no caminho da retidão, católicos que desconhecem o significado do universalismo[2] cristão, protestantes que já não protestam contra a situação de conformismo e esotéricos que publicam seus “segredos’ e os vendem em livrarias como best-sellers.

Este é um mundo de respostas fáceis,  o mundo em que temos vivido, onde todos se julgam aptos à discorrer sobre qualquer assunto, e, aquele que mais discorre é tido por  mais destacado entre seus pares, porém, suas palavras não passam de opiniões – doxa – cuja profundidade não ultrapassa a de uma poça d’água.

Alguns diriam que isto é um mal que atinge a plebe, as massas, e que homens letrados não se curvam a superstições e não se apegam a futilidades, e, que com o aumento crescente dos níveis de formação escolar e acadêmica, em breve,  estas balelas serão erradicadas.

Belo discurso positivista, porém tão marcado pela ingenuidade, quanto ingênuos são os que nele acreditam, pois, infelizmente não podemos dizer que este seja um mal, de uma classe inculta e desinformada. Antes, suas raízes se encontram no próprio seio  do academicismo, que após aproximadamente dois séculos de doutrinação, conseguiu lançar-nos num lodaçal de secularismo e incapacidade de considerarmos seriamente a possibilidade de uma realidade ou valores transcendentes que se correlacionem com a imanência de nosso viver, de modo,  contribuir para o pleroma de nossa existência.

O Dr. Walter Martin, certa vez, compartilhou que todos os anos a Associação dos Bancos dos Estados Unidos leva centenas de funcionários a Washington para um treinamento onde aprenderão a identificar dinheiro falso. Esse treinamento tem uma duração de quinze dias, mas, sua peculiaridade está em que durante esse período os “caixas” não manuseiam nem uma vez, cédulas falsas, apenas verdadeiras. Por que?

Porque a Associação… acredita que se os funcionários dos bancos estiverem bem familiarizados com as cédulas verdadeiras, reconhecerão facilmente, quando durante seu expediente de trabalho tiverem qualquer contato com cédulas falsas!

Este expediente ilustra, de modo simples,  porém eficiente, como a experiência de formação de um indivíduo pode se constituir no fator decisivo para sua formação, enquanto ser humano,  e enquanto pessoa, o que implica viver na profundidade de seu ser muito mais  como uma totalidade, do que como uma fração, muito mais como  um ser independente, do que como um escravo.

Porém, frente a isso, uma pergunta  se nos impõe: se nossos mestres não nos ensinaram nada sobre a verdadeira espiritualidade, e, nem ao menos a considerar sua existência ou  possibilidade,  quando a falsa, se nos apresentar, como a  distinguiremos?


[1] Cf. Francis Bacon. A Sabedoria dos Antigos, São Paulo, UNESP, 2002.

[2] A expressão Ciências do Espírito, pode ser entendida como aquela que trata dos  elementos constitutivos da Cultura, portanto, criações do espírito humana (ex. Crítica Literária, Pintura e etc.), ou como aquelas ciências que, em conjunto, estudam fenômenos mentais atinentes apenas a seres dotados de consciência (ex. Psiquiatria, Fenomenologia e etc.).  Lembremos que a palavra ortodoxia carrega consigo o sentido de caminho correto e católico o significado de universal.

O significado cósmico da habitação humana.

Riad - Figura do Jardim Primordial

Nas grandes tradições religiosas Deus e o universo são tidos como o macrocosmo e o homem como o microcosmo, este carrega em si de modo análogo as mesmas particularidades existentes no macrocosmo. Essa correspondência possibilita estabelecer analogias úteis para o nosso aprimoramento espiritual. As grandes tradições do Espírito sempre consideraram que a analogia entre o macrocosmo e o microcosmo também pode ser aplicada a templos e a todo tipo de edifício construído com objetivos sagrados (quer trate-se de mesquitas, sinagogas, stûpas ou catedrais cristãs)!
Porém, cremos como alguns eruditos (e neste caso pensamos em Guénon ), que as habitações humanas também podem ser objetos dessa analogia. Pois, há uma transposição do templo (neste caso como macrocosmo) para a residência (como microcosmo), sempre guardando as devidas proporções. Isso mostra a sacralidade do lar e qual seja a dinâmica espiritual do homem em sua habitação que deve tornar-se um ritual doméstico de exaltação ao Altíssimo. A própria palavra habitar (em latim habitare) deriva da palavra hábito (em latim habitus), um hábito é algo que fazemos de modo regular e com uma certa constância, de modo a tornar-se uma inclinação, no latim habitare se liga etimologicamente a habere (ter), logo é algo que temos devido à interiorização, daí a relação com ritual, aquilo que se compõe de determinados, gestos, atos e palavras que têm um significado místico, transcendendo a mera forma. Isso significa que a habitação, o lar tem um significado mais que meramente utilitário, a habitação humana é também um microcosmo refletindo o macrocosmo. Essa característica foi mantida nas sociedades tradicionais, o modelo islâmico é muito significativo neste ponto, suas residências possuem os pisos (ou as bases) quadrados ou retangulares (quadrado duplicado) e os tetos abobadados. Nas tradições espirituais o quadrado simboliza a terra e o círculo o céu (no caso, o domo é um semicírculo e símbolo da abóbada celeste). As residências tradicionais são construídas de modo quadrilátero, ao redor de um pátio interior, assim sobre este se constitui um vão livre, um espaço onde o domo é substituído pela real abóbada celeste, afirmando ainda mais o seu caráter simbólico, neste ponto se encontra também um jardim com uma fonte, simbolizando o “Jardim Primordial”, o paraíso onde viveram nossos primeiros pais, a fonte não é outra, senão a fonte da vida, e embora a árvore nem sempre esteja presente, a fonte também faz vezes à “Árvore da Vida”, bem no centro do jardim. Porque, isso indica o local onde podemos nos encontrar com Deus, no centro, a árvore é um símbolo axial, bem como a fonte, o fato de elas estarem no centro e serem atraídas para cima pela lei natural, as caracterizam como colunas ou pontos de ligação entre “reino celeste” e o “reino terrestre”, entre o “em cima” e o “embaixo”, entre Deus e os homens!
Nas residências tradicionais da Índia não há distinção entre sala e cozinha, o fogo é acesso no lugar principal da casa e simboliza a manifestação de Agni (na tradição védica, deus do fogo), da mesma forma os lares tinham suas estátuas próximas ao fogo, ali seria aceso nos corações humanos o desejo pelas coisas celestiais (espirituais) e pelo mundo porvir!
Podemos dizer, enfim que os edifícios eram construídos com significados cósmicos implícitos; e suas estruturas representavam a formação do mundo e (ou) a hierarquia cósmica! Com o evidente declínio do mundo moderno as residências são construídas apenas com fim utilitários. Mas, não totalmente arreligiosos, pois no fundo há uma religiosidade às avessas, onde o consumo é a prática da “fé” e as posses materiais garantias de status social!
Por que será que bem no centro de nossas residências (as salas) estão instalados os televisores, os home theaters e os dvds? Objetos poderosos não apenas para o entretenimento, mas também para a formação de nossas opiniões, de nossos valores e principalmente de nossos anseios!

Bibliografia
GUÉNON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo, Editora Pensamento, 1993.
RIFFARD, Pierre A. O Esoterismo – O que é esoterismo? Antologia do esoterismo ocidental. São Paulo, Editora Mandarim, 1996.

Uma breve reflexão sobre o nome/função e a simbólica da luz nos mitos pré-cristão e grego; Lúcifer e Prometeu

Blacksmith e Sheaper são sobrenomes comuns na Inglaterra. O primeiro significa ferreiro, o segundo, pastor. Aqui há uma coisa interessante. Estes nomes – ou sobrenomes – são também funções, trabalhos. Assim como os Deuses da mitologia grega que têm nome/função. Por exemplo, Philia, o deus do amor que aglomera as coisas ou Neikos, a divindade da discórdia que as afasta. Conceitos usados por Empédocles.

A macieira – pelo seu nome/função – dá maçã. Mas, uns pensam, e se a macieira não der maçã, e, sim, der banana? Então como não têm a função de macieira, não a é, mas, sim, bananeira. Assim sendo, no momento em que me pergunto se a macieira der banana, entro em contradição. Pois, A deve ser igual a A (A=A), ou seja, sua função é seu nome, e assim tem de ser de acordo com esta lógica.

Aristóteles dizia que cada coisa só é a si mesma por ter em sua essência sua própria finalidade e a cumprir. Por exemplo, o homem obter a phronesis e a macieira dar maçã.

Porém, é possível expressar ainda melhor esta situação. Pois, invertemos erroneamente a situação.

  • Não é a macieira que dá maçã.
  • Não é homem que obtêm a phronesis.

E sim,

  • O que dá maçã é macieira.
  • O quem tem phronesis é homem.

Pois, o significado, a essência/finalidade, a sua função vem antes do próprio nome. Até porque em todo o mundo sabemos o que é o objeto mação objeto que dá maçã, ou seja, suas representações, independentemente dos vários nomes das várias línguas que existem.

Carregando tal pressuposto, damos um salto com o intuito de analisar de acordo  com este pensamento um nome, que aqui o pensaremos como nome/função, Lúcifer.

Satan in his Original Glory - William Blake

Todos conhecemos a história da ambição de Lúcifer para com Deus. Em suma, no que nos interessa, Lúcifer tentou infinitamente ser Deus. Brilhar como Deus. E daí o seu nome/função, pois Lúcifer (em hebraicoheilel ben-shahar, הילל בן שחר; em grego na Septuagintaheosphoros) significa o que leva a luz, representa a estrela da manhã (a estrela matutina), a estrela D’Alva, o planeta Vênus, o primeiro a brilhar antes da alvorada.

Numa segunda fase, por tentar tal ‘audácia’ num ponto de vista do senso comum, Lúcifer é expulso dos céus. Também se é tomada a idéia de que  Lúcifer, como o maior dos anjos, não quis se submeter ao ‘homem’, se revolta, assim sendo expulso dos céus e se tornando o nome/função Satã (cuja origem é o hebraico Shai’tan, que significa simplesmente adversário). Mas nenhuma passagem da bíblia diz isso. Vide “Satã, uma biografia de Henry Angar Kelly”.

E em poucas traduções portuguesas aparece aqui a tradução de Figueiredo verte Isaías 14:12: “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?” Como mostra o quadro de William Blake “Satã em toda sua glória” e posteriormente em sua queda a Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgica.

Mas apresento aqui neste texto um novo ponto de vista, uma vez que tomemos Estátua de Lúcifer na catedral Saint-Paul de Liège, na Bélgicaa Deus não como uma personificação, um ser, mas como um estágio, assim como o estágio de buddha. Ou seja, iluminação, iluminado… Lúcifer.

Phillip K. Dick em seu livro, com apenas tradução para o português de Portugal, chamado ” Transmigração de Timothy Archer” nos mostra uma nova interpretação:

Mas, antes, saibamos que aqui Phillip K. Dick ou seu personagem já toma Lúcifer e Satã como uma mesma entidade. Ou, pelo menos, pormenorizadamente, Lúcifer que “enfrenta” Deus com ousadia ainda pode-se ser chamado de satã (com letra minúscula) uma vez que a palavra é comum e se remete a “adversário”.

” – Vejo a lenda de Satã de uma maneira diferente. Satã desejava conhecer Deus tão completamente quanto possível. O conhecimento mais completo seria atingido se ele se tornasse Deus, fosse ele próprio. Lutou por isso e conseguiu-o, sabendo que a punição seria o exílio permanente da companhia de Deus. Mas, ainda assim, fê-lo, porque a memória do conhecimento de Deus, de o conhecer realmente como mais ninguém o fizera ou tornaria a fazer, justificava a seus olhos a punição eterna. Agora, quem considerariam vocês que amava realmente Deus, mais do que qualquer outro que alguma vez tivesse existido? Satã aceitou de boa vontade o castigo e o exílio eternos apenas para conhecer Deus, tornando-se Deus, durante um instante. Além disso, ocorre-me que Satã conheceu verdadeiramente Deus, mas que talvez Deus não tivesse conhecido ou compreendido completamente Satã; se o tivesse compreendido, não o teria castigado. É por isso que se diz que Satã se rebelou, o que significa que Satã estava fora do controlo de Deus, fora do domínio de Deus, como se estivesse num outro universo. Mas Satã recebeu alegremente o castigo, porque ele era a prova, fornecida a si próprio, de que conhecia e amava a Deus.  De outro modo poderia ter feito o que fez apenas pela recompensa… se a houvesse. << É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu>> é, aqui, uma saída, mas não a verdadeira: o que é a meta e a procura do saber e do ser finais: compreender total e realmente a essência de Deus, em comparação com o que tudo o resto é realmente muito pouco.”

No próximo parágrafo, depois de ouvir Timothy Archer, Kirsten, outra personagem, diz:

” – Prometeu – disse Kirsten abstractamente. Estava sentada a fumar de olhar perdido.

Tim disse:

- Prometeu significa <<Criador>>. Ele esteve envolvido na criação do Homem. Ele era também o supremo malabarista entre os deuses. Pandora foi enviada por Zeus para a Terra, como castigo para Prometeu, por ter roubado o fogo e o ter dado ao homem Além disso, Pandora puniu toda a raça humana. Epimeteu casou com ela, ele era a Compreensão Tardia. Prometeu avisou-o para que não casasse com Pandora, uma vez que Prometeu podia prever consequecias. Esse mesmo tipo de conhecimento absoluto do futuro ´ou era considerado pelos Zoroastrianos como sendo um atributo de Deus, a Mente Sábia.

- Uma águia comeu-lhe o fígado – disse Kirsten num tom longínquo.

Assetindo, Tim disse:

- Zeus puniu prometeu acorrentando-o e mandando que uma águia lhe comesse o fígado, que se regenerava continuamente. No entanto, Hércules libertou-o. Sem dúvida que Prometeu era um amigo da Humanidade. Ele era mestre artesão. Há aqui certamente uma afinidade com a lenda de Satã. Conforme o vejo, poder-se-ia dizer que Satã roubou, não o fogo, mas o verdadeiro conhecimento de Deus. No entanto, ele não o deu ao homem, conforme Prometeu fez com o fogo. Talvez o pecado capital de Satã tenha sido o de, ao adquirir esse conhecimento, o guardar para si; não o partilhou com a humanidade. Isto é interessante… por estar linha de racioncínio, poder-se-ia argumentar que pode adquirir-se o conhecimento de Deus por intermédio de Satã. Nunca vi antes ser avançada esta teoria. – Ficou em silêncio, aparentemente a ponderar o assunto. – Eras capaz de escrever isto? – perguntou a Kirsten.

- Eu lembro-me. – O tom dela era distraído e neutro.

- O homem tem de assaltar Satã e tomar-lhe o seu conhecimento. Satã não quer largar. por escondê-lo – e não tanto por tê-lo roubado – é punido. Portanto, e num certo sentido, os seres humanos podem redimir Satã, roubando-lhe à força esse conhecimento.” DICK, Philip K. “A Transmigração de Timothy Archer”. Puclicações Europa-América, Lda. F

Mas aqui avançamos no pensamento de Philip K. Dick/Timothy Archer. Vemos que o Satã que conta Timothy, pela sua função, é mais certo chamá-lo de Lúcifer – ignorarei aqui a discussão de que Satã e Lúcifer poderiam ser ‘pessoas’ diferentes. E nesta história nova vemos que o desejo e o amor de Lúcifer para com o absoluto é infinito, tanto que só ele, através deste amor, consegue iluminar um caminho para isso e tais luzes não são mero jogo de palavras. Pois, só se passa pelo caminho que se vê. Assim como retratado em outro texto sobre luz e iluminação como quando Jesus e Buddha dizem: ‘Eu sou a luz. Eu sou o caminho’. Aqui uma frase leva a outra.

Mas Philip K. Dick/Timothy Archer diz que Lúcifer guardou para si o segredo. Pelo menos o interpreta assim. Mas parece ter lhe faltado a luz para enxergar o caminho por onde seus pensamentos deveriam seguir. Prometeu ‘roubou’ ou alcançou, na m, orada do Deus, o fogo. E o fogo, como sabido  a princípio, aquece e ilumina. E, sabendo disto, vale aqui dizer que Lúcifer só tem este nome por enxergar o caminho através da luz que, no mesmo texto referido acima, ainda diz a ligação que há em tal iluminação com a claridade na mente, como quem diz: ‘agora está claro’. Mas observando que o que se ilumina está dentro de nós, vemos um relação com o místico.

Assim, segundo o Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque, de E. Basaicq, a palavra mystes siginifica “iniciado”, o termo mystikos quer dizer ”que concerne aos mistérios” e a palavra mysterion, por sua vez, equivale a ”coisa secreta ou cerimônia secreta”. Os termos derivam da raiz grega myo, que significa “fechar-se ou ser fechado”. PEREIRA. I. Aspectos Sagrados do mito e do Lógos: Poesia hesiódica e Filosofia de Empédocles. São Paulo: Educ. 2005.

Ou seja,

As doutrinas místicas são secretas, pois não se trata de crenças abstratas e frias, ou de artigos de um credo que é possível ensinar e explicar mediante processos intelectuais [ou seja, não passíveis da comunicação]… A ‘verdade’ que a mística guarda em si é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado (pathein mathein). CORNFORD, F. M. De la Religion. Trad. Antonio Pérez Ramos. 1 ed. Barcelona: Editorial Ariel. 1984. 230.

Então, há uma relação de ambos, Lúcifer e Prometeu, para com a luz e com a chegada ao sagrado. Ainda que Lúcifer e, talvez, Prometeu representem este místico que alcança o conhecimento do Divino e não conseguem passar adiante, pois, como citado acima, ‘é algo passível de apreensão somente ao ser experimentado’, ou seja, Lúcifer não guardou para si o segredo, como diz Philip K. Dick, mas ele não tinha outra opção, não há como transmiti-lo. Havendo assim daí, a possibilidade do nome/função sair, pois, como Platão ainda diz na alegoria da caverna, aquele que alcança a luz e mostra e volta à caverna para mostrar a verdadeira face da luz aos seres da caverna, ele, o homem que saiu da caverna, seria morto por dizer tais coisas e abalar o mundo em que tanto os outros acreditavam. Ele seria, para os seres da escuridão, O Adversário. Porém, ambos foram mal intepretados, até mesmo por Deus. Lúcifer no seu amor com Deus e Prometeu para com a humanidade.

Mas desenvolvo ainda mais, Lúcifer também ajudou a humanidade.  E aqui ainda aparece mais uma similaridade com Prometeu. No Jardim do Éden com Adão e Eva, Satã aparece na aparência de cobra – não vou discutir a relação da deste mito com outros de outros povos, também citados nas ‘Máscaras de Deus’ de Joseph Campbell – e, não dá a maçã à Eva e Adão comerem, mas faz aqui uma coisa muito significativa. Assim como o fogo que, em si, pode não ser usado para nada, mas, para quem sabe usá-lo, pode fundir metais, cozinhar etc. Satã, Prometeu e até como Sócrates no Menão de Platão, não dão uma coisa para se escolher, todavia eles mostram o caminho para a verdade, que é o que eles podem, assim como se entende, no máximo transmitir. Porém, aqui, este salto de que Lúcifer seja Satã e que por sua vez seja a serpente nã consta literalmente na bíblia, vide o livrojá citado “Satã, uma biografia”.

Assim, duas coisas ficam claras, observando Prometeu e Lúcifer ou Satã:

  • No caso de Prometeu, o humanos contra os animais que tinham todas as habilidades, que não eles, os humanos, tiveram o fogo para, com ele, equilibrar a disputa natural podendo através desta alternativa criar possibilidades para a mesma.
  • E, no caso de Lúcifer ou Satã, ele mostrou que, mesmo sob um Deus, é possível fazer coisas que nem Ele tem poder, mesmo no caso de Adão e Eva com o fruto proibido do conhecimento do bem e do mal.

Assim, neste incrível movimento contra o que se acreditava de Deus e para com a humanidade, estes dois mitos nos desvelam, no próprio sentido de aléthea, em suma, duas coisas:

  1. O ser humano, assim como anjos(Lúcifer) e gigantes (Prometeu), têm livre-arbítrio que está acima do poder Divino.
  2. Temos escolhas fora dos contextos.

Mas ficam ainda algumas perguntas como mais uma curiosidade. Haverá Lúcifer ou este possível satã seu próprio Hércules, herói humano (filho de Deus) para libertá-lo? Ou Jesus vendo Satã, o kosmokrator da Terra caindo como um raio, vencendo a Morte, através da ressurreição e se intitulando como a estrela da alvorada ou, ainda, Lúcifer seja este Hércules? Mas isto talvez seja um passo grande demais para a razão e pequeno para a imaginação.

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