Agostinho – Análise do parágrafo “Cantando as Perfeições de Deus”.

Cantando as Perfeições de Deus.

 

Que sois, portanto, meu Deus? Que sois Vós, pergunto, senão o Senhor Deus? “E que outro Senhor há além do Senhor, ou que outro Deus além do nosso Deus?” Ó Deus tão alto, tão excelente, tão poderoso, tão onipotente, tão misericordioso e tão justo,

Nesta primeira parte deste parágrafo, Agostinho se propõe a dar ênfase na questão de que este é o único Deus; o Deus cristão; o Deus bíblico; Os demais são apenas um engano. Ele demonstra isto com perguntas retóricas, mostrando uma certa obviedade no assunto. Logo, O qualifica até onde a palavra pode alcançar. Pois, assim como Plotino acreditava, Agostinho concordava que a filosofia só poderia tentar falar do absoluto, que é infinito e material. Pois, a linguagem humana está aquém daquilo a que se propõe: a verdade.

A filosofia quer atingir e exprimir a verdade no seu sentido mais venerado. A filosofia quer conhecer e enunciar o bem supremo. Porém, para faze-lo dispõe apenas de uma linguagem finita, humana, uma linguagem que é pequena diante da grandeza de seus propósitos. Por isso, é preciso ter cuidado com as palavras, porque elas podem conter uma pretensão vã, podem parecer dizer algo do qual estão demasiado distantes.[1]

            Desta maneira, Agostinho sabe que se deve ter “cuidado”. Mas este cuidado deve se ter em seus dois sentidos. Ou seja, no sentido de esmero e, por outra parte, o cuidado de ter consciência com os limites da palavra. Pois, “a linguagem pode se travestir de portadora da verdade, como se nela coubesse uma doutrina, como se as obras dos homens pudessem conter dogmas, engessados em palavras(…) Não vá ter tanto cuidado com as palavras, cuidado com elas!(…) [Afinal, de que serve a língua de meu cálamo, este instrumento rudimentar, ante a excelência da verdade que deveria exprimir?”[2].

Mas Agostinho lança sua empresa numa forma muito particular:

 [Deus] tão oculto e tão presente, tão formoso e tão forte, estável e incompreensível, imutável e tudo mudando, nunca novo e nunca antigo, inovando tudo e cavando a ruína dos soberbos, sem que eles o advirtam; sempre em ação e sempre em repouso; granjeando sem precisão; conduzindo, enchendo e protegendo, criando nutrindo e aperfeiçoando, buscando ainda que nada Vos falte.

Amais sem paixão; ardeis em zelos sem desassossego; arrependei-Vos sem ato doloroso; irai-Vos e estais calmo; mudais as obras, mas não mudais de resolução; recebeis o que encontrais sem nunca o ter perdido.

Agostinho sabe que a língua não pode, mesmo através do esmero e da técnica, expressar propriamente a verdade. Ao invés disto, utiliza uma técnica literária muito antiga, deveras singular das escrituras. Este é o estilo antitético, que se pode ver também no Livro XII, Capítulo X, parágrafo 10:

“O verdade, ó luz do meu coração,

faze que não sejam as trevas a falar-me!

Deixe-me cair no delas, e me encontrei na sombra,

(…)

Que não seja eu a minha própria vida. Vivi mal, vivendo de mim mesmo.

Fui causa de minha morte. Em ti eu revivo”

            Este estilo, o antitético, utiliza uma figura de linguagem em particular: o oxímoro, que “consiste numa expressão contraditória, ou aparentemente contraditória. (…) Um exemplo de oxímoro é a expressão ‘silêncio eloqüente’”[3]. Mas a pergunta de qual a utilidade desta técnica em específico ainda paira no ar. Mas Moacir Novaes nos responde:

Primeiro, de um ponto de vista geral, segundo o que se chama de teologia negativa, ou apofática. Mas as técnicas apofáticas nos levarão a problemas conceituais. Por isso, veremos, em segundo lugar, que o uso de oxímoros permite salientar como Agostinho encara a tarefa da filosofia, na elaboração de enigmas, de paradoxos conceituais. E finalmente, para apreciar a estratégia subjacente a todas essas manobras, consideraremos um livro especial (…) escrito pelos dedos de Deus, as Escrituras.[4]

  

Assim, Agostinho indica na insuficiência das palavras uma descrição da natureza do absoluto, onde simplesmente ela, a palavra, pára com sua lógica. Alcança o paradoxo. Pois, mesmo a questão da espacialidade de Deus, só pôde ser formulada desta forma. “Acaso estais inteiro em toda a parte, sem que coisa alguma vos contenha inteiramente” (Rm 3,3) já que “Deus não é um ente entre outro, mas o fundamento do ser de todo ente. Sem Deus, não existiria nada que existe.”[5] E, desta maneira, o filósofo continua em seu quarto parágrafo.

 

Nunca estais pobre e alegrai-Vos com os lucros; jamais avaro e exigis com usura. Damo-Vos mais do que pedis, para que sejais nosso devedor, mas que é que possui coisa alguma que não seja vossa? Pagais as dívidas, a ninguém devendo, e perdoais as dívidas, sem nada perder.

 Por fim, Agostinho louvando a Deus, questiona o poder do discurso humano para dizer do próprio fundamento de toda a existência, Deus. Mas adverte aqueles que não vão de encontro a quem os criaram, pois de certa maneira estarão calados para os ouvidos de Deus em sua salvação.

 Que dizemos nós, meu Deus, minha vida, minha santa delícia, ou que diz alguém quando fala de Vós?… Mas ai dos que se calam acerca de Vós, porque, embora falem muito,  serão  mudos.


[1] NOVAES, Moacir. In: Tempo e razão. 1600 anos das Confissões de Agostinho. Edições Loyola. São Paulo.P. 31

[2] NOVAES, Moacir. In: Tempo e razão. 1600 anos das Confissões de Agostinho. Edições Loyola. São Paulo. p. 32

[3] NOVAES, Moacir. In: Tempo e razão. 1600 anos das Confissões de Agostinho. Edições Loyola. São Paulo. p. 40

[4] NOVAES, Moacir. In: Tempo e razão. 1600 anos das Confissões de Agostinho. Edições Loyola. São Paulo.p. 41

[5] BRACHTENDORF, Johannes. Agostinho. p. 45

Publicado em: às janeiro 5, 2012 em 9:05 pm  Deixe um comentário  
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Kierkegaard e Deus

1) Deus

Até aqui a consciência do eu adotou duas gradações: na primeira, o homem é ignorante de seu eu eterno; na segunda, o homem é consciente de um eu, no qual existe, entretanto, eternidade, tendo em seu interior outras gradações estabelecidas. Estas concepções foram todas tratadas pelo ângulo do eu humano, do eu cuja medida é o próprio homem. Mas, perante Deus, este mesmo eu toma outra qualificação a qual Kierkegaard chama de eu teológico, o eu em face de Deus.

A dogmática antiga era vista por Kierkegaard como tendo razão em dizer que o terrível do pecado consiste em se estar perante Deus, sob sua medida, ao invés de que se pense que o pecado contra ou perante Deus não se torna mais ou menos grave. Pois, pecar perante ou contra Deus eleva-se o pecado a um infinito de potência. “O erro estava em considerar Deus como de certo modo exterior a nós, admitir, por assim dizer, que nem sempre se peca contra ele”[1]. O eu tem a ideia de Deus, mas isso não o impede de pecar, porque o que torna a culpa humana num pecado é sua consciência de estar perante Deus.

Desta forma, não é qualquer eu que peca perante Deus, mas, sim, apenas um eu com esta consciência de Deus. Em outras palavras, Kierkegaard esclarece:

O desespero condensa-se à proporção da consciência do eu; mas o eu condensa-se à proporção da sua medida, e, quando esta medida é Deus, infinitamente. O eu aumenta com a ideia de Deus, e reciprocamente a ideia de Deus aumenta com o eu. Só a consciência de estar perante Deus faz do nosso eu concreto, individual, um eu infinito; e é esse eu infinito que então peca perante Deus.[2]

Ou seja, infinito é seu tamanho e tal também é a medida de sua queda. Mas um eu infinito só podemos encontrar no cristianismo, pois é somente nele que se está perante Deus, o verdadeiro e único. Já o eu do pagão Kierkegaard expõe de duas formas: na primeira, o pagão é apenas um ignorante da presença de Deus, residindo sempre, desta forma, no pecado. Na segunda, pode-se negar o pecado do pagão, pois o pecado só o é perante Deus, sendo esta consciência de Deus que falta no paganismo. O pagão mesmo desesperado não peca, pois não se encontra sob a medida Dele.


[1] KIERKEGAARD, Soren.  O desespero humano, Coleção: Os pensadores, Abril Cultural, 1974. P. 384

[2] KIERKEGAARD, Soren.  O desespero humano, Coleção: Os pensadores, Abril Cultural, 1974. P. 384

Publicado em: às setembro 14, 2010 em 10:37 pm  Deixe um comentário  
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Resumo do “Discurso sobre o Método” de René Descartes


Por: André Luiz Avelino

Graduando em Filosofia – FFLCH – USP

Da necessidade de um método

A razão é igual em todos os homens, a diversidade de nossas opiniões não decorre de uns serem mais capazes de conhecerem a verdade do que outros, mas de conduzirem bem seus raciocínios, ao passo que outros os conduzem mal.

Consideração sobre as ciências

Ao terminar seus estudos, Descartes se vê repleto de dúvidas. Renuncia a procura da verdade nos livros e viaja para observar o mundo, o livro da vida. Mas, verifica uma grande diversidade e contradições nos costumes dos homens. Por fim, decide procurar a verdade em si mesmo.

Do método matemático à reflexão filosófica

Apenas os matemáticos encontrara algumas demonstrações, razões certas e evidentes, mas não possuíam um verdadeiro emprego a essas demonstrações, além dos utilizados na mecânica. Então, Descartes, corrigindo a lógica, a análise geométrica e a álgebra, uma pela outra, e reduzindo o número de preceitos, chega a um método composto por quatro regras:

1 – Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade, aceitando apenas o indubitável, aquilo que se apresente de forma clara e distinta, o evidente;

2 – Dividir cada um dos problemas em exame em quantas partes forem necessárias (análise);

3 – Ordenar o que foi dividido partindo do mais simples, acrescendo por degraus de complexidade até o mais composto, supondo ordem entre aqueles que não procedam naturalmente uns dos outros (síntese);

4 – Enumerar e revisar de modo geral as conclusões, garantindo que nada seja omitido.

Descartes aplicou o método à geometria, resolvendo problemas, até o momento, insolúveis, então, certo de sua funcionalidade, o aplica a filosofia, que não possuía princípios que fossem certos.

(mais…)

Publicado em: às agosto 8, 2010 em 4:06 pm  Deixe um comentário  
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Fonte: www.lusosofia.net

Publicado em: às maio 6, 2010 em 9:19 pm  Comentários (2)  
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E-Book – Mestre Eckhart

Professor e teólogo alemão dominicano nascido em Hochheim, próximo a Gota, na Turíngia, que defendeu uma filosofia das mais originais e considerado o maior místico especulativo alemão. Ingressou na ordem dos dominicanos (1265), estudando em Estrasburgo e em Colônia, sob a influência dos ensinamentos de Tomás de Aquino. Estudou no priorado de Saint-Jacques, em Paris, tornando-se mestre em teologia (1302) e lá se iniciou como professor de teologia.

Nomeado provincial dos dominicanos na Saxônia (1303) e vigário-geral para a Boêmia (1306), residiu em Estrasburgo e estabeleceu-se finalmente em Colônia (1314) como mestre dos dominicanos. Com ensinamentos centrados na união da alma individual com Deus, filosofia das mais originais, resultante da fusão de elementos gregos, neoplatônicos, árabes e escolásticos, partia da afirmação de que o homem e o mundo nada são sem Deus, produziu uma obra caracterizada por uma busca da justificação da fé que não contem o suporte da razão.

Morreu em Avignon, França, sendo o autor de Opus tripartitum, Quaestiones, Pregações e Tratados, estes dois últimos em alemão. Entre seus tratados, destacam-se o Livro da divina consolação, Do homem nobre e Do desapego.

Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/


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Dissertações sobre Eckhart

Gilberto Garcia – A visão da liberdade e o olhar relacional em Mestre Eckhart: uma fenomenologia da criação segundo o pensar em Mestre Eckhart – Clique Aqui

Adriana de Souza – Sobre o não-saber ou a experiência da liberdade em Mestre Eckhart – Clique Aqui

resumo: Falar do não-saber, em Eckhart, é remeter-se diretamente à noção de fundo da alma. Este trabalho consiste num relato do caminho da alma ao seu fundo, caminho cujo caminhar traduz um ir além da imagem, além da Trindade; caminho que é ele mesmo um retorno à Deidade. É nesse fundo que se dá a união última da alma com o divino e, simultaneamente, o nascimento de Deus. Para Eckhart todo o sentido desse nascimento depende de ele acontecer em cada um de nós: “Santo Agostinho pergunta: o que me adianta que esta geração esteja acontecendo, se não acontece em mim? Tudo depende, pois, de ela acontecer em mim.” (S.57). Segundo o autor, o conhecimento de Deus não se separa da vivência: conhecer Deus é também e, indissociavelmente, vivê-lo. Essa era a situação na qual se encontrava a cara Marta ou o não-saber: Marta simplesmente está sendo no tempo, ao modo e envio da interioridade. Nesse sentido, Eckhart vive a similaridade de dois aspectos: o Lesemeister, professor, leitor das escrituras; e o Lebemeister, o mestre da vida que, em conhecendo Deus, aprende também a vivê-lo. O que significa dizer que, em todo saber – ainda humano – estaria a aurora de uma realização ainda mais elevada compreendida como um não-saber que é divino.


Acácio Nascimento Júnior – Teologia e experiência na mística de mestre Eckhart. Uma análise de como o “pai da teologia mística” viveu essa aproximação em seu tempo São Paulo – Clique Aqui

resumo: O objetivo do presente trabalho é apresentar a importância do monge dominicano medieval Eckhart no contexto da mística cristã, matéria tão antiga quanto complexa. Defende-se que em nenhum outro a mística cristã alcançou tanto destaque – em parte, porque sua posição metafísica baseou-se, diferenciadamente, no pensamento dialético neoplatônico, e em parte porque, no seu próprio tempo e também depois, algumas de suas asseverações sobre Deus ainda estão para ser entendidas. Para isso foi feita uma recapitulação histórico-teológica sobre as ênfases eckhartianas basilares, a extensão da interdependência vista entre teologia e experiência, e sobre como foi que a mística delineada e estabelecida por ele marcou seu tempo e perpetuou-se, moldando épocas e movimentos mundiais. Esse raciocínio foi mediado pela perspectiva da fenomenologia cristã, e chegou-se à conclusão que existe plataforma verificável, pela qual Mestre Eckhart teria contribuição garantida para a espiritualidade nos dias de hoje.

Publicado em: às março 4, 2010 em 3:27 pm  Comentários (1)  
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Aristóteles – O Método da Metafísica (2/4)

Continua daqui.

Resumo:

Enrico Berti – As razões de Aristóteles – Terceiro Capítulo: O método da Metafísica. Editora Loyola.

A semântica ontológica

A parte central da Metafísica se debruça sobre a análise do “ser enquanto ser e as propriedades que lhe pertencem”. Este objeto da ciência é “capaz de tornar a compreender em si a totalidade do real para o qual a natureza, objeto da física, se revelara inadequada por causa da existência de uma realidade imóvel[1]. A metafísica, a filosofia primeira se encarregará de buscar os princípios e as causas deste novo objeto.

O método pelo qual são procuradas tais causas primeiras não são as representações, mas, para a análise dos significados do ser e de suas propriedades,  denominamos a “análise semântica”, que será melhor elaborada no livro IV.

Após ter distinguido em quantos sentidos se diz cada um [destes objetos], deve-se mostrar, em relação ao primeiro, como em cada predicação [o objeto] se diz em relação àquele (2, 1004 a 28-31).

São distinguidas, segundo Berti, três operações sucessivas: 1) a distinção entre os muitos significados do mesmo termo, a análise semântica, que é um dos instrumentos da dialética; 2) a distinção do “primeiro” entre ele, ou seja, daquele que confere unidade e todos dependem; 3) a determinação do tipo de relação intercorrente entre cada um dos muitos significados e do primeiro.  “Enquanto a primeira operação está entre as praticadas também pela dialética, a segunda e a terceira configuram-se como verdadeira investigação de princípios e causas (o primeiro significado, com efeito, é princípio e causa dos outros) e, respectivamente, como uma espécie de demonstração, Isto é, de ilustração da dependência, dos significados secundários a partir do primeiro[2].

A distinção entre os muitos significados do ser já fora realizada em diversas obras aristotélicas, mas, na Física, mostra que os significados correspondem às dez categorias. E, no livro IV da Metafísica, Aristóteles mostra que a primeira categoria é a substância (ousía) e que a relação da substância e as demais categorias é chamada “harmonia em relação a um”. As outras categorias são chamadas de entes, uma vez que todas contêm, na própria definição, uma relação com a substância. “A substância, portanto, é princípio e causa de todas as categorias, ou seja, do ser enquanto ser[3].

Contudo, a própria operação, acrescenta Aristóteles, deveria ser feita também para as propriedades por si do ser: 1) para o uno, o qual, por sua vez, resultará dizer-se em muitos sentidos, correspondentes às categorias do ser, ou seja, o idêntico (uno na substância), o igual (uno na quantidade), o semelhante (uno na qualidade) etc.; 2) para os seus opostos, o múltiplo, o diferente, o desigual, o dessemelhante etc.; 3) para os vários tipos de oposição, a contradição, a privação, contrariedade em sentido estrito; 4) enfim, para outros tipos de relação, como aquelas entre o anterior e posterior, todo e parte etc. Também neste caso resultará que o significado primeiro é aquele constituído pela substância e que todos os outros dependem dela segundo a “harmonia em relação a um”. Desse modo, será resolvida a aporia mencionada no livro III a propósito dos “dialéticos”, isto é,dos platônicos, no sentido de que caberá à filosofia primeira tratar dos objetos dos quais se ocupam estes últimos.[4]

Aristóteles critica os platônicos, no livro III, pela falta de reconhecimento do primado da substância e, implicitamente, da distinção entre os muitos sentidos dos quais o ser se diz, ou seja, por não praticarem a análise semântica, procurar o verdadeiro princípio do ser e a distinção do significado primeiro. Desta maneira, acabam por os platônicos não alcançarem o verdadeiro conhecimento e permanecerem como simples dialéticos, privados da verdadeira filosofia, discutindo apenas opiniões. Assim também se mostram os sofistas, que assumem a aparência de filósofos e, deste modo, seu saber é também aparente, não real, uma vez que seu modo de viver é caracterizado pelo amor à riqueza e não à verdade. Para Aristóteles, a filosofia deve ocupar-se dos objetos supra-expostos.

Por isso, os editores da Metafísica colocam, depois do livro IV, o tratado que distingue os muitos significados de alguns entre os mais importantes termos filosóficos: princípio, causa, elemento, natureza, uno, ser, substância, idêntico, diferente, opostos etc. O capítulo 7 deste livro nos chama a atenção por dizer sobre os muitos significados do ser,

porque enumera, ao lado do ser que compreende as várias categorias, também outros significados, como “o ser por acidente”, o ser em potência e em ato, o ser como verdadeiro (e respectivamente o não–ser como falso). Do ser por acidente e do ser como verdadeiro Aristóteles trata no livro VI, enquanto do primeiro entre os significados correspondentes às categorias ele trata nos livros VII e VIII, que estão, por essa razão, entre os mais importantes de toda a obra.[5]

No livro VII, Aristóteles mostra que a substância é primeira e que só esta categoria pode existir por si, sendo que as demais devem existir nela, a substância. Portanto, a substância é “princípio” ou “causa primeira” das outras categorias, seja do ponto de vista ontológico ou do lógico-epistemológico. “Isso demonstra como um procedimento dialético, como a análise semântica, é capaz de estabelecer também a dependência não apenas das palavras, mas das coisas mesmas[6].

Contudo, a parte mais importante deste livro se dedica a estabelecer a primeira das substâncias, i. e., o primeiro entre os diversos sentidos que a substância se diz. “Aristóteles toma em exame, para esse propósito, quatro “candidatos” ao titulo de substância, o substrato, o composto, a forma e o universal, e chega a concluir, pela análise de cada um deles, que a “substância primeira” é a forma, a causa formal, não entendida como forma separada, mas como forma de um composto material (“todo”)[7][8].

No livro VIII, Aristóteles aperfeiçoa o discurso já feito, assimilando respectivamente a matéria ao ser em potência e a forma ao ser em ato, e mostrando que a passagem de uma substância da potência ao ato requer uma causa motora.[9]

No livro IX, ele analisa a potência e o ato, estabelecendo qual é o primeiro deles. E este é o ato, anterior à potência do ponto de vista da noção, da substância ou do tempo[10].  Portanto, em tal caso, “a análise semântica conduz à descoberta de uma verdadeira anterioridade ontológica, isto é, uma causalidade real. No fim do livro IX, Aristóteles, alem disso, aperfeiçoa a análise do verdadeiro e do falso, distinguindo a verdade das proposições, à qual se opõe a falsidade, da verdade das intuições, à qual se opõe somente a ignorância[11].

No livro X, por fim, é analisado os opostos em geral, como o uno e o múltiplo, estabelecendo qual deles, os opostos, é primeiro: trata-se  da análise semântica dita no livro IV aplicada no objeto dos “dialéticos”. Assim, este é o modo pelo qual Aristóteles estabelece os princípios e as causas do ser enquanto ser.

continua aqui.


[1] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P.86

[2] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 87

[3] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 87

[4] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 88

[5] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P, 91

[6] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 91-2

[7] No original em italiano foi usado a palavra sinolo, um transliteração do grego syn-olon, que significa, literalmente, com-junto, o todo [n. do T.]

[8] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 92

[9] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 92

[10] Ao menos em espécie, onde o genitor precede o gerado posto que é sua causa motora, enquanto a potência é anterior ao ato do ponto de vista no indivíduo singular.  BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 92

[11] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 93

Publicado em: às fevereiro 14, 2010 em 1:09 pm  Comentários (2)  
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Aristóteles – O Método da Metafísica (1/4)

Resumo:

Enrico Berti – As razões de Aristóteles – Terceiro Capítulo: O método da Metafísica. Editora Loyola.

O procedimento diaporético.

Após Aristóteles  ter denominado a física constituída somente pelas realidades naturais e móveis, ainda é exigente, para a física, um motor imóvel do céu, comumente identificado como Deus. Assim, a metafísica, a ciência mais elevada, a que se propõe procurar a “sabedoria”  (Sophia), as causas primeiras, ou seja, ela deve ainda também tratar de Deus – tarefa que a física não poderia se ocupar -, porque Deus é uma entre as causas primeiras (cap. 2, 982 a8-9).

Na física, Aristóteles julga já ter teorizado suficientemente bem as causas primeiras em sua “história da filosofia”, onde, com parcialidade, procura confirmar sua teoria das quatro causas. Desta forma, mostrando como a metafísica situa-se em uma relação de estreita continuidade com a física.

Aristóteles mostra que cada um dos filósofos que o precederam, reconheceram alguma das quatro causas, confirmando a validez de sua doutrina. Posteriormente, abre uma crítica sobre as filosofias passadas, argumentando que nenhuma entendeu o tipo de causa descoberta, e, sobretudo, que nenhuma especificou todas as quatros simultaneamente.

Entretanto, uma vez que essas idéias já foram expostas na física, Aristóteles, apenas, as confirma novamente. O livro ainda é uma introdução à verdadeira investigação.

Esta investigação se inicia da seguinte forma: primeiro, para Aristóteles, devemos começar com as aporias, ou seja, a metafísica deve trabalhar no terreno da discussão das diferentes opiniões. Posteriormente, se deve mostrar outras aporias e opiniões, eventualmente esquecidas. Desta maneira, se pode, através de eliminação, garantir a validez dos resultados.

E tal validez se dá apenas através de três momentos: 1) a “aporia”, a falta de caminho, bloqueio entre soluções opostas de mesmo valor; 2) o “desenvolver da aporia”, do qual se declara a necessidade para aqueles que querem investigar bem. Procura-se prever para onde levam ambas as direções que aparecem diante nós. Ou, ainda, a dedução das conseqüências extremas de cada umas das duas hipóteses opostas, que conduz ao objetivo de ver qual delas leva a uma contradição e qual, ao contrário, não[1]; 3) a “euporia”, o bom caminho, identifica-se com a solução da “aporia”.

Para Platão, para se encontrar o que se procura é necessário, de um lado, não o conhecer, do contrário, não se procuraria, e, por outro lado, já conhecê-lo, para poder reconhecer, se enfim, se encontrou, mediante sua teoria de reminiscência, o que se procura. Aristóteles já, através do procedimento diaporético, mediante a aporia, a conduz para os extremos de suas hipóteses opostas, e, assim, vê qual leva à contradição ou à não-contradição.

No final do livro III, Aristóteles se dedica a enumerar as quinze aporias concernentes ao objeto da metafísica, os princípios, as causas. Em seguida, ao procedimento diaporético usado em cada aporia, levando-as à duas hipóteses opostas (antítese e tese) e ver qual delas não é levada à contradição.[2]

Esta “força dialética” de trabalhar com opostos é, claramente, pertencente aos dialéticos, ou seja, ao próprio Platão, platônicos, outros acadêmicos e também os “dialéticos” dos quais se refere na Metafísica III 1.  Contudo, nos Tópicos, Aristóteles se refere à dialética por ele mesmo descrita, isto é, o desenvolvimento das aporias na direção oposta, a investigação até os princípios partindo justamente dos éndoxa, representações.

A única diferença entre a dialética de Platão e Aristóteles é a avaliação que lhe davam. Para Platão, era por si, a única e verdadeira ciência. Para Aristóteles, somente crítica, “peirástica”, não ciência, mas método. Sobre os princípios aos quais chegava a dialética platônica, ou seja, o Uno e o Múltiplo, não se poderia afirmar que são os verdadeiros princípios, uma vez que, para Aristóteles, não consideram os muitos significados do ser.

A resposta a Platão vem no livro IV, a metafísica, como expõe Aritstóteles, colhe os melhores frutos da dialética platônica, não apenas sob o aspecto da estrutura argumentativa, mas também sob aquele de conseguir conhecer os verdadeiros princípios.  E consegue resultado graças a sua análise semântica, a distinção entre os múltiplos significados do ser, que permite descobrir os autênticos princípios do ser.

Hegel também admite que para se chegar à ciência ou conceito se deve passar pelas representações. Este é seu método e, mesmo que entenda diferente de Aristóteles, denomina dialética.

Continua aqui.


[1] O método que aqui Aristóteles propõe para a metafísica coincide com o terceiro uso da dialética, o “científico”, isto é, ainda uma vez um método dialético, que denominaremos, por comodidade, procedimento “diaporético”.

[2] Aristóteles não indica explicitamente a solução das aporias. Por vezes, tende para um lado; outras, são mistas; ou, ainda, intermediárias.

Publicado em: às fevereiro 14, 2010 em 1:05 pm  Comentários (7)  
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Resumo – Aristóteles – Metafísica – Livro I – Cap. II

Continuação do Capítulo I

Metafísica – Livro I – Cap. II

Devemos examinar de que causas e de que princípios a filosofia é a ciência”[1]. Mas antes admitamos o que é o filósofo: ele

  1. conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si”[2].
  2. conhece  as coisas difíceis além do conhecimento sensível que é comum a todos e não-científico.
  3. “Conhece as causas com mais exatidão, e é mais capaz de ensinar[3].

O que é filosofia:

  1. A que escolhemos por ela própria, visando o saber [a causa] e não uma ciência de resultados.
  2. A ciência que não é subordinada a nenhuma outra. Ou seja, não recebe leis, mas as dá.
  3. A única ciência livre. A única que existe por si.

A filosofia é a maior das ciências, pois é a que em maior grau, possui a ciência universal, e que assim conhece todos os singulares. Logo, só o filósofo é aquele que pode ensinar já que sabe conhece a causa das outras ciências.

A mais elevada das ciências, e superior a qualquer subordinada, é, portanto, aquela que conhece aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer[4].

Assim, a ciência que procuramos é esta, a ciência teorética dos primeiros princípios e das causas, “porque o bem e o “porquê” são uma das causas”[5].

Foi pela admiração que os primeiros homens se propuseram a filosofar, depois de já haver quase tudo que é indispensável ao bem-estar e à comodidade. “Com efeito, a mais divina [ciência] é também a mais apreciável, e só em duas maneiras o pode ser: ou pó ser possuída principalmente de Deus, ou por ter como objeto as coisas divinas”[6]. Neste caso, Sofia, a divina sabedoria. Ou seja, “Deus, com efeito, parece ser, para todos, a causa e princípio, e tal uma ciência só Deus, ou Deus principalmente, poderia possuí-la”.

Estabelecida no capítulo anterior a existência da ciência ( ou sabedoria ), Aristóteles propõe-se neste capítulo indagar o que caracteriza. Em resumo é: ciência das causas primeiras; teórica, por excelência; eminentemente livre; divina; a mais digna de apreço, gerando a sua aquisição um estado de espírito contrário ao do pasmo da ignorância.[7]

“Fica assim estabelecida a natureza da ciência que procuramos e também o fim que a nossa investigação e todo o tratado devem alcançar”[8].

Continua no Capítulo III.


[1] Ibidem, p.213.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem, p.214.

[5] Ibidem.

[6] Ibidem, p.215.

[7] Ibidem, p.213, nota de rodapé.

[8] Ibidem, p.215.

Kierkegaard e o Indivíduo

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O Indivíduo.

Na filosofia de Kierkegaard, o Indivíduo foi elevado “ao nível de elemento central do pensamento filosófico, sublinhando as diferenças que são características da subjetividade[1]. Neste caminho, Kierkegaard, a partir de seu ataque à filosofia especulativa, especialmente ao sistema hegeliano, ou seja, que

O pensamento especulativo repetidamente tenta alcançar a realidade dentro de seu próprio domínio (do pensamento), assegurando-nos que o que é pensado é real, e que o pensamento não é somente capaz de pensar a realidade como também lhe conferir a existência (enquanto a verdade participa diretamente dele)[1]

Afirma, em contraposto, que a “existência corresponde ao Indivíduo, à realidade singular”[2], não coincidindo com o conceito, pois o homem singular não possui existência conceitual. Assim, desmascara a mentira dos sistemas filosóficos, que se importam mais com conceitos do que com a existência, ou seja, que, com relação a seus modos de viver, constroem castelos conceituais, mas vão morar no celeiro. Pois, este idealismo nega o status ontológico do Indivíduo (particular), daquilo que individua cada eu e o faz distinto.

Kierkegaard vê que Hegel, com seu intuito de saber tudo, ver com os olhos de Deus, inclusive “explicar racionalmente todos os mistérios do cristianismo, o que levaria à secularização total da fé[3], não consegue lidar com a existência, ou seja, o próprio Indivíduo. Como, pensa Kierkegaard, pode alguém que presume discorrer sobre o Absoluto não entender a existência humana? Isso não é possível. O sistema em sua totalidade, segundo Kierkegaard, não é importante para compreender a existência: “o Indivíduo, ética e religiosamente acentuado ou existencialmente acentuado”[4] está sempre e de qualquer modo fora do sistema.

Assim, Kierkegaard propõe uma nova forma de filosofia, deslocando seus interesses, desmerece o sistema especulativo da filosofia e diz não ser esta última a verdadeira filosofia. A nova filosofia de Kierkegaard, além desta ou daquela ciência, se dedica a como existir, como, com consciência, compreender-se a si mesmo, o Individuo.

O Indivíduo conta mais do que a espécie: o Indivíduo é a contestação e a rejeição do sistema. E, ao mesmo tempo, também é o Indivíduo – original, irredutível, insubstituível – que põe em xeque todas as formas de imanentismo e de panteísmo, com as quais se tenta reduzir, isto é, reabsorver o individual no universo.[5]

Ou seja, o Indivíduo é, ao contrario do que Hegel pensava, de acordo com a filosofia kierkegaardiana, superior ao universal. Não como os animais em que o Indivíduo é inferior ao gênero, mas pelo “gênero humano, justamente porque cada indivíduo é criado à imagem de Deus, tem a característica de ser o Indivíduo superior ao gênero[6].

Assim, o Indivíduo se torna o sustentáculo da Transcendência, pois, para Kierkegaard, o Indivíduo é e permanece sendo a “âncora que detém a confusão panteísta, é e permanece sendo o peso com o qual se pode comprimi-la”. Deste modo, exaltando o Indivíduo, há uma desvalorização da massa, do público, não sendo esta comunidade na qual o Indivíduo é reconhecido como um Indivíduo livre e responsável[7][8]. Caindo a verdade na subjetividade do Indivíduo, nas raízes da “existência concreta e integrada de cada Indivíduo particular[9].

Portanto, o que é indispensável não é tanto conhecer a verdade, mas sim introduzi-la na existência. Em outras palavras, cada Indivíduo deve viver em função de uma idéia concreta que seja para ele o ideal de uma existência vivida[10].

A finalidade da existência consiste em tornar-se si mesmo diante de Deus, deste modo,  Kierkegaard garante que o Indivíduo se tornará cristão.

Portanto, se o “Indivíduo” e o “fato de ser cristão” são correlatos e se “ser cristão” é o mesmo que ter “fé”, que filosofia é esta da fé? Aqui não se trata disto, uma vez que a filosofia seja concebida como a demonstração de algo pela razão, pois a verdade, para Kierkegaard, a verdade cristã não se trata de demonstrar e, sim, testemunhar, como a Revelação ou Jesus, o eterno no tempo, e “reproduzi-las” na própria vida. Assim, neste testemunho de fé, a verdade, para Kierkegaard, é subjetiva: ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus.

“A lei da existência (que, por seu turno, é graça) que Cristo instituiu para ser homem é: põe-te como Indivíduo em relação com Deus”. O “cavaleiro da fé” “não dispõe em tudo e por tudo senão de si mesmo, em isolamento absoluto”. Mas esse fato de isolamento diante de Deus é, “para o pobre homem, algo de imensamente angustiante”. E, consequentemente, ele fica com medo, não ousa se pôr em relação com Deus e considera mais prudente ser “como os outros”. [11]

Mas Kierkegaard não apenas especula que as pessoas achem “mais prudente ser como os outros”. Ele vive em meio a este meio mimético e faz, desta experiência uma ligação direta à toda sua filosofia,. Pois, na visão kierkegaardiana, em meados do século XIX, os dinamarqueses, após seu colapso econômico em 1813 e sua derrota militar frente aos britânicos, rapidamente se recuperam e alcançam, de modo geral, o conforto burguês, a segurança econômica, o bem-estar, ou seja, daí aprenderam a se guiar pelas luzes da prudência e do senso comum.

Tal “época de reflexão”, devido à filosofia especulativa, na qual, “o indivíduo singular não fomentou suficiente paixão para livrar-se da armadilha da reflexão[12], não foi somente tecida pelos filósofos, mas pela própria modernização. Kierkegaard percebe que tais mudanças sociais não passariam sem sequer tangenciar o espírito humano e, sim, pelo contrário, lhe causariam um impacto profundo. Assim, este impacto, modelava a auto-compreensão dos seres humanos individuais e tornava a política “uma caricatura desastrosa da religiosidade[13]. E toda estas mudanças foram aceitas com entusiasmo, como bênçãos.

O dinheiro desta sociedade acaba por ter uma força niveladora, o que receia Kierkegaard, pois ele viu nesta abstração da igualdade a mais pura representação da humanidade, na qual “uma vez que o indivíduo torna-se uma pessoa no sentido completo e igualitário, ele não pertence mais a Deus, a si próprio, ao amado, à sua arte, ou ao seu aprendizado; não assim como um servo pertence a um senhor, assim o indivíduo percebe que, em todos os aspectos, ele pertence a uma abstração na qual a reflexão o subordina[14]. Assim, esta abstração, é, com efeito, obra de sua imaginação. E, na medida em que o indivíduo só existe num sentido externo como um número na multidão, cá, na verdade, se encontra “a destruição do indivíduo[15]. Desta maneira, desprovido de qualidades que o distinguem do grupo ou dos outros indivíduos, o único atributo e a única identificação remanescente é a quantitativa, isto é, um número.

Mas esta vida burguesa e de identidade apenas quantitativa, a partir do momento em que seu conforto é alcançado, alcança juntamente sofrimentos burgueses, como o tédio e a inveja. Assim, tendo em mente isto, ao contrário dos filósofos reflexivos, Kierkegaard procura atender à “falha destes filósofos e discutir os desejos, paixões, desesperos, egoísmos, fé, obrigação, responsabilidades, ansiedades, invejas, medos, liberdades, passado, presente e futuro que individuam-no como um ser humano único[16].

Portanto, Kierkegaard, em seu livro “A doença para a morte”, para discutir o desespero de uma forma singular, cria uma atmosfera própria individual do estádio religioso, usando o pseudônimo Anti-Climacus, o verdadeiro cristão, para dar seu “testemunho”.


[1] KIERKEGAARD, Soren. Concluding Unscientific Postscript. p. 283.

[2] KIERKEGAARD, Soren. Diário, X2 A, 328.

[3] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P.6

[4]

[5] REALE, Giovanni. História da Filosofia, Volume III. PP. 243

[6] KIERKEGAARD, Soren. Diário, X2, A, 426.

[7] KIERKEGAARD, Soren. Diário, X2, A, 390.

[8] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P. 7

[9] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P. 7

[10] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P. 7

[11] REALE, Giovanni. História da Filosofia, Volume III. PP. 244

[12] KIERKEGAARD, Soren. Two Ages. P.69

[13] KIERKEGAARD, Soren. JP, 4:4238

[14] KIERKEGAARD, Soren. Two Ages. P. 85

[15] MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844, trad. Martin Milligan (Nova Iorque: International Publishers, 1964) p. 167. In: Two Ages.

[16] ELROD, John W. Paixão, Reflexão e Individualidade.

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